Boulos em Recife

Como foi a transferência de votos do 1º para o 2º turnos

Por Miguel do Rosário

06 de novembro de 2018 : 17h00

Quase totalidade dos eleitores de Ciro migraram para Haddad, aponta estudo.

Transferência de votos

Por Rodrigo Rodrigues-Silveira, no Facebook
3 de novembro às 08:56 ·

Um tema sempre presente em eleições de dois turnos é como ocorre a transferência de votos após o fim do primeiro turno entre candidatos derrotados e vencedores. Estes últimos procuram receber o apoio formal dos primeiros, que negociam o seu apoio em troca de cargos num eventual futuro governo. Essa perspectiva, concentrada na racionalidade das elites políticas, assume que o candidato derrotado seja capaz de influenciar o voto de seus eleitores por meio de sua indicação política.

No entanto, uma explicação alternativa, baseada na perspectiva do eleitor, pensa o voto como um processo de hierarquização de preferências. Cada indivíduo possuiria não uma, mas uma série ordenada de opções políticas “preferidas”, que podem incluir votar nulo ou simplesmente não comparecer. Com a eliminação dos primeiros da lista, as opções seguintes entrariam em cena, explicando o resultado eleitoral.

Ainda que os candidatos possam exercer certa influência, é muito plausível que a segunda opção seja a mais próxima aos mecanismos que explicariam a transferência de votos entre os dois turnos de uma eleição. Algumas evidências empíricas sustentam essa afirmação. A primeira delas provém das pesquisas de opinião que explicitamente perguntam aos eleitores, uma vez terminado o primeiro turno, o voto e a opção escolhida para o segundo turno. Os resultados, como os publicados pelo DataFolha, por exemplo, revelam que, ainda que haja um roteiro “típico” (votos do Ciro em Haddad), a transferência não é completa.

Uma segunda alternativa, que é a que utilizamos aqui. Consiste em analisar os dados agregados dos resultados eleitorais dos dois turnos para estimar a intensidade da transferência dos votos no período. Por meio de um método de inferência ecológica, desenvolvido por Andreadis e Chadjpipadelis (2009), geramos a matriz de taxas de transição de eleitores (voter transition rates). A matriz de transição dos votos entre contendentes foi estimada a partir de dados agregados no nível de seção eleitoral.

Parte dos resultados podem ser observados na figura abaixo. Para facilitar a visualização decidimos agregar Marina Silva (REDE), Guilherme Boulos (PSOL) e Vera Lúcia (PSTU) na categoria “Outros (esquerda)” e os candidatos Álvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Henrique Meirelles (MDB), Eymael (DC) e João Goulart Filho (PPL) como “Outros (direita)”. Mantivemos, no entanto, a abstenção e os votos nulos separados para capturar o eleitorado com forte rejeição a ambos candidatos que passaram ao segundo turno (Jair Bolsonaro e Fernando Haddad).

A transferência mais clara entre dois candidatos se realiza entre o eleitorado de Ciro Gomes (PDT) a Fernando Haddad (PT). Observa-se que o voto no candidato do PT foi a opção majoritária desse eleitorado (79,2%). Poucos optaram por votar nulo, abster-se ou votar em Jair Bolsonaro (PSL). João Amoedo (NOVO) e Geraldo Alckmin (PSDB) tiveram voto mais fragmentado, mas uma parte expressiva de seus apoiadores (53% para o primeiro e 48,3% para o segundo) optaram pelo candidato do PSL. Algo parecido aconteceu com os votos aos demais candidatos da direita, com 43,4% de transferência ao candidato eleito. Outro elemento comum entre Alckmin e Amoedo foi a anulação do voto como segunda opção. Esse não foi o caso dos eleitores dos outros candidatos de direta, que optaram por Haddad como a segunda opção.

A retórica das eleições no segundo turno dentro do campo da esquerda foi a de uma união ou de uma frente democrática contra a ameaça que Jair Bolsonaro representaria à democracia no Brasil. No entanto, os resultados sugerem que o eleitorado desse grupo não atuou de acordo com as diretrizes das elites políticas. A principal opção foi anular o voto, com 30,4% do total. A segunda sim apoia a Haddad, com 26,9%, mas uma parcela não desprezível de 20,9% decidiu votar em Bolsonaro.

À luz desses dados, a esperança de parte da esquerda em uma possível virada de Haddad no segundo turno não passava de uma ilusão baseada no desconhecimento do perfil do eleitorado de cada candidato e, sobretudo, do grau de rejeição de todo o eleitorado não petista ao PT. Dentro da própria esquerda Haddad foi a segunda opção e seguido de perto por Bolsonaro. Este último foi capaz de capturar a maioria dos votos dos outros grupos políticos e isolar o PT ao redor do eleitorado de Ciro Gomes.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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9 comentários

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Lideana

07 de novembro de 2018 às 14h44

Alguém avisa pra o PSDB FICAR QUIETO PRA NSO ACONTECER COMO QUANDO RESOLVERAM APOIAR O TEMER ,AI VAI ACABAR DE VEZ COM O BOZO

Responder

Lideana

07 de novembro de 2018 às 10h04

CIRO ERA TIRO NO PÉ ,NÃO TEM PERFIL CONFIÁVEL

Responder

joao

06 de novembro de 2018 às 17h20

Depois que o caldo entornou e a esquerda perdeu a eleiçao o que ficou foi uma so:Ciro fujao e Marina sem votos,nao tem mais chances em eleiçoes majoritarias.
Outra constataçao Haddad saiu muito maior do que entrou na disputa e com certeza sera o CARA para a proxima eleiçao que nao se pode falar quando sera , mas com certeza o canastrao eleito nao sera nem sequer candidato tal qual o atual golpista ocupante do cargo.

