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novembro 2017

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Tate Modern, Londres, comemora 50 anos de “Terra em Transe”

Escrito por , Postado em Mariana T Noviello

foto: Ana Rojas

Entre 9 -12 de novembro o Tate comemora 50 anos de Tropicália artística com uma mostra de cinema e artes plásticas.

É impossível ver “Terra em Transe” em seus 50 anos, sem nos referir aos recentes acontecimentos políticos.

Para uma audiência do século XXI, a imersão na obra de Glauber é um pouco difícil: em preto e branco, com sonoridade destoante e uma teatricalidade gritante.

Um filme que conta a sua história tanto através dos atores, como em alegorias e simbolismos.

Não há absolutamente nada de sutil no filme de Glauber.

Para um público ‘moderno’ e desacostumado, ou que não cresceu com os exageros de programas como o do Chacrinha, esse tipo de performance pode até afugentar.

Mas com o avançar das cenas, a plateia já se encontra em estado de plena absorção.

Dava para sentir as pessoas, se mexendo desconfortavelmente nas pontas de suas poltronas, loucas para trocar palavras com os companheiros ao lado sobre a imensidade das scenas que se desenrolavam na tela.

Conscientes do momento político atual, as imagens, sons e símbolos que chegavam às nossas mentes iam se mesclando com ideias já em ebulição.

“Terra em Transe” estreou em 1967, depois do Golpe dado pelos militares, mas antes do quinto Ato Institucional (o notório AI-5) que iria cercear mais fortemente os direitos, e por consequência, censurar as artes.

Porém, é preciso ter cautela para não fazer a correspondência absoluta entre a situação atual com a história aludida no filme.

Há similaridades sim, mas estas se dão menos pela realidade do que pela mentalidade parecida dos protagonistas do atual golpe e de parte da elite intelectual, que decidiu lavar as mãos em vez de ajudar o país a evitar tamanho desfecho nocivo.

Se por um lado, nós que nos consideramos de esquerda, achamos que o povo se calou perante um golpe absurdo, por outro, até agora, as únicas coisas que os golpistas conquistaram é o desgoverno e o caos.

Não há política que tenha dado certo, não há pensamento ou visão maior.

O erro deles foi tão grande, que agora se encontram sem projeto, nomes políticos, líderes ou popularidade.

Isso nos leva de encontro à cena do filme onde Paulo Autran, no papel de Porfírio Diaz, elabora o golpe. Ele explica ao industrialista e dono da mídia, Júlio Fuentes, que se deixarem a história seguir seu percurso sem interferência, o populista Vieira ganharia, dando “poder às massas”.

E, como se sabe, as “massas”, instigadas pelos “intelectuais extremistas”, são sempre radicais, inconstantes e impossíveis de controlar.

Portanto, o golpe é preferível, desencadeado com o apoio das elites locais ‘reconquistadas’, e com a ‘simpatia’ do capital estrangeiro, simbolizado pela empresa Explit, que pagaria todas as campanhas e ainda por cima financiaria a mídia local.

Mas quem sabe, o que tem de mais interessante no filme, é a crítica que Glauber faz aos intelectuais de esquerda na figura de Paulo Martins:

uma intelligentsia, que nasceu nos braços da elite, e que apesar de aderir ao conteúdo marxista puro, abstrato, toda vez que se depara frente a frente com o povo mostra seu desprezo, ódio e até agressão.

Intelectuais esses que demonstram nojo em participar da prática política rotineira, mas não pensam duas vezes em pegar nas armas para derramar o sangue do povo.

Imagem imortalizada, talvez, através da cena em que Paulo põe a mão na boca de Jerônimo, o sindicalista, e diz: “Estão vendo o que é o povo? Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado. Já pensaram, um Jerônimo no poder?”

Enquanto isso, um camponês, um sem-terra, vai abrindo caminho para clamar que o povo é ele.

Ao sem-terra lhe é imposto uma corda no pescoço e, a gritos de “extremista”, é levado ao chão chupando o cano de uma arma.

A pergunta fica: a até que ponto a obra de Glauber, feita durante a conjuntura pós golpe militar, se aplica às realidades pós golpe dos dias de hoje?

