Ato público pela valorização do serviço público

Agência Nordeste

Dino, a saída é o Consórcio!

Por Miguel do Rosário

27 de janeiro de 2020 : 17h29

Os sinais de recuperação do mercado de trabalho, embora ainda muito tímidos, e longe de serem sustentáveis (vide a deterioração da balança de pagamentos, de um lado, e o fato de estarem sendo criadas apenas vagas de baixa remuneração, de outro), proporcionaram um pouco de alívio para uma equipe econômica desesperada para se livrar das pautas negativas criadas pelo presidente e seus ministros mais ideológicos.

Não é um alívio que deva durar muito, porque o festival de besteiras do governo tem produtividade e capacidade de inovação de fazer inveja às indústrias mais avançadas de Shenzhen!

As últimas trapalhadas do ministro da Educação, espalhando fake news sobre Reinaldo Azevedo, de que este teria sido demitido, quando na verdade o jornalista está com problemas de saúde, provam a tese.

Neste sentido, eu concordo com uma das sugestões de Lula em sua última entrevista, de que não devemos torcer contra a economia brasileira; mas discordo, por outro lado, de seu pedido para que Bolsonaro deixe de falar besteira. É bom que fale. Fala mais, Bolsonaro!

No momento, o besteirol que tem maior potencial de estrago, em virtude de sua importância estratégica, vem do ministério da Educação, como se pode ver pelos problemas relacionados ao Enem e a Sisu, além de uma estranha portaria que dificulta o translado de pesquisadores.

Entretanto, não me parece que a oposição esteja aproveitando todas as suas potencialidades. E aqui volto ao debate sobre a “frente ampla”, que ainda produz bastante ruído, por causa de algumas incompreensões, mas também por um motivo que me parece central: falta de objetividade.

A principal potencialidade é o Consórcio do Nordeste, que inclusive poderia ser ampliado para incluir colegas de outras regiões que estivessem insatisfeitos com o governo Bolsonaro.

Naturalmente, não faria sentido que este consórcio se constituísse como uma “frente de oposição” tradicional, sobretudo diante de um governo tão abertamente antidemocrático, que não hesita em fazer ameaças às administrações comandadas por quem ele considera, de maneira muito pouco republicana, como seus “inimigos políticos”.

Seria muito mais inteligente, todavia, que o consórcio se organizasse para realizar, coletivamente, investimentos em produção, tecnologia, informação.

Conforme defendi no artigo anterior sobre este tema, a frente ampla, que vem sendo costurada ainda meio solitariamente por Flavio Dino, precisa estar centralizada no debate sobre um projeto nacional.

Hoje a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, afirmou que o partido poderia apoiar Flavio Dino em 2022. Apesar de ser louvável que a dirigente deixe em aberto a possibilidade de uma composição que não tenha o seu próprio partido como cabeça de chapa, e que a declaração injete um pouco de ânimo no PCdoB, não é um gesto tão democrático quanto parece. Para outros partidos, como PSB, Rede, PDT, e todos aqueles mais ao centro, a afirmação soa assim: o candidato será quem a gente quiser; senão for um petista, então será fulano.

Ademais, depois das afirmações de Lula, de que o “PT não é partido de apoio”, dadas recentemente, fica difícil não ver a afirmação de Gleisi como um jogo de cena, uma dessas mentiras sinceras que se conta à militância para neutralizar um debate que não se tem interesse em fazer nesse momento.

Evidentemente, não é assim que se constrói uma frente ampla. Aliás, admito a vocês que sou muito cético em relação a qualquer movimento de “frente ampla”, “união”, que não esteja baseado na discussão de um projeto concreto, objetivo, com prazos, métodos e estratégias previamente definidos.

O consórcio de governadores do Nordeste é que deveria liderar essa frente ampla, e desenvolver, desde já, experiências locais que pudessem servir como modelos para o país: cinturões agrícolas nas cidades; fomento à pequena indústria rural;  sistemas mais avançados de controle da circulação de mercadorias, que permitissem combate mais eficaz da sonegação; investimento em projetos modernos de educação básica; investimento em pesquisa; desenvolvimento de um sistema público de comunicação regional, uma “tv nordeste” altamente profissionalizada.

