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A Venezuela e a hipocrisia sem limites do imperialismo

Por Miguel do Rosário

16 de abril de 2018 : 08h23

A hipocrisia das relações internacionais na América Latina, após a onda de golpes que varreu o continente, nunca foi tão evidente.

A reportagem da Folha sobre a mais recente reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) diz, no título, que “Brasil, EUA e 14 países repudiam eleição na Venezuela”. O leitor nem precisa ler a matéria para saber que se trata de mais uma xaropada antibolivariana sem pé nem cabeça. A começar pelo próprio título, que é um tanto surreal. O que a Folha queria dizer, naturalmente, era algo assim: Brasil, etc, repudiam ataques à democracia na Venezuela. Repudiar a “eleição” é bizarro, e ao mesmo tempo é emblemático, quase um ato falho. Afinal, não é isso que todos querem? Que haja eleições? Claro, tem de ser eleições limpas, justas e cujos resultados sejam respeitados pelos que participaram dela.

O primeiro parágrafo da reportagem chega ser engraçado, não fosse trágico:

Ora, centenas, quiçá milhares, de lideranças políticas importantes de todo mundo tem denunciado a prisão de Lula. Dois Nobels já assinaram abaixo assinado pedindo que o ex-presidente seja considerado para o prêmio. Então soa um tanto estranho que a Folha considere o risco de “presos políticos” na Venezuela e ao mesmo tempo ignore o caso mais chocante de todos: o do Brasil, onde o judiciário, comprometido até os ossos com o golpe, mantém o líder em todas as pesquisas de intenção de voto, preso numa solitária em Curitiba.

A conclusão que chegamos é simples: a Folha de São Paulo é um órgão medíocre e submisso do imperialismo. Suas posições democráticas não são coerentes. A Folha é como os Estados Unidos. Apoiaram o golpe militar de 1964. Apoiaram o golpe judicial de 2016. E mesmo assim continuam falando em democracia como se não fossem, eles mesmos, seus maiores inimigos.

Quanto a posição do governo brasileiro, uma outra reportagem da Folha diz tudo.

Confesso que demorei alguns segundos para apreender o sentido da frase. Temer “não afirma que não”. A negativa dupla é uma construção sintática estranha, deselegante e, sobretudo, antijornalística. A matéria poderia simplesmente dizer que Temer prefere não opinar sobre eleições na Venezuela, o que é a postura diplomática correta, visto que ninguém deve ser meter no quintal dos outros. Ao usar a expressão “não afirma que não”,  a Folha usa um artifício semiótico dos mais vulgares. Fica parecendo que Temer não reconhecerá o resultado, embora ele não tenha dito isso.

Ao final da matéria, os representantes da Bolívia e Cuba fazem a denúncia que nem os EUA, nem seus lacaios travestidos de presidente, tem a coragem (ou o interesse) de fazer:

Já o mandatário boliviano Evo Morales referiu-se ao ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, preso na semana passada, dizendo que “não se pode aprisionar a consciência de um povo. Não existem provas contra Lula. É preciso estar alerta às ameaças a nossos governos. Estão usando o discurso da luta contra a corrupção para atacar os governos populares.”

O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, em sua intervenção, disse que “Lula é um preso político e agora a Justiça virou instrumento para derrubar líderes populares”.

O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, em sua intervenção, faz uma afirmação curiosa:

A Venezuela já foi um dos países mais ricos do nosso hemisfério e hoje é um dos mais pobres. Não deixaremos que as pessoas sofram aos pés de um déspota como Maduro.

Seria interessante se a Folha se dignasse a dar “o outro lado” desse tipo de declaração, ao invés de apenas repetir o que o governo Trump diz. Trata-se de uma mentira. Se a Venezuela foi “rica” algum dia, não se pode dizer o mesmo sobre seu povo, vitimado pela fome, doenças e analfabetismo, problemas que foram reduzidos drasticamente durante os governos chavistas.

