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Dilma e a greve dos servidores

Por Miguel do Rosário

10 de agosto de 2012 : 11h46

Há algumas semanas escrevi um post em que previa o fim do período de turbulências do governo federal, sobretudo na relação com os servidores. Perdoem-me por ter escrito uma besteira tão monumental. Aconteceu o contrário do que eu disse em minha análise.

Na verdade, as turbulências pioraram, e o governo tem lidado com os movimentos grevistas de maneira desastrada. Ainda há um fator que está fazendo a diferença. As centrais sindicais, agora devidamente legalizadas e capitalizadas, dão uma enorme demonstração de força.

Matérias publicadas em jornais hoje revelam que as greves estão mais unificadas, o que reflete o fortalecimento das centrais sindicais, que hoje estão mais organizadas do que nunca.

Quanto à justiça em relação aos motivos da greve, é uma polêmica terrível. Suponho que algumas demandas são válidas, outras nem tanto.

A ministra do Planejamento, Miriam Belquior, diz que se o governo der o que os servidores pedem, isso implicará num aumento de R$ 92 bilhões na folha atual de pagamento, o que seria inviável nas atuais circunstâncias.

Pessoalmente, defendo que se tenha uma lei rígida obrigando o governo a fazer a reposição salarial dos servidores pela inflação, no mínimo. Feito isso, seria necessário regulamentar o direito de greve no serviço público. Não proibi-la, o que seria ditatorial, mas impor algumas regras que impedissem a sua banalização. O dano à população e ao país é grande demais, portanto a decisão de entrar em greve de algumas categorias deveriam ser sempre avaliadas/autorizadas por uma justiça independente, especializada nesse tipo de demanda.

De qualquer forma, há notícias de que a presidente pretende anunciar importantes reajustes para todo o serviço público já na semana que vem.

O ex-presidente Lula, por sua vez, poderá entrar em cena, para negociar com os líderes sindicais.

Esse talvez seja a maior deficiência do governo Dilma, e da própria presidenta: praticar a negociação política. Lula acumulou experiência de décadas nesse seara. Dilma ainda está engatinhando.

A solução para os impasses, todavia, não passa apenas pela presidente. O Congresso também deve entrar em cena, criando leis inteligentes que aperfeiçoem as relações entre Estado e servidores públicos. Estes últimos têm direito à reivindicar melhores condições de trabalho, mas é preciso também criar sistemas de defesa para a sociedade e para a economia.

Lembro-me de um livro do Wanderley Guilherme dos Santos em que ele pesquisa o salário dos servidores brasileiros. Um estudo recente do IPEA também faz isso. Em geral, os servidores do Executivo são os que ganham menos. A conclusão de Santos é que o servidor brasileiro ganha pouco, tem boa produtividade e há um processo muito competitivo e difícil para ingressar no quadro funcional. O problema é uma divisão injusta das remunerações. Algumas funções importantes, como professor, médico ou engenheiros, ganham baixos salários, enquanto profissões que exigem bem menos qualificação e de menor responsabilidade, recebem demais.

O número de funcionários públicos no Brasil, também de acordo com os trabalhos mencionados, é baixo se comparado aos países desenvolvidos, inclusive os liberais EUA. E os dados não mostram nenhum “inchaço” do Estado, para usar um lugar comum da mídia conservadora.

Ou seja, há espaço para aumentar o salário de algumas categorias, e contratar mais gente. Naturalmente, em se tratando de decisões que impactam profundamente nas contas públicas, é preciso fazer as coisas com muita prudência.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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Elson

12 de agosto de 2012 às 07h58

Eu penso que os servidores públicos tem o direito de revindicar melhores salários e condições de trabalho, porém o Governo Federal negocia com eles e mesmo assim o movimento continua intransigente. Qual a categoria de trabalhador no País que consegue arrancar do patrão um aumento de 45°/°? Mesmo que este reajuste seja escalonado, é melhor do que os cassetetes e balas de borracha que certos governadores dão como contra-proposta ao movimento grevista.

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Guilherme Scalzilli

10 de agosto de 2012 às 13h30

Braços cruzados, mãos abanando

Os jornais dos últimos dois dias contrariaram a suspeita de que a grande mídia se aliou ao Planalto para desqualificar os grevistas da União. “Folha”, “Estado de São Paulo”, “Correio Brasiliense” e “Metro” deram primeira página ao tema, com variados graus de catastrofismo e pouca ou nenhuma crítica negativa aos trabalhadores. Reação oposta àquela diante da esquisitíssima paralisação dos metroviários paulistanos.

Falta um debate objetivo sobre se os salários e as prerrogativas de certos setores do funcionalismo público federal merecem tamanha indignação e justificam os transtornos causados aos contribuintes. Tudo bem analisar reivindicações isoladas, mas, se a discussão versará sobre o valor “justo” dos rendimentos, a prudência recomenda que usemos alguma base comparativa no próprio país e entre categorias laborais semelhantes.

Quanto ganham os professores das inúmeras faculdades privadas, que abrigam o enorme excedente acadêmico brasileiro? Que benefícios recebem? Existe banco de horas? Faltas abonadas? Plano de carreira? Façamos o mesmo levantamento (sempre observando a titulação) com os docentes dos sistemas estaduais e municipais, de primeiro e segundo graus. Agora analisemos as informações das universidades federais à luz desse quadro.

[Mas atenção: cada vez que alguém sugerir que o trabalho num campus “vale mais” que no EEPSG caindo aos pedaços da periferia, será banhado em groselha e passará por um corredor polonês de professores subvalorizados].

Admitamos, no entanto, que um miserê não abona outro, que direitos não são privilégios, etcetera. É possível, legal e economicamente, atender às exigências? As contas batem? De onde sairá a verba que ultrapassar o orçamento planejado? Não cabe ao Congresso discutir isso? E a tal crise? Uma despesa milionária extra não aumentaria a vulnerabilidade do país?

São contas ardilosas, mas os sindicatos possuem meios e quadros para efetuá-las. O velho ramerrão das “mamatas que enriquecem os parasitas dos gabinetes” soa justo, mas tem rala serventia para o caso. Falta investigar planilhas, esfregar os dedinhos nos números, dar-se ao trabalho de satisfazer a curiosidade da platéia que paga impostos e nem cogita arriscar o pescoço numa greve.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br

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roger

10 de agosto de 2012 às 13h21

Pior seria um governo tucano tipo FHC, Aécio…Com certeza a grande maioria dos servidores estaria ganhando 1 salário minimo

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