Sobre esta última ideia, uma “tv nordeste”, seria a oportunidade da esquerda comprar um debate fundamental sobre comunicação pública, até porque ela terá a mesma dificuldade de governar o país a partir de 2023 (caso vença as eleições, naturalmente) que teve no passado. Uma experiência no nordeste anteciparia os problemas e soluções, neutralizando críticas que certamente emergirão, da parte de alguns meios tradicionais de comunicação. Tudo isso tem que ser pensado estrategicamente, claro. Não se pode pensar numa estratégia de comunicação, que inclua a criação de TV, como uma iniciativa que prejudicará a relação dos governos estaduais com suas respectivas mídias ou com as mídias nacionais. Para isso, será preciso elaborar um projeto de mídia pública que esteja integrado a um projeto maior de proteção à imprensa profissional brasileira, hoje muito atacada pelo extremismo conservador.

Esta me parece a única saída realmente objetiva. O consórcio não pode ser uma instituição superficial, criado apenas para gerar selfies dos governadores, ou para a materialização de projetos muito pontuais, ou para viajarem juntos. Também seria um tanto ridículo, e contraproducente, torná-lo uma coisa partidária: ele deve reunir diferentes tendências, incluindo centro e liberais, desde que todos reunidos em torno de algumas metas em comum, como a de gerar empregos de qualidade, reindustrializar o país e combater a desigualdade.

A frente ampla, por sua vez, senão estiver consolidada sobre coisas muito objetivas e concretas, terá efeito contrário ao desejado: fomentará intrigas e vaidades, ajudando a fragmentar ainda mais as forças de oposição.

Se Dino encontrar Luciano Huck, será considerado um traidor. Se encontrar Ciro, será um traidor. Se encontrar FHC, será um traidor. Se encontrar Tábata Amaral, será um traidor. Se iniciar conversas com estrangeiros, será um vendido ao capitalismo internacional. E por aí vai. Os ruídos gerados por uma militância ainda muito tensionada pela polarização e pelo extremismo do governo implodirá qualquer tentativa de Dino de levar adiante seu esforço para furar a bolha e ampliar o alcance político do debate progressista.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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13 comentários

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    Justiceiro

    28 de janeiro de 2020 às 16h27

    Se Lula negou então é a pura verdade.

    É que o comunista gorducho deve ter dado um passa fora no calango. Então, para não ficar com cara de tacho, o calango disse que não convidou Dino para voltar ao PT.

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Netho

28 de janeiro de 2020 às 15h43

Uma coisa é a ação cooperada e minimamente integrada do ponto de vista regional.
Em uma situação de crise econômica generalizada – a reboque dos efeitos catastróficos das políticas econômicas no período que medeia entre 2015/2019 -, qualquer iniciativa de juntar esforços minimamente racionalizados faz sentido recorrer àquilo que na teoria política denomina-se de “pragmatismo coerente”.
Realmente, o somatório dos erros crassos praticados pela “Mãe do PAC”, pelo Cartel do ‘MT’ e pelo ‘Posto Ipiranga’, implicaram a média negativa mais baixa para um quinquênio desde que o IBGE passou a medir o tamanho do PIB em 1947.
Não fosse a crise gigantesca que não será superada nesta próxima década, os estados nordestinos prosseguiriam com suas guerras provinciais fiscais para disputar no grito e a tapa os parcos investimentos dos donos do dinheiro dispostos a diversificar seus portfólios entre os estados nordestinos mais sensíveis às chantagens recheadas de benefícios fiscais.
Ano passado, 2019, marcou os 60 anos da publicação do livro mais clássico da economia brasileira: Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado em 1959 no mesmo ano da criação da SUDENE por JK sob inspiração do mesmo genial intelectual paraibano. Àquela época, idos de 59, Celso Furtado lançava a “Operação Nordeste” que gerou todos os frutos hoje parcimoniosamente recolhidos pelo povo nordestino. Não fosse Celso Monteiro Furtado pensar com amplitude e profundidade a “Questão Nordeste” e talvez o povo nordestino houvesse repetido a Confederação do Equador.
Desgraçadamente, não se tem visto outra coisa – desde a derrota fragorosa do campo democrático, popular e progressista para a extrema-direita consorciada com a direita castrense apoiada maciçamente pela direita liberal e pelos endinheirados -, que não seja a sistemática e obsessiva ação do lulo-petismo para, acima de tudo e de qualquer coisa, simples e unicamente garantir o protagonismo e a hegemonia petista de sorte a assegurar a maior bancada no Parlamento e a maior fração possível dos fundos eleitorais e partidários com vistas a saciar a sede da enorme burocracia edificada pelo lulo-petismo.
É preciso um excesso de ingenuidade otimista para acreditar que a movimentação de Lula busque alguma coisa diferente do que sempre foi o seu único propósito e objeto de poder: o culto à sua personalidade e a sua suposta onisciência em matéria de tática e estratégia políticas.
Uma onisciência que o levou ao cárcere e deu asas poderosas às forças mais retrógradas e degeneradas existentes no país.
O tabuleiro eleitoral que o ex-capitão e o ex-metalúrgico preferem e procuram repartir mano a mano não comporta um consórcio da forças e muito menos um colegiados de lideranças; muito pelo contrário.
Lula sempre apostou no mano a mano e no tudo ou nada; desde a Constituinte.
Funcionou até a prisão de Dirceu e Palocci.
Despencou, todavia, ladeira abaixo, após a rendição de Lula aos carcereiros curitibanos.
Infelizmente, tudo indica que a extrema-direita e a direita continuam jogando com as brancas e somam uma enorme vantagem relativa em todos os cenários eleitorais.