Coube ao chanceler cubano, Bruno Rodríguez, lembrar que “os EUA não têm autoridade moral para dar aulas de ética política quando financiaram e apoiaram governos despóticos na região, como as ditaduras dos anos 1970.

A declaração de Rodríguez é um fato histórico incontestável. Pena que a imprensa brasileira, espertamente, apenas dê a informação pela boca do chanceler cubano, e não, como deveria, por uma reportagem posicionada ao lado da notícia. Ao invés disso, a Folha prefere chamar Nicolás Maduro de “ditador”, expressão que não usa, por exemplo, para se referir ao “líder chinês” ou ao “rei da Arábia Saudita”.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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10 comentários

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Sebastião Farias

03 de junho de 2018 às 11h02

Parabéns ao povo soberano da Venezuela por sua vitória democrática (http://forodesaopaulo.org/venezuela-mais-uma-vez-exemplo-de-democracia-e-participacao-cidada/ ) , que com demonstração de consciência cidadã e direitos, democracia, patriotismo e soberania, dão, a nós brasileiros, apesar dos que daqui e de lá, defendem o entreguismo das riquezas nacionais ao imperialismo dominante e o poder ao mercado, nos mostram que, o dono de uma nação soberana, forte e unida, apesar das investidas, bloqueios e pressões do colonizador e de seus “trabalhadores internos, é o POVO.
Com isso, contra os que estimulam a divisão do povo, o preconceito, o ódio e fomentam a injustiça contra a nação brasileira, devem considerar daqui em diante que, como na Venezuela, aqui, no Brasil, a Pátria do Evangelho, marcado pela Cruz de Cristo no Céu e, Coração do Mundo, como mostra seu mapa, o reino de tiranias, de injustiças e de opressão aos direitos dos cidadãos, principalmente, dos mais susceptíveis de nossa nação, estão com os dias contados.
Quantas pessoas inimigas de Deus, inclusive religiosos desviados da verdadeira fé, por amor ao dinheiro, poder material, vaidades, soberba e autossuficiência, todos os dias, nos apresentam prognósticos sobre a vinda do anticristo e final dos tempos?
Ora, essas pessoas esquecem que o anticristo está e convive com todos nós, em todos locais em que vivemos. O Anticristo, é portanto, todos aqueles que dificultam o Projeto de amor, de justiça e de salvação de Deus, para o seu povo e, de fraternidade, de justiça e de bem-estar comum, para todos os cidadãos país. Essas pessoas, são identificadas por sua arrogância, egoísmo, soberba, amor ao dinheiro e poder, por autossuficiência e injustiça, etc, demonstradas, por não amarem a Deus e nem ao próximo, como a si mesmos e, por explorarem, por roubarem e maltratarem em seus direitos básicos e benefícios, os trabalhadores, os pobres, os idosos, as crianças, os órfãos, as viúvas, os miseráveis, as populações tradicionais, etc.
Não esqueçam, portanto, de que o Brasil, pela confiança e respeito que goza no cenário internacional, por suas boas relações e obras em prol da solidariedade e defesa do combate à fome e a miséria aqui, na américa latina e caribe e no mundo, também, é esperança de liberdade, de paz e de felicidade para todos os nossos irmãos necessitados da América Latina e do Planeta. Tenham paciência, o Brasil vencerá o mal e Deus está com ele e com todos nós. E, também não esqueçam que, aqui ainda mais fome que na Venezuela, Colômbia ou outras nações do continente, como mostra informações de fontes que a maioria, acredita (https://oglobo.globo.com/economia/fome-volta-assombrar-familias-brasileiras-21569940 )
Deixemos, portanto, a Venezuela para seus cidadãos e, olhemos mais, com responsabilidade e compromissos, para o nosso país e nosso povo, até porque, lá, eles vivem a democracia desde 1999 e nós aqui, vivemos como?. Vale lembrar que, a abstenção eleitoral nas eleições dos EUA, em 2016, também foi extremamente grande, para os padrões morais e democráticos dos americanos e similar aos da Venezuela e, ninguém da nossa imprensa ficou indignado com isso, né? http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/11/1831379-alta-abstencao-prejudicou-votacao-de-hillary-entre-jovens-e-minorias.shtml .
Paz e bem.

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euclides de oliveira pinto neto

19 de abril de 2018 às 14h06

O grande problema da Venezuela é o governo socialista bolivariano. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo – em tôrno de 300 bilhões de barris, controlados pela PDVSA, empresa estatal; o Banco Central da Venezuela é presidido por um nome, indicado pelo governo da Venezuela e não pelos banksteers Rothschild, daí a origem da pressão economica movida contra a Venezuela, com sanções economicas e financeiras, buscando desestabilizar o tecido social, com falta de produtos essenciais, medicamentos e outros ítens necessários, causando o caos social. O povo entendeu a origem da violência que vicejava e afastou-se das manifestações publicas, adredemente preparadas a fim de mostrar (via mídia corrupta e comprada) um quadro diferente da realidade. A China e a Russia estão apoiando o governo Maduro, garantindo-lhe recursos para ultrapassar essa fase difícil, que breve passará… Força ao povo venezuelano !!!

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Sebastião Farias

17 de abril de 2018 às 01h58

Miguel, parabéns por sua capacidade e preparo, no que tange conhecimentos básicos de cidadania que todo brasileiro precisa aprender, para ter consciência de cidadão é senso crítico justo, para compreender o seu poder e valor constitucional e, porque vota em alguém.
O começo para todos nós cidadãos, seria, fazer o inverso da grande maioria do povo, que vota sem consciência e responsabilidades e, depois, reclama, adotarmos daqui em diante, lê e conhecer a Constituição Federal, a Constituição do nosso Estado e a Lei Orgânica do nosso Município, para conhecermos a estrutura e divisão do Poder Público que governa, nos 03 Poderes já memorizados pelo povo.
i) O Poder Legislativo, dentre outras competências, produz e aprova as leis, que aprecia e aprova as Políticas Públicas, os Planos Orçamentários, os Planos Estratégicos Diversos, etc, de interesses da União, dos Estados e dos Municípios, conforme o caso é, do povo, sendo ainda esse Poder Legislativo, o representante constitucional e fiscal público do povo.
ii) O Poder Executivo, dentre outras competências, administra as UFs; planeja, executa e implementa com conformidade, qualidade e responsabilidade as Políticas Públicas, em benefício e satisfação do povo, etc.
iii) O Poder Judiciário, dentre outras competências, é guardião da Constituição e dos direitos dos cidadãos e do Estado Brasileiro; tem a responsabilidade de dirimir conflitos e garantir justica imparcial e a pacificação da sociedade.
Agora, depois das coisas e responsabilidades de cada um dos Poderes, imagine o resultado dos trabalhos e ações deles, se não houver controle e fiscalização séria, em respeito aos interesses do povo que é o patrão, da execução dessas Políticas Públicas?
Imagine agora, a hipótese de você contratar uma pessoa ou empresa para realizar um serviço em sua propriedade e, se você deixá-los à vontade, sem supervisão, sem Fiscalização, etc, o que acontecerá?
É isso mesmo, que você pensou. Serviços de má qualidade, com desperdícios de dinheiro e de materiais, com atraso de cronograma, com prejuízos para seu bolso e, sem funcionalidade e sem satisfação sua.
Pronto, o país, os Estados e Municípios, sem contarem com povo consciente e cidadão, que conheçam seus direitos e saibam quando, onde é a quem reclamar, terminam como o exemplo da casa, citado antes.
Mas, se o cidadão depois de conhecer a CF, as CEs e as Leis Orgânicas dos municípios, sabem que para cada Política Pública executada pelo Poder Executivo, através de uma Secretaria, Departamento, Coordenação, etc, existe uma Comissão Permanente ou de Fiscalização e Controle – CFC (exemplo: Saúde Pública), no Poder Legislativo, é só recorrerem a elas, que são os nossos Fiscais dos fiscais públicos, e exigir de seus Presidentes e de seus Membros, ação, efetividade e proatividade, obrigando-os, a bem da sociedade, que eles atestem a conformidade da boa execução dos bens, obras e serviços públicos realizados.
Se assim fizermos, adeus corrupção, desperdícios, má qualidade de obras e serviços públicos sem funcionalidade.
Vamos começar a partir daqui?
Miguel, que tal você, sua equipe e colaboradores, assumirem essa incumbência de instruir os cidadãos sobre isso é, elaborarem matérias bem esclarecedoras, da importância para todos nós, de que essas CFCs dos Poderes Legislativos, passem a funcionar e cumprirem a finalidade para as quais, estão nas Constituições?
É com vocês.

