Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Geração uísque com guaraná ou rum com Coca-cola?

Por Liana Carvalho

08 de agosto de 2015 : 00h48

A velha nova geração Coca-Cola
reminiscências e retrocessos gasosos

Texto de Raul Longo (via email).

Acabo de ler matéria publicada na página eletrônica da publicação brasileira do “El País” que me provocou reminiscências da hoje decadente Geração Coca-Cola.

Decadente, mas não morta. Renovada em novas maquiagens que se não escondem as rugas reavivam um rubor por sobre a palidez de rusgas de quando disputavam os mesmos interesses em campos adversários, mas todos armados de eventuais uísques com guaraná ou rum com Coca Cola que agora alguns preferem em pó enquanto outros, já esquecidos da “expressão vertical de desejo horizontal” denunciada por Freud, solitariamente solidarizam-se em renovados encontros pela internet.

Em vão foram-se lá as décadas do dois-pra- lá-dois- pra- cá com torturante band-daid a segurar pregas de olhos insones e peitos caídos de donzelas em aleatórios tropeços por mal lidos mestres da direita internacional, citados na matéria do socialdemocrata “El País”, surgido em 1976 ao final do fascismo de Francisco Franco.

Já por essa época a Geração Coca Cola era decadente e ninguém mais acreditava que a mistura do refrigerante estadunidense ao rum de procedência cubana libertaria a população caribenha que, tardiamente, os documentados pela matéria dizem empesteada pelo estado justo quando o programa de exportação de médicos para o mundo é indicado ao Nobel da Paz.

Isto de cair do bonde da história faz qualquer um perder o rumo, mas mantêm o passo da dança aproveitando eventuais modismos do mercado editorial brasileiro, reportado na matéria da edição nacional do El País espanhol.

Sem nada de flamenco ou passo-doble, pois apesar da pose de toureiros os touros não se arriscam além do manjado “tarará tata raraRÁ”. E na falta do velho LP de Ray Conniff repetem o disco furado do Frederich Hayek (1899 – 1992), apontado por Rodolfo Borges, o autor da matéria, como hit dos intelectuais de direita que assinam os mais novos sucessos editoriais do país.

País Brasil, pois com a crise financeira mundial o pai do neoliberalismo ficou mais fora de moda do que vestido “tomara que caia” e calça boca de sino. “Mas que nova Geração Coca-Cola é essa que resgata velha ideologia démodé recém-falida?”– se perguntariam leitores assombrados com os intelectuais brasileiros.

Pois que perguntem ao FHC! Ele é que entende de intelectuais e Coca Cola.
Não apenas por causa do neoliberalismo que o ex-presidente e atual l golpista sempre nega como quem culpa o cachorro sob a mesa pelo fétido do próprio retrocesso gasoso, mas inclusive pela didática goebblesliana recomendada em seu célebre (?!!!!) ensaio publicado em 2010: O papel da Oposição: “ Mais ainda: é preciso persistir, repetir a crítica, ao estilo do “beba Coca Cola” dos publicitários.”

Palavras do FHC, mas o Borges do “El País” não me fez retroceder à Alemanha nazista em sua matéria “A direita brasileira que saiu do armário não para de vender livros”, embora tenha me provocado algumas reminiscências ao comentar que o principal interlocutor do atual ícone da intelectualidade brasileira, o Olavo de Carvalho, é o deputado Jair Bolsonaro, aquele que só estupra mulher que considere bonita.

Dizia um filósofo de boteco com uma profundidade que Olavo de Carvalho jamais alcançará: “Transar com mulher gostosa qualquer um transa. Quero ver é transar com tribufu pra conferir se é macho”

Divergências filosóficas à parte, o fato é que a matéria do “El País” me provocou reminiscências da Geração Coca Cola por causa do Olavo.

Talvez por não suportar o “tarará” do Ray Conniff e a zurrapa da mistura do rum Bacardi com Coca Cola, apenas esbarrei na Geração Coca Cola entre meus 14 e 15 anos, movido pelo interesse das possibilidades de namoro oferecidas nos familiares e domésticos bailinhos de final de semana. Confesso ter fracassado tanto quanto o FHC na política e, ademais, como secundarista aos 16 me senti pessoalmente atingido pelo fascismo instaurado 4 anos antes no país.