Responder

    Paulo

    06 de novembro de 2018 às 18h03

    Haddad é o cara tendo perdido as duas últimas eleições de que participou? Sendo que uma delas seria a – até natural – reeleição…

    Responder

    Flavio

    06 de novembro de 2018 às 18h34

    O Haddad é o cara que sem o dedaço do Lula tinha 4% de intenções de votos dois meses antes das eleições. É o cara que perdeu para um imbecil de pijamas, que sentado no sofá da sala de casa, mandava zap para a galera enquanto sapateava no cadáver do “marmita de presidiário” .

    O Haddad perdeu para um retardado mental sem ter estado num só debate cara a cara com o sujeito.

    Se esse é o nosso líder oposicionista, tragam-nos o FHC de volta porque estaremos melhor representados.

    Responder

    Marcelo

    06 de novembro de 2018 às 22h31

    Meu, já foi anunciado que o Bolsonaro vai começar o governo priorizando o Nordeste — com as obras de dessalinização/irrigação, de tecnologia importada de Israel; além da transposição do São Francisco e investimento maciço em infraestrutura. Se tudo isso der certo, é adeus PT pra sempre… pois o partido sempre se elegeu muito por causa da votação esmagadora e massiva da região em favor do PT, alcançando até 70% em alguns estados, como Bahia, Ceará e Sergipe, e mais de 60% nos outros estados.

    Responder

      Alexandre Neres

      07 de novembro de 2018 às 00h12

      Não sei como uma pessoa se mete a falar asneiras sem o mínimo conhecimento de causa. “Meu”, tu deveria se preocupar com o teu estado, o lixo de governador que vocês elegeram aí no tucanistão, único lugar do país em que a alternância de poder tão cantada em prosa e verso está definitivamente em desuso, está trazendo os restolhos pessimamente avaliados do desgoverno temerário. De Israel, ao insinuar que irá transferir a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, batendo continência para a bandeira estadunidense, o totó do Trump vai conseguir destroçar o ingente comércio com os países árabes. Estamos em um voo cego cujo comandante não entende bulhufas de nada.

      Responder

        Aliança Nacional Libertadora

        07 de novembro de 2018 às 20h17

        Kkkkkkk é um cretinismo muito matuto esse do Paulista Kkkkkkk vota no PRP desde o começo do século passado….Kkkkkkk pagam os maiores impostos do país e é o mais roubado do país….

        Responder

          Paulo

          07 de novembro de 2018 às 21h58

          Quanto paga ao governo federal

          Quanto recebe do governo federal

          Resultado final

          Acre

          1.139.596.984,57

          3.862.072.833,56

          2.722.475.848,99

          Amazonas

          13.007.759.400,87

          6.979.811.012,28

          — 6.027.948.388,59

          Amapá

          893.046.996,43

          3.463.993.114,77

          2.570.946.118,34

          Pará

          9.704.359.176,59

          16.595.437.090,73

          6.891.077.914,14

          Rondônia

          2.760.427.987,19

          3.959.413.110,32

          1.198.985.123,13

          Roraima

          911.242.378,50

          2.894.796.662,14
          1.983.554.283,64

          Tocantins

          1.771.455.627,40

          5.779.330.251,53

          4.007.874.624,13

          Alagoas

          3.631.550.736,34

          8.871.971.656,02

          5.240.420.919,68

          Bahia

          24.158.879.657,96

          29.168.441.974,40

          5.009.562.316,44

          Ceará

          17.488.544.992,86

          18.461.991.985,38

          973.446.992,52

          Maranhão

          6.930.917.913,66

          17.468.654.211,92

          10.537.736.298,26

          Paraíba

          5.706.399.101,00

          10.005.009.003,21

          4.298.609.902,21

          Pernambuco

          22.221.644.176,85

          17.657.709.625,46

          — 4.563.934.551,39

          Piauí

          3.360.225.056,15

          9.044.652.795,17

          5.684.427.739,02

          Rio Grande do Norte

          5.179.540.428,14

          8.413.401.904,95

          3.233.861.476,81

          Sergipe

          3.826.602.539,86

          6.341.142.304,04

          2.514.539.764,18

          Goiás

          14.484.043.640,55

          9.394.724.025,65

          — 5.089.319.614,90

          Mato Grosso

          8.340.858.436,80

          5.930.960.600,57

          — 2.409.897.836,23

          Mato Grosso do Sul

          6.754.384.183,00

          4.818.245.068,89

          — 1.936.139.114,11

          Espírito Santo

          19.231.943.009,57

          7.266.976.482,53

          — 11.964.966.527,04

          Minas Gerais

          69.640.164.949,31

          28.529.131.953,50

          — 41.111.032.995,81

          Rio de Janeiro

          209.365.855.865,92

          24.032.143.817,56

          — 185.333.712.048,36

          São Paulo

          492.803.803.566,50

          39.351.094.231,04

          — 453.452.709.335,46

          Paraná

          60.604.844.827,73

          15.060.913.337,93

          — 45.543.931.489,80

          Rio Grande do Sul

          60.932.105.275,34

          14.853.494.875,00

          — 46.078.610.382,34

          Santa Catarina

          46.219.590.989,48

          8.635.169.117,82

          — 37.584.421.871,66″

          Dados de 2015

          Repare que SP é o que mais paga, em números absolutos e proporcionais; e, proporcionalmente, o que menos recebe! Pense um pouco antes de falar mal de SP!

          —————————————————————-

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