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A pirataria “corporativa” no Brasil

Por Miguel do Rosário

17 de julho de 2018 : 14h51

Reproduzo a matéria abaixo, publicada ontem na Folha, porque ela é fruto de uma denúncia de empresa parceira do Cafezinho, a Fênix Filmes.

A Fênix é uma distribuidora que cuida dos direitos autorais de filmes de várias partes do mundo, em especial filmes de arte. A empresa distribui, por exemplo, filmes de Jim Jarmush e Marco Bellochio, estrelas sagradas do cinema mundial.

A tal Old Flix, que estava oferecendo ilegalmente o filme “De Punhos Cerrados”, de Bellochio, é gerida por sócios do Rio Grande do Norte, de uma família que tem concessão de TV. O dono, Manoel Ramalho, é casado com Wilma Wanderley, que se filiou ao PSL para se candidatar a deputada federal. Reportagens locais mostram que Wilma tenta se vender politicamente como “a candidata de Bolsonaro”…

A participação da Old Flix, empresa que também é dona da TV União, na distribuição ilegal de filmes revela uma situação surreal: a pirataria no Brasil, com reflexos ruins para todo o mercado criativo, está sendo conduzida também por corporações privadas, sem que o governo tome nenhuma atitude.

***

Na Folha

Distribuidora acusa serviço Oldflix de exibir filme sem pagar direitos
16.jul.2018 às 2h00

GUILHERME GENESTRETI

A carioca Priscila Miranda se diz fã de filmes antigos. Na última quinta-feira (12), ela descobriu a Oldflix, plataforma brasileira de vídeo sob demanda que, por R$ 12,90 ao mês, dá acesso a um catálogo de centenas de títulos internacionais.

“Você é CULT. Está a procura de um contéudo (sic) clássico. Achou!”, anuncia o site.

O que Priscila achou foi dor de cabeça.

Ela deu de cara com o longa “De Punhos Cerrados” (1965), do italiano Marco Bellocchio. “Mas como pode?”, pensou. “Esse filme é meu!”

É que, além de fã de longas antigos, a carioca é também dona da distribuidora Fênix Filmes, especializada em trazer para o Brasil produções europeias e que foram premiadas em festivais estrangeiros.

A Fênix é dona dos direitos autorais e de comercialização do filme “De Punhos Cerrados” no Brasil —direitos que não foram cedidos para exibição na plataforma Oldflix.

“Para terem esse título, eles precisariam licenciá-lo”, afirma Priscila.

Ela conta ter comprado o filme diretamente da alemã Match Factory, uma das maiores empresas do setor de venda de filmes e que, de fato, elenca o longa de Bellocchio no catálogo de seu site.

A Fênix pretende entrar com ação na Justiça contra o serviço brasileiro de vídeo sob demanda. “É escandaloso”, esbraveja. “Estão agredindo a mim e ao diretor, que ainda vive dos direitos do filme.”

A Folha entrou em contato com o empresário Manoel Ramalho, sócio-fundador da Oldflix, que conta ainda não ter sido notificado pela Fênix.

“Pode ter sido um engano e que esse filme tenha vindo errado no lote”, diz ele, que afirma ter passado a titularidade da empresa, fundada em 2016, para o seu filho. “Mas continuo o mentor, o conselheiro.”

Segundo Manoel Ramalho, o catálogo da Oldflix, que ele estima contar com cerca de mil títulos, é adquirido de um distribuidor sediado em Curitiba com quem trata há mais de dez anos.

“Ele nunca me deu problema, nem com os filmes que fornece para a minha TV.” O empresário potiguar era dono do canal TV União, de Natal, que ele afirma ainda estar sob o controle de sua família.

“Esse rapaz lá de Curitiba me garante que tem os direitos de todos os filmes que me vende”, afirma Ramalho.

O rapaz em questão é Wanderley Cepeda Júnior, que se apresenta como corretor de imóveis no seu perfil em uma rede social e que costuma vender DVDs no Mercado Livre.