Responder

    Paulo

    28 de janeiro de 2020 às 22h31

    “É preciso um excesso de ingenuidade otimista para acreditar que a movimentação de Lula busque alguma coisa diferente do que sempre foi o seu único propósito e objeto de poder: o culto à sua personalidade e a sua suposta onisciência em matéria de tática e estratégia políticas”.

    Perfeito! Lula busca, mais do que nunca, nos estertores de sua vida, salvar sua biografia. A biografia do primeiro operário que chegou à presidência da República (não é pouca coisa, se pensarmos na história do Brasil, como um todo; ao contrário, é um fato da maior relevância política). Debalde, contudo. O Mensalão e o Petrolão serão fatos históricos incontestáveis, num futuro próximo – por ora, o ardor do debate ideológico ainda impede a clarividência plena e a necessária isenção na análise do que ocorreu. Mas o resgate histórico é inevitável, a médio prazo.

    No momento, creio eu, só será possível derrotar Bolsonaro por uma aliança com um candidato de centro encabeçando a chapa. O problema é que não temos nem o candidato, ainda, nem, muito menos, a aliança – e menos ainda a convicção, por parte das esquerdas, de que esse é o único caminho viável…

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    Karla

    29 de janeiro de 2020 às 15h39

    Na mosca!
    Melhor, na “mosca azul” do lulopetismo.

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Alexandre Neres

28 de janeiro de 2020 às 15h01

Flávio Dino representa um sopro de otimismo em meio ao marasmo que ronda a esquerda. A situação é desanimadora. Ciristas concordando com comentários de trolls e minions, por óbvio são minoria. Pessoas supostamente desse campo que acham que o maior partido do espectro, que diga-se de passagem foi apeado do poder por meio de um golpe, lawfare e ataque diuturno do PIG, deve fazer uma autocrítica e deixar de concorrer, já que suas chances de eleger seriam mínimas devido ao antipetismo que foi insuflado ao longo de anos pelos mesmos de sempre. Falta o mínimo conhecimento da realpolitik. Aí o acusam de ser hegemonista. Quando cogita de dar a cabeça de chapa a um político competente de outro partido, é armação. Caso o ungido Dino aceite, votam nulo porque se submeteu aos ditames do PT. Haja esquizofrenia!

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    Justiceiro

    28 de janeiro de 2020 às 16h29

    Flávio Dino, é?

    Bolsonaro já pode encomendar o terno da posse da reeleição. Se tiver Moro como vice, a surra vai ser no primeiro turno.

    Responder

      Abdel Romenia

      28 de janeiro de 2020 às 18h30

      Flàvio Dino, Pandoro para os amigos….Kkkkkkkkkkkkkk

      Essa gente nào usa a cabeça.

      Responder

Maiorca

28 de janeiro de 2020 às 07h21

FORA DE PAUTA PORQUE URGENTÍSSIMO

ABSTINÊNCIA SEXUAL: NUNCA PENSEI QUE DEPOIS DE VