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Total recall, ou: quem será o futuro vingador do Brasil?

Por Redação

12 de fevereiro de 2016 : 20h00

por Rogerio Dultra dos Santos, no Democracia e Conjuntura

O futuro pode ser constituído por um jogo de aparências. O governo Dilma, apesar das vitórias contra a onda do impeachment – que varreu todo o ano de 2015 para debaixo do tapete – ainda não saiu da defensiva. E mesmo com a chegada de ministros importantes para alavancar a estratégia política, como é o caso de Jacquer Wagner e Ricardo Berzoini, não há sinal de um contra-ataque à dissolução das instituições ligadas ao sistema de justiça: setores da PF, da Justiça Federal  e do MPF sucumbem à oligarquização, ao corporativismo e à politicagem em parceria não republicana com os meios de comunicação.

O Ministério da Justiça, aparentemente o órgão “responsável” pelo andamento correto do sistema, espera que tudo se ajeite como num passe de mágica. A presidente resiste, como sempre fez, mas não abre espaço para que se construa uma estratégia política consistente – isto apesar das acusações recorrentes da oposição de que “aparelha” a máquina do Estado. Se há “aparelhamento”, não se percebem seus frutos, em forma de reorientação das políticas de algumas instituições, que fritam o próprio governo.

Também parece que a ficha de que há uma guerra contra o governo e contra o PT só cai para quem vai sendo acusado ou preso. Aconteceu com Hugo Chávez na Venezuela, que entendeu que deveria estabelecer uma estratégia contra os meios de comunicação e contra os setores golpistas da oposição somente quando sofreu um golpe de Estado por algumas horas bem sucedido. Lula, aos poucos, aparenta atinar que deve se defender do sistema policial e jurídico que ajudou a construir e prover. Mas, absorto em sua defesa – e, obviamente, na defesa de um futuro para o partido – é um general paralisado em uma batalha também defensiva.

Na aparência justo e equanime, o sistema de justiça vem aos poucos provando que pode criminalizar quem quiser e pelo que inventar. No fundo, sempre se soube disto, mas quando os pobres deixam de ser alvos usuais, o espanto  se transforma em aprovação entusiasmada com a ajuda da imprensa: “finalmente” agora são os empresários e políticos corruptos que estão atrás das grades. Para as classes médias que sentem identidade existencial com juízes e procuradores  jovens, brancos e ativos, seus “filhos” diletos, as regras do jogo parecem continuar intocáveis.

Dilma – cuja pele ainda não foi atingida pelo golpe nem pelo processo criminal, como Chávez e Lula – aparenta crer no sistema que o PT ajudou a cevar e azeitar. Dá ares de que concebe ser necessário apenas resistir. Vai, eventualmente, dar ouvidos a soluções técnicas, mas não dará o tom de ataque ou substituirá aqueles que podem mover a máquina em outra direção que não a da apatia ou defesa. E aí, pela inércia, o governo parece não chegar a 2018 e, pela paralização, Lula, até lá, pode não estar livre ou de “ficha limpa”.

E o que quer que repitam insistentemente, sem o PT e sem a atuação de Lula (seja como candidato ou cabo eleitoral), a esquerda – qualquer esquerda – não terá candidato eleitoralmente viável ou socialmente desejado em 2018. Nem em 2022.

Assim, de novo aparentemente, Judiciário e mídia fecharão o ciclo democrático e uma nova hegemonia surgirá.

As quases três décadas da Constituição “cidadã” de 1988 se transformarão em mais um hiato, uma ilha num mar de golpes ilegítimos, situações de exceção e estados de sítio, estes sim, a constante de nossa história republicana.

E aí, o sonho quimérico das classes médias sedentas de sangue petista irá fatalmente ser desfeito. Não haverá mais o inimigo público. Os inimigos serão então os seus próprios direitos, aparentemente entendidos como privilégios.

O ledo engano onírico durará até o momento em que o arbítrio se generalizar, o que sempre há de acontecer quando a democracia e o Estado de Direito estiverem em sucumbência.

No sonho fugaz daqueles que nutrem – na desmedida alimentada pela mass media –, uma sede de status e de  reconhecimento diretamente inversa à ascenção social das classes subalternas, a democratização das acusações vagas, dos processos sem defesa e das condenações sem prova não estará na conta.

Seremos todos acordados pela realidade canina dos governos de fachada, dos salvadores da pátria de ocasião e dos interesses escusos que não precisarão mais dizer o nome nem dar mais satisfação. Aí, sim, a corrupção campeará sem limite. Como no velho filme de Schwarzenegger, em que o personagem, depois de um implante de memórias falsas, começa a se lembrar de quem realmente era. Mas aí a vaca já tinha ido para o brejo. Ou não.

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