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Bolsonaro, a imprensa e as políticas públicas de comunicação

Por Theo Rodrigues

13 de fevereiro de 2019 : 10h38

Por Theófilo Rodrigues

Publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

Com o fim de seu primeiro mês algumas observações iniciais já podem ser feitas sobre o que esperar das políticas públicas de comunicação do governo Bolsonaro e de seu relacionamento com a imprensa.

Uma pista relevante para essa avaliação está no documento divulgado recentemente pelo ministério da Casa Civil sobre as 35 prioridades para os 100 primeiros dias de governo. Entre essas prioridades do governo federal há uma completa ausência de políticas públicas para o setor.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Comunicação, responsável por essa agenda, apresentou nesse documento duas prioridades que não possuem relação com o tema da comunicação: um projeto sobre ciência nas escolas e outro sobre a dessalinização da água no Nordeste. De certo modo, era de se esperar essa invisibilidade já que o ministro Marcos Pontes não é exatamente alguém próximo dessa área.

Há nesse documento da Casa Civil apenas uma meta dentre as 35 que aborda a comunicação social como política pública. Segundo consta ali, a prioridade da Secretaria de Governo da Presidência da República será a reestruturação da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). Leia-se: a prioridade do governo será a redução do tamanho da EBC e sua consequente desestruturação.

Programas como a universalização da internet de banda larga via Telebrás, a ampliação da TV Digital e do Canal da Cidadania e a estruturação de rádios comunitárias passam em branco, por enquanto, na agenda de Bolsonaro. O que se vê são comentários dispersos de deputados apoiadores do governo, como Kim Kataguiri, que apresentou projeto de lei na Câmara dos Deputados para extinguir o programa Voz do Brasil.

Apesar dessa ausência de temas sensíveis das políticas públicas de comunicação, há uma certa agenda que parece avançar subterraneamente no governo, qual seja, a do financiamento público dos grandes meios de comunicação. Bolsonaro parece ter optado por uma aliança com empresas de televisão como a Record de Edir Macedo e o SBT de Silvio Santos em detrimento da Rede Globo da família Marinho.

Através da Secretaria de Comunicação Social, a SECOM, o governo federal prometeu investir em publicidade nessas empresas e desconcentrar os recursos que antes eram direcionados para a Rede Globo. Esse é o pano de fundo dos conflitos entre a empresa dos Marinho e Bolsonaro. Enquanto SBT e Record passaram a atuar como porta vozes do Planalto, a Rede Globo, com apoio do jornal Folha de S.Paulo, assumiu o papel de liderança da oposição ao governo.

Nesse contexto, merece destaque a recém-chegada da CNN ao Brasil, sob as mãos de um ex-diretor da Record, Douglas Tavolaro. Com previsão de entrar no ar em dezembro, a CNN Brasil será a grande concorrente da GloboNews no país. Uma avaliação geral feita nos bastidores do jornalismo é a de que essa nova empresa será muito próxima do governo Bolsonaro e que cumprirá no Brasil o mesmo papel de divulgação do ideário conservador desenvolvido pela Fox News nos Estados Unidos.

Em geral, políticas públicas são desenvolvidas após amplos debates na sociedade civil e na esfera pública. Após esses debates, as políticas são planejadas com etapas para o curto, o médio e o longo prazo, executadas e avaliadas. Infelizmente, nada disso parece ocorrer no atual governo Bolsonaro. O que se vê é apenas uma grosseira instrumentalização dos recursos da comunicação social para a disputa política cotidiana. Uma pena.

Theófilo Rodrigues é cientista político.

Theo Rodrigues

Theo Rodrigues é sociólogo e cientista político.

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6 comentários

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Paulo

13 de fevereiro de 2019 às 19h16

Será que a oposição a Bolsonaro vai se aliar à Rede Globo? Bora reformar a Previdência, gente boa!

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Alan Cepile

13 de fevereiro de 2019 às 15h46

O governo gastando verba nossa com empresas privadas pra fazer propaganda dele mesmo, que legal, eu tb adoraria fazer propaganda do meu produto com o dinheiro dos outros, viva a “democracia”.

Agora uma coisa que eu não entendi, no texto a CNN foi comparada à Fox, mas nos EUA elas são concorrentes, inclusive a CNN é declaradamente democrata, enquanto a Fox é declaradamente republicana, então como que a CNN viria ao Brasil para ocupar uma posição “republicana”??
Ultimamente tem coisas que só acontecem no Brasil…

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Renan

13 de fevereiro de 2019 às 12h28

Acho errado essa política que os governos anteriores tinham de tirar as verbas dos velhinhos na UTI e tirar as criancas da escola para gastar esse dinheiro num canal próprio do governo que ninguem asssite e ninguem precisa. Se diminuirem esses gastos, sobrará mais para os servicos básicos muito mais importantes.

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    Rodrigo

    13 de fevereiro de 2019 às 14h48

    Vamos parar de mandar sondas pra Marte e sanar a fome na África

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      degas

      13 de fevereiro de 2019 às 15h42

      Suponha agora que nós já fomos a 200 planetas e recebemos todas as vantagens disso. Valeria a pena gastar uma fortuna que faria falta por aqui para ir para mais algum a que ninguém dá importância e que não acrescentará nada aos nossos conhecimentos científicos?

      Essa é a comparação correta.

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    ari couto

    13 de fevereiro de 2019 às 19h35

    TV pública é bem diferente de TV comercial, a começar pelo fato de seu primeiro compromisso não ser com a audiência pois, neste caso, teria de se nivelar à programação da Globo, Record ou outra. Há vários modelos e o Governo Lula escolheu o melhor, financiamento próprio, sem patrocinadores. A TV Brasil tinha ótima programação, inclusive jornalística e era o único local onde se podia saber da realidade dos fatos. É óbvio que audiência é algo demorado mas, de qualquer forma nunca chegaria a nível de uma Band, por exemplo. Como a TV Cultura de SP, antes do PSDB, aos poucos vinha se firmando e fazendo ótimo trabalho. Deixou saudades.

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