Foi assim que dois anos depois fortuita e duvidosa sorte me sorriu na carranca de um delegado do DOPS, filho de meu padrinho, que me fez arrumar um emprego público no dia seguinte para escapar de investigação que, naqueles tempos, poderia corresponder a desaparecimento.

Apesar de mal agradecido, reconheço que me prestou vital favor, pois ainda que emprego público não impedisse ninguém de ser preso ao menos evitava a súbita evaporação que acometia a muitos na época. Como vários adotavam a medida profilática, logo encontrei outro em idêntica situação através do qual cheguei a compreensão dos históricos avanços e retrocessos da sociedade.

Artista plástico, Guido Ivan repartia seu almoço comigo permitindo-me aguentar os kms diários de caminhada como entregador de contas de água e um dia apresentou-me o irmão, o jornalista Ubaldino Pereira, com quem compartia um familiar humor sardônico.

Filhos de operários, depois que os pais seguiram para o Chile como resgate do último diplomata sequestrado pela resistência a casa do Ivan se tornou ponto de encontro de artistas plásticos, escritores e jornalistas que me apresentaram à Marx, Lenin, Engels, Bakunin, entre outros que consubstanciaram minha definitiva dissidência da Geração Coca Cola recém resgatada por FHC.

Vizinho de cerca, Ubaldino era casado com Júlia e aos fundos morava a irmã da Júlia que nos entusiasmava tanto pela beleza e graça mulata quanto pela vivacidade de uma inteligência militante. Mas era casada com um neófito em filosofia, de pequeno-burguesa e acadêmica interpretação marxista que provocava a ironia de todos e particularmente o sarcasmo dos irmãos Pereira.

Depois de retrucar uma observação às pretensões intelecutalóides foi que, da boca do Ubaldino pela primeira vez ouvi a expressão dirigida a quem “perdeu ótima oportunidade de ficar calado”, hoje tão adequada ao FHC, mas ali dirigida àquele concunhado, ninguém menos do que o Olavo de Carvalho.

Mas é de uma pergunta do próprio Olavo da época que reconheço o que remanesce no atual. Respondendo às suas reclamações por em nossas ironias o identificarmos como integrante da Geração Coca Cola, em tom conciliador Ivan reconheceu o exagero, afinal a que era chamada Geração Coca Cola distinguia-se por total alienação e ignorância política e, acadêmico ou não, o Olavinho – como era chamado antes de impor alguma autoridade vociferando palavrões – era, sem dúvida, um marxista. Portanto, considerou Ivan, se tratava de uma “evolução da Geração Coca Cola. Geração Coca Cola, mas de esquerda!”

Em eco à seriedade das palavras do Ivan mantivemos silêncio contendo o riso com cara de compungido remorso. Mas quando, depois daquele breve momento, desconfiadamente o Olavinho perguntou com a mesma acuidade que hoje o destaca entre seus leitores: “- Tá falando sério, Ivan, ou é outra gozação?”, não foi mais possível segurar a gargalhada.

Mas ao ler a matéria, embora o sarcasmo do Ivan não se repita no Rodolfo Borges, limitei-me a um sorriso, talvez saudoso, quando ali comentou o espanto da comunidade internacional por uma das fotos das manifestações promovidas pela estratégia Coca Cola do FHC, onde se dispõem uma faixa com o insólito pedido de “Menos Paulo Freire, mais educação”.

Sugestivamente o autor da matéria justifica aqueles que não compreenderam o repúdio a uma das maiores referências mundial em pedagogia, explicando que nunca sequer abriram as páginas dos livros de Olavo de Carvalho, o ícone do atual retrocesso intelectual brasileiro, onde se lê: “Vocês conhecem alguém que tenha sido alfabetizado pelo método Paulo Freire?… Nem precisa responder. Todo mundo já sabe que, pelo critério de ‘pelos frutos o conhecereis’, o célebre Paulo Freire é um ilustre desconhecido”.

O que notabilizou Paulo Freire da América do Norte até a Rússia e da África do Sul até a Noruega não foi o método que utilizou para alfabetizar 3oo cortadores de cana em apenas 45 dias. Até porque o método utilizado por Freire é do Frank Laubach, missionário estadunidense que atuou nas Filipinas. O método Laubach então aplicado por Freire é empregado em quase 40 países e estima-se já ter alfabetizado cerca de 60 milhões de pessoas em seus idiomas nativos. 150 mil pessoas só nos Estados Unidos de onde o Olavo de Carvalho fala e escreve para o Brasil sem qualquer noção daquilo a que está se referindo.

De onde se concluí que por mais similar, o método de Goebbels na versão publicitária do FHC só tem efeito no original: “enjoy Coca Cola”. Tem que fazer como Olavo porque quando vindo dos Estados Unidos qualquer arroto vira faixa de manifestação política da direita. E assim como nunca fez o Olavo, não é preciso abrir as páginas de algum livro do Paulo Freire para descobrir que o pedagogo não desenvolveu nenhum método de alfabetização, nenhuma cartilha, nenhum bê-á-bá, embora suas propostas pedagógicas sobre o comportamento do educador em relação ao educando se apliquem ao processo de cognição de quaisquer conhecimentos básicos para a formação do saber humano. Além da alfabetização a matemática, a geografia, a história, as ciências, as artes, a vida, etc. Por isso o pernambucano é conhecido em todo o mundo, embora ilustremente desconhecido pelo Olavo de Carvalho.

Rodolfo Borges não ficou só no Olavo e cedeu espaço também para o Carlos Andrezza, da Editora Record, comentar com entusiasmo o sucesso de vendas dos títulos de autoria da velha nova Geração Coca Cola que hoje vendem quase tanto quanto o comunista Jorge Amado.

Só não tanto porque os livros do baiano continuam vendendo em todo o mundo, e os dos Coke-boys do FHC circulam apenas entre as livrarias brasileiras.

Tampouco a matéria do “El País” demonstra intenção de promovê-los na Espanha onde Lula já foi tantas vezes homenageado pelas principais academias e instituições como o próprio El País, além das centenas de espanhóis que já saíram em desfiles de apoio à Dilma Rousseff encobertas por uma reprodução de foto da Presidenta do Brasil nas dimensões de um quarteirão.

Livros do Paulo Freire também são obrigatórios nos cursos de magistério de qualquer parte do mundo, pois embora Olavo de Carvalho nunca tenha se formado nem em filosofia nem em astrologia (bico que exerceu quando ainda não falava palavrão nem arrotava Coca Cola dos Estados Unidos); seu ilustre desafeto foi professor nas universidades de Harvard e Cambridge, consultor educacional em Genebra (Suíça) e nas colônias portuguesas em África, particularmente Guiné-Bissau e Moçambique. Foi o brasileiro mais dignificado com o título de Doutor Honoris Causa (41) por universidades estrangeiras antes do Luís Ignácio Lula da Silva, mas se não estou enganado, entre os 55 títulos de Lula nenhum é da Universidade Oxford como um dos concedidos ao Paulo.

Já o conhecidíssimo Olavo nunca foi homenageado como doutor de coisa alguma. O FHC recebeu 13, mas há uma forte campanha para incluí-lo no Guinness World Record como o mais persistente golpista da política universal.

Desde 2005! Uma década de tentativas de golpe e ainda tem quem não acredite no poder viciante da Coca Cola. Tamanho que Rodolfo Borges cita diversos outros Sidneys Sheldon, Harrys Portter e Paulos Coelho do retrocesso intelectual brasileiro ao Frank Hayek que vendem “como água no deserto”, conforme o apurado comentário técnico do dono da Editora Record.

Se a venda é mais fluída do que água, a fluidez do conteúdo gasoso da geração Coca Cola se exemplifica na entrevista de Borges a um dos autores formados pelos Institutos Milenium e Ludwig Von Misses Brasil.

De tão fluídicas, sobre as gasosas explanações do entrevistado não há nada a se comentar, mas pesquisando o histórico do patrono do instituto correlato ao Milenium no esforço de formação política da velha nova Geração Coca Cola, se encontra informações bastante atinentes.

Ludwig Von Misses (1881 – 1973) foi um judeu askenazi de Liev, Ucrânia, que emigrou para Viena, Áustria, onde se tornou conselheiro econômico do então ditador fascista Engelbert Dollfuss, amigo e aliado do italiano Benito Mussolini.

