Coletiva de Rodrigo Maia (ao vivo) sobre medidas contra a crise

O diálogo perdido do áudio Jucá: a nova casta e o fascismo

Por Tadeu Porto

18 de novembro de 2016 : 22h50

Por Tadeu Porto*, colunista do Cafezinho

MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].

JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha‘. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.

MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.

JUCÁ – É. Delimitava onde está, pronto.

O Brasil está careca de saber que Romero Jucá escancarou o golpe em sua conversa com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado.

Em qualquer discussão decente e sensata sobre o impeachment (que nossa mídia tradicional não faz, obviamente) é impossível deixar de lado as referências a essas palavras do líder do governo no congresso, afinal, elas descrevem de maneira muito clara que o afastamento da presidenta foi fruto de um grande pacto nacional para estancar a sangria da Lava-Jato.

Todavia, não obstante à todo alcance que teve o diálogo entre Machado e Jucá, existe uma parte que é pouco destacada, apesar de ser extremamente importante: no entendimento do senador, toda a classe política será pega pela Lava-Jato, inclusive os tucanos cujas “fichas caíram agora”.

Nesse raciocínio, o ex-ministro prevê um futuro muito pouco animador, no qual Ministério Público, Polícia Federal e judiciário querem “acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com…”

Bom, é fácil considerar que Jucá fez previsões verdadeiras em sua conversa com Machado, haja vista que os fatos estão se concretizando bem, como frisou o ótimo Xico Sá: o golpe colocou Temer no poder, Mendes demonstra em seus atos está a par do pacto, o aparato militar nacional trabalha violentamente para coibir as manifestações dos movimentos sociais e o boi de piranha – Cunha – foi lançado ao rio.

Vale ressaltar, ainda, que a operação LJ deu um passo importante e ousado em suas ações prendendo o todo poderoso ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que tinha tudo para ser o principal nome do PMDB – partido do atual presidente da república – para as candidaturas de 2018. Ademais, a polícia federal avança sobre importantes atores políticos no momento: como Anthony Garotinho com a Operação Chequinho e o governador mineiro Fernando Pimentel com a Operação Acrônimo.

Ou seja, o aparato judicial do país demonstra que pode romper com a velha prática de se bater apenas no PT e isso não necessariamente trará mais justiça ao pais.

Por exemplo, se a Lava-Jato avançar mesmo da maneira que Jucá detalhou, para destruir a classe política nacional, os principais nomes para assumir o papel de “nova casta”, imediatamente recaem em pessoas como Sérgio Moro, Dalton Dallagnol e Jair Bolsonaro.

Reparem bem: um juiz sem escrúpulos e dono de práticas medievais de julgamento; um fundamentalista que usa o cargo no MP para fazer política (promove as 10 medidas como panaceia) e Bolsonaro dispensam apresentações.

Três nomes, entre muitos que podem surgir, que flertam intensamente com a onda fascista que se fortalece no Brasil e no mundo.

Portanto, se Jucá continuar cumprindo seu papel de Mãe Diná e acertando suas previsões compartilhada com Machado, jovens como eu – que nasceram depois dos anos de chumbo – podem se preparar para, enfim, conhecer de perto o que é uma ditadura.

Soltaram no meio da rua a cadela do fascismo, que é conhecida por estar eternamente no cio. O que já é péssimo com o golpe, pode piorar ainda mais.

Tadeu Porto é diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense

Tadeu Porto

Colunista do Cafezinho e diretor da Federação Única dos Petroleiros e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense.

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8 comentários

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Antonio Carlos

19 de novembro de 2016 às 13h48

Eu não acredito na volta da ditadura, o Brasil seguirá em frente com a democracia. Bolsonaro não demora muito para cair.

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maria nadiê rodrigues

19 de novembro de 2016 às 08h33

Visto que todos os atos da LJ estão intimamente ligados aos anseios de parte do STF e Globo, há de se ter uma razão, ainda não bem explícita, para as prisões simultâneas de Garotinho e Cabral.
O bom senso esclarece a desnecessidade do espetáculo; bem como que tais prisões poderiam ser realizadas mais aos termos legais, e não como se deram.
Muito será esclarecido nos próximos dias sobre as razões de mais um espetáculo dantesco desses policiais, com mandados de procuradores.
São dois presos de peso na política do RJ, e não petistas. Tem coisa aí.

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Mandy Tavares

19 de novembro de 2016 às 08h17

A cada movimento da LJ e ações da PF, de modo geral, sigo pensando que tudo isso tem objetivo certo: entregar o poder novamente aos tucanos.
O PMDB vai ser varrido, o que convenhamos é facílimo, dada a sua gula tresloucada por dinheiro. Sérgio Cabral ilustrou bem isso. Todos os membros de cúpula são podres.
Quanto ao PT, dispensados os comentários, por ser alvo há muito tempo. Hoje se vive a concretização.
Aí sobra o PSDB. Corrupto ao extremo, hipócrita de dar ânsia, macarthista puro. Mas o preferido do deus mercado, da velha mídia e do grande empresariado. Uniu-se o 1% que manda, nada valendo se eles não tem voto.
Temo pelo nosso futuro. Voltaremos a viver aqueles tempos de FHC, com cara nova mas a mesma sanha neoliberal entreguistas?
Ainda não encontrei motivos, nesse grande cenário de caos atual, para pensar diferente.

