Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Economistas analisam o caso do Chile

Por Miguel do Rosário

24 de outubro de 2019 : 09h29

Paulo Gala explica que as coisas que deram certo no Chile não foram propriamente resultado de políticas “liberais”, mas contou com financiamentos e investimentos públicos.

No blog do Paulo Gala
A desigualdade no Chile
23/10/2019

Por Paulo Gala

Países produtores de cobre no mundo são mais desiguais (guardadas as devidas questões idiossincráticas) do que todos países produtores de máquinas e peças necessárias para a produção de papel. A comparação abaixo entre Chile e Malásia é bem ilustrativa. Chile com renda per capita PPP de 21,044U$ e escolaridade média de 9,8 anos, com Gini de 0,49 e posição 72 (ruim) no ranking de complexidade produtiva em 2012. Malásia com renda per capita próxima de 22.314U$ PPP, 9,5 anos de escolaridade média, Gini de 0,39 e posição de 24 no ranking de complexidade econômica, patamar bem melhor do que o chileno.

O chile continua ainda com uma estrutura produtiva de baixa sofisticação que não estimula acumulo de capital humano, inivação e complexiade produtiva. O aumento da complexidade permite um desenvolvimento mais inclusivo da economia, contribuindo para criação de circuitos virtuosos de desenvolvimento cultural, social e tecnológico que se retroalimentam para formar uma rede produtiva mais sustentável. Uma vez que os ganhos de produtividade sejam distribuídos entre os elementos da rede, cria-se o ambiente propício para o desenvolvimento comum onde as inovações e ganhos de eficiência, o desenvolvimento cultural, social e tecnológico promovem os ganhos de produtividade que, por sua vez, se bem redistribuídos, promovem novas ondas de ganhos de produtividade, mais diversidade e complexidade, num ambiente geral de criação de riquezas aliado ao desenvolvimento humano e da qualidade de vida.

O Chile é desigual pois tem um sistema produtivo ruim, com baixa complexidade e pouca sofisticação. Faltam oportunidades, faltam bons empregos e faltam bons salários: não tem nem empresas nem produtos para gerar essas oportunidades. Um produto sofisticado ou complexo requer maiores habilidades produtivas e, portanto, gera salários mais altos. Um produto sofisticado ou complexo gera uma divisão de trabalho relativamente extensa e isso leva à criação de empregos. Assim, um produto sofisticado ou complexo constrói uma classe média forte. Um produto sofisticado ou complexo gera longas “escadas de carreira”. Isso é importante porque promove a mobilidade social entre os grupos de renda. Uma maior coleção de produtos sofisticados ou complexos na pauta de exportação de um país gera maior “spill over” salarial para outros setores e empregos.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Paulo

24 de outubro de 2019 às 10h34

O curioso é que a imprensa aborda a questão de forma parcial: falam vagamente em questão social, aumento de tarifas de metrô, mas não falam de Previdência Social. E vamos lembrar que a Capitalização foi retirada do projeto de Reforma, aqui no Brasil, para que o resto do pacote de maldades pudesse passar, mas PG logo tornará a propô-la novamente!

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