Acontece que o método nazista ao qual FHC retrocede via Coca Cola, então se baseava na persistência e repetição de que os judeus, como os petistas no Brasil de hoje, eram a causa única de todas as desgraças europeias. Daí que, apesar de fascista, Ludwig teve de fugir para os Estados Unidos em 1940. Mas é o próprio austríaco Friedrich Hayek quem reconhece “…como estava no caminho errado” do qual foi salvo pelo Ludwig, tal como FHC, Milenium, e ILVM têm salvado a velha nova Geração de intelectuais Coca Cola do obscurantismo e ostracismo em prol do neoliberalismo parido na década de 70 pelos igualmente judeus askenazis Milton Friedman e Henry Kissinger.

Apesar de todo esse histórico estruturado e solidificado no século passado, de forma muito elegante e sutil a matéria do “El País” evidencia não ser necessário nenhuma crítica de esquerda, nenhum fundamento comunista, nem mesmo a socialdemocracia dos governos do PT para demonstrar quão gasosos são os caminhos adotados pela velha nova Geração Coca Cola brasileira, pois tudo o que escrevem já se dissipou pela crise econômica mundial desde 2008.

O documentário The True Cost do estadunidense Andrew Morgan, por exemplo, comercializado na internet pela Amazon, VHX e Apple, portanto mais capitalista impossível, em pouco mais de uma hora nadifica todas as páginas publicadas pelos retrocessivos remanescentes da extemporânea velha nova Geração Coca Cola brasileira.

Mas devo confessar que a matéria do Rodolfo Borges me trouxe reminiscências bem mais antigas, quando ainda criança, lá anos 50, meu pai contava de um seu colega do então principal veículo de comunicação: as emissoras de rádio.

Antes do advento da TV, Renato Macedo, diretor de umas das rádios em que meu pai trabalhou, era publicamente conhecido como locutor e empresarialmente reconhecido como dos melhores profissionais de comunicação do Brasil. Aquilo que hoje se diz “marqueteiro”. No início dos anos 40, com nossa entrada na guerra contra o nazismo e consequente abertura do mercado brasileiro aos produtos dos Estados Unidos, Macedo foi convidado para desenvolver a estratégia de lançamento da Coca Cola que instalaria a primeira fábrica brasileira do xarope de origem indígena mexicana .

Partiu para conhecer o produto e o sistema de produção in loco, deixando seus colegas muito curiosos por aquele refrigerante já famoso em diversos mercados do mundo, mas ainda uma incógnita para o paladar brasileiro. Ansiosos pelas raras novidades de consumo que então demoravam a chegar ao país, os colegas rodearam Renato assim que retornou com uma única pergunta: “que gosto tem a tal da Coca Cola?”.

No relato do meu pai, Renato Macedo decepcionou a todos “- Água choca com gás.”

Apropriado, porque se deixar no congelador explode e faz a maior sujeira, mas se deixar destapado sem consumir de imediato perde o gás e pode jogar fora porque se experimentar, aí é que se vai conhecer o verdadeiro gosto que tem.

Link da foto.

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8 comentários

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Nicolau

22 de agosto de 2015 às 16h22

Tem gente que adora uma rola no rabo do PT, Mensalão, Petrolão, Lava Jato, Pixuleco ect. ! Então tomam nos seus traseiros!

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Hell Back

14 de agosto de 2015 às 09h39

Nossa! Quanta falta de assunto!!!

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Ana Lipke

09 de agosto de 2015 às 07h45

A verdadeira história do Brasil nunca se ensina. Sempre haverá novas Gerações CocaCola.

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André Bezerra

08 de agosto de 2015 às 19h33

Coloquei esse comentário aqui por que quem publicava os textos do Raul Longo era o excelente redecastorphoto, que não se atualiza há mais de um mês. Alguém sabe o que houve?

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Edilberto Pires

08 de agosto de 2015 às 18h25

Não chegou até a era do cheirador de coca ina?

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Enio

08 de agosto de 2015 às 13h33

“OPOSIÇÃO” (Políticos corruptos, mídia golpista, banqueiros privatas, especuladores estrangeiros e entreguistas traidores) X BRASIL (Povo brasileiro) = DILMA até 2018.

Não vejo a globo, hoje temos: https://pt-br.facebook.com/mudamais

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Berenice Coutinho

08 de agosto de 2015 às 12h31

Adorei o artigo!

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Angel Victoria

08 de agosto de 2015 às 10h29

Formidavel texto.
Subscrevo cada linha, cada palavra, cada sìlaba.

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