Se parece que repetimos a história e que não conseguiremos jamais sair de nossa condição de país secundário, isso se deve à imagem errônea que a elite nossa e grande parte da intelectualidade têm do ‘povo’ brasileiro.

Mas o círculo não é vicioso. Nos encontramos, no máximo, dentro de uma espiral.

Porque é justamente na representação das ‘massas’ que percebemos a distância do mundo de hoje, do mundo de Glauber.

Se os brasileiros eram vistos como um povo pacífico e fadado a aturar as injustiças caladamente, não é mais esta a ‘massa’ com a qual os golpistas atuais se deparam.

Pode ser que, para a tristeza dos intelectuais, não tenhamos chegado à “massa crítica” necessária que levaria a deposição deste (des)governo ou, à tão aclamada ‘revolução’. Mas isso não quer dizer que não haja resistência e que o povo brasileiro aceitará tudo o que lhe é imposto.

Hoje em dia, temos uma população infinitamente mais educada, culta e capaz de lutar pelos seus direitos.

Só para dar uma ideia, em 1970, a taxa de analfabetismo correspondia a 33% para pessoas acima de 15 anos.

Em 2015, esta taxa era aproximadamente 8%, onde somente 2,7% desta população tinha entre 15 e 24 anos.

Em 2015, a média de anos que os brasileiros passavam na escola era 8,2, nos anos 60 esta taxa ficava abaixo dos 6 anos.

Para além disso, os brasileiros de hoje estão conscientes e têm orgulho de quem são, um exemplo é que entre 2004 e 2014 o número de pessoas que se denominam negras e pardas cresceu de 48% a 53%.

Na representação glauberiana não existe líderes que não os políticos e intelectuais paternalistas. A ‘massa’ nada mais é que massa de manobra:

O sindicalista Jerônimo parodia no filme a figura de pelego do governo, que quando urgido a falar, primeiro não tem nada a dizer, depois é rudemente calado pela mão do intelectual Paulo, para ser finalmente ‘desmascarado’ como não-representante do ‘povo’.

O peão sem-terras, este sim, legítimo, mas sem-nome, é o povo (num país onde ainda aproximadamente 50% da população residia nas zonas rurais) que é rapidamente contido em sua pequena ânsia revolucionária – a de reivindicar moradia.

Não há dúvida que o país ainda não resolveu (apesar de enorme migração para os centros urbanos) a questão da reforma agrária, que continua premente. Como também os sindicatos, apesar de seu imenso protagonismo nos anos 80 e 90, continuam a serem vistos como ‘pelegos’, principalmente do governo Lula.

Mas não se pode ignorar a atuação destes movimentos sociais na história pós ditadura e que alguns de seus líderes surgiram do povo (como Lula, sempre vilipendiado da mesma forma que Jerônimo é por Paulo em Terra em Transe “um imbecil, um analfabeto… já pensaram um Lula no poder?”).

Como também não podemos menosprezar outras lideranças que se apresentam atualmente dentro de suas esferas de atuação como lideranças, intelectuais e artistas dos movimentos negro (ex. Djamila Ribeiro) indígena (ex. Sonia Guajajara) e outros como o de mulheres, LGBT, de favelas que não só tem preparação, mas entendem a necessidade de se unirem em prol de um país mais inclusivo, generoso, respeitoso de seus direitos e menos desigual.

O filme de Glauber é precioso.

Em cena após cena ele nos remete a fazer a reflexão necessária entre o nosso presente e o nosso passado, entre a fantasia e a realidade, entre a teoria e a prática política.

Através de suas alegorias, Terra em Transe se faz atualíssimo 50 anos depois e vê-lo de novo é fundamental.

Mas talvez o que Glauber Rocha mais tenha a nos ensinar, numa época (dentro e fora do Brasil) onde poucos acreditam que a política possa ser uma saída para um mundo melhor, é a coragem de trazer o político e o social para dentro das artes.

Afinal este compromisso é um dos elementos que distanciou o Cinema Novo de suas raízes europeias, como a Nouvelle Vague francesa e o Neorealismo italiano.

Viva Glauber Rocha, viva Terra em Transe!

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