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Luiz Carlos P. Oliveira

16 de abril de 2018 às 12h37

Miguel, não dá para perder tempo com coxinha que desconhece a economia da Venezuela. Antes do Chaves a eco omia era sustentada pelo petróleo, na mão dos americanos e a Venezuela importava de tudo. Chaves frz um.programa para a industrialização do país e não depender só dos hidrocarburetos. Esse programa irritou as famílias de importadores, que hoje sonegam os produtos básicos para o supermercado. Se os venezuelanos estivessem morrendo de fome, como a direita raivosa apregoa, muitos não teriam migrado, pois toda a população já teria morrido de fome, pois ninguém aguenta 4 ou 5 anos sem comer. Será que esse pessoal nunca ouviu falar em “lógica”?

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Rafael

16 de abril de 2018 às 10h44

Acabou com a fome?? Como assim? Me diz então o motivo da migração Venezuelana? Para Colômbia por exemplo.

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Jairzinho da comunidade

16 de abril de 2018 às 09h20

Ja é sabido que os governos em geral, sao o maior inimigo do trabalhador. enquanto um empresario, quando muito consegue, tira 15% de lucro de cima do trabalho de seus funcionarios em troca de salários e benefícios, o governo arranca mais de 60% do que o trabalhador ganha, dando muito pouco em troca. O empresario afunda com seus empregados quando a coisa ta ruim, o governo nunca abre mao dos seus luxos ilimitados,um simples vereador tem motorista próprio pago pelo povo da favela, porque nao quer sujar suas maos no volante. Quando um partido quer se apropriar do que é do povo, como Maduro e Chaves fizeram na Venezuela, é dever sim da mídia usar palavras mais duras.

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    Miguel do Rosário

    16 de abril de 2018 às 09h56

    Jair, isso “não é sabido”. O maior inimigo do trabalhador é o sistema capitalista, que o explora. O governo protege o trabalhador. O trabalhador elege o representante politico, não o empresário. O que Maduro e Chávez fizeram na Venezuela foi acabar com a fome e o analfabetismo por lá. Informe-se um pouco melhor.

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    Ricardo

    16 de abril de 2018 às 11h18

    Isso seria uma “meia-verdade” se não houvesse sonegação. Ou voce acha que os empresários brasileiros ficam bilionários pagando todos os impostos? A sonegação desvia dos cofres públicos cinco vezes mais que a corrupção dos políticos. Mas voce acredita nos empresários.

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    ari

    16 de abril de 2018 às 11h53

    De um modo geral a desinformação sobre Venezuela e Cuba é total. Algo como o MST brasileiro
    Pequenos dados: a Venezuela concede aposentadoria para 100% idosos, mesmo que nunca tenham contribuído. O programa Misión Vivienda é de matar de vergonha o nosso Minha Casa Minha Vida, sem considerar o Misión Barrio Nuevo, Barrio Tricolor para renovação de residências. Em 2016, um ano dificílimo para o país, a taxa de investimento social foi de 71,4%, a maior do mundo. Quando Chavez assumiu o poder, apenas 35% da população tinha qualidade de vida minimamente aceitável. O brutal aumento de consumo de alimentos de lá para cá é uma das razões do deficit alimentar, além de várias outras, inclusive a sabotagem de empresas multinacionais e do bloqueio financeiro americano.

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