Cena do filme ‘De Punhos Cerrados’, de Marco Bellocchio (Créditos: Divulgação)
Cepeda conta à reportagem que trabalha com cinema há 22 anos e que é dono dos direitos de comercialização para o streaming de diversos longas, entre eles do filme “De Punhos Cerrados”, de Bellocchio.

No caso dos direitos referentes a esse último, diz que são válidos até 2022 e foram comprados de uma empresa chamada Huntington & Partners Incorporated, de Los Angeles.

Uma busca na internet com esses detalhes só resulta numa companhia de consultoria na área de investimentos.

Cepeda se recusou a enviar o contrato com a empresa. “Não posso mostrar por cláusula de confidencialidade.”

Após o contato, a Oldflix enviou um email à Folha, relatando que foi detectada uma falha no sistema e que o filme já foi retirado de sua plataforma. “Esse título realmente não foi adquirido do nosso licenciante”, diz a mensagem.

Ramalho disse que encaminharia toda uma remessa de filmes para uma rechecagem.

Estreia de Bellocchio, “De Punhos Cerrados” narra a história de um sujeito de classe média que quer se livrar dos irmãos, que sofrem de moléstias que vão da epilepsia ao transtorno bipolar.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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6 comentários

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Deodato Guilherme Santos Souza

04 de setembro de 2021 às 14h18

Quantos estão pirateando nessa história toda? Pelo visto, esse filme de Bellochio passa por muitas mãos, mas só chega ao grande público pelas mãos logo de quem é pirata… O que é que essa Sra. que é fã de filmes clássicos está fazendo para que essa e outras grandes obras cheguem ao público? E quantos direitos autorais dos filmes do catálogo da Oldflix já caducaram?

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Teo

16 de maio de 2021 às 12h35

Fui assinar esse serviço de stream e logo percebi que isso é algo totalmente ilegal! De cara me deparei com alguns filme da trilogia Guerras nas Estrelas, que pertence exclusivamente a plataforma da Disney plus!

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Leila Benedetti

22 de agosto de 2018 às 13h53

Mas brasileiro tá muito doente com política ultimamente, hein? Concordo que a Oldflix está errada em reproduzir um filme sem os seus devidos direitos autorais, mas justificar isso com o fato da mulher do dono da plataforma ser candidata a deputada e ainda defender o Bolsonaro é demais! Não sou nem um pouco fã do Bolsonaro, tenho repulsa desse ser, mas uma coisa não nada a ver com a outra!

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L'Amie

17 de julho de 2018 às 23h47

Tive a mesma percepção do Marcos. Muito estranho que, justamente em Curitiba vamos encontrar estas marmeladas, visto que o Cowboy Justiceiro e Don Quixote da moralidade, com suas italicas mãos limpas tem se empenhado unilateralmente em combater a corrupaco Pção. Há algo a ser explicado quanto a certos grupos Paranaenses. No passado já se insurgiram e quisera separar-se do Brasil, contudo, têm memoria fraca. Quando aqui chegaram seus antepassados, fugidos das guerras europeia, da fome, do desemprego, das epidemias, da violência, das perseguições e de perseguições etnicas encontraram receptividade. Trabalharam, progrediram, comeram e beberam, instruiram filhos, netos e bisnetos para serem felizes e terem o que faltava aos avoengos. Infelizmente a praga do fascismo, causa dessa migração fez-se sombra nos descendentes. Agora, cospem no prato que comeram, criticam o feijão que os tirou da fome, repetem o erro dos seus conterrâneos europeus e tal qual lobos ingratos querem devorar os seus salvadores. Pobres infelizes.

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Marcos Videira

17 de julho de 2018 às 15h28

Um é de Curitiba (!!!) e a mulher do outro é correligionária de Bolsonaro (!!!).
Tá tudo explicado…

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