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Messias Franca de Macedo

19 de novembro de 2016 às 04h19

Procurador Rodrigo Janot pede para STF incluir delação de lobista em inquérito sobre Aécio
Fernando Moura disse ter ouvido suposta propina a senador em Furnas.
G1 buscava contato com parlamentar até última atualização da reportagem.

Por jornalista Mariana Oliveira Da TV Globo, em Brasília

18/11/2016

(…)
O procurador-geral afirmou ainda que Aécio dividia uma diretoria de Furnas com o PP e que ouviu isso de José Janene. E que também ouviu que o senador recebia valores mensais, por meio da irmã, por uma das empresas contratadas por Furnas.
A suposta propina ao parlamentar teria sido paga entre 1996 e 2001 e a investigação apura se houve corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
(…)

FONTE [LÍMPIDA!]: http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/11/janot-pede-para-stf-incluir-delacao-de-lobista-em-inquerito-sobre-aecio.html

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Marcos Omag

19 de novembro de 2016 às 02h12

Temos que unir a resistência popular ao Golpe com a resistência nas casernas. O ponto fraco dos golpistas considerando o aparato estatal é o militar. Os oficiais não “engolem” o que estão fazendo com o Almirante Othon, um herói nacional, para agradar aqueles que treinaram e financiaram a “sociedade civil” artificlal do Golpe: o governo estadunidense. Líderes de esquerda comprometidos com a defesa nacional como Aldo Rebelo, Samuel Pinheiro Guimarães e outros devem estreitar conversações com setores militares para que o aspecto entreguista dos golpistas seja enfatizado e o fosso entre patriotas e entreguistas seja mais evidenciado. Apenas com esta aliança poderemos deter a nefasta liga entre juízes e procuradores entreguistas, STF composto por satisfeitos com o Golpe e insatisfeitos acoelhados e mídia corrupta.

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Charles

19 de novembro de 2016 às 00h50

O pior de tudo é que a única forma de deter esse aparato jurídico-policial na conjuntura atual que vejo é através de uma intervenção militar. Mas ao estilo Hugo Chávez, em que nacionalistas e legalistas restauraram a ordem contra um golpe. Da forma civil, em que as forças políticas se organizam para restaurar o equilíbrio entre os três poderes, parece muito improvável, estão todos acuados, com medo de serem os próximos a ser comidos, ou se deliciando na queda de um rival político.

Lembram-se daquela história de que foi um grupo da polícia da aeronáutica que impediu a prisão do Lula? Cada vez desejo mais que seja verdade, que exista movimentos legalistas dentro das Forças Armadas. Pois só assim pra impedir essa corja de juízes e promotores de tomarem o poder.

Uma imagem emblemática que teve essa semana, foi dos dois PMs do Choque no RJ deixando a fileira para juntar-se aos manifestantes. Eu não confio nem um pouco em polícia, mas imagina essa cena se repetindo em todos os estados em crise, de policiais tendo que bater em outros policiais em greve, e aos poucos se solidarizando e abandonando os postos. E a crise vai piorar, principalmente na era Trump.

Haverá eleições em breve na França e a extrema direita está com grandes chances de ganhar, e se isso acontecer, a União Européia está fadada ao desmembramento, sendo a Alemanha o único remanescente com força política e econômica, tendo perdido a Inglaterra recentemente, a Itália quebrada e com um referendo crucial para reformas sendo posto em breve que pode ou não piorar a situação, e Merkel tendo sofrido vários revezes nas últimas eleições.

Estamos cada vez mais perto de 1930.

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    Jose X.

    19 de novembro de 2016 às 10h15

    com relação a uma intervenção militar (tá, um golpe militar) acho que nunca vai acontecer, os militares brasileiros são medíocres ao extremo, estão vendo os golpistas destruírem o país e não dizem um ah…não foram capazes de defender nem mesmo o almirante Othon…

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      Charles

      19 de novembro de 2016 às 12h34

      Acho que no momento, perderam uma chance pra defender Dilma. Mas não pode ser uma mera intervenção, ou então pode acontecer o que deu na Turquia, deram um golpe pra assaltar o poder, e isso só fortaleceu o governo do Erdogan. O motor tem que ser uma força civil, ou um símbolo. No caso da Venezuela, por exemplo, em que foram em defesa de Chavez. Aqui no caso, só se o jurídico extrapolar mais do que já fez para haver reação. E nem precisam intervir diretamente, apenas dizerem não às ordens, trancar nos quartéis e não obedecer mais aos golpistas. Vão fazer o que contra eles, mandar a polícia? Não é uma opção boa, mas infelizmente são as cartas que estão disponíveis. Porque do jeito que as coisas andam, acho que não vai haver um 2018.

      Mas como você disse, tá difícil ter legalistas e nacionalistas quando deixaram o Othon ser preso por nada e não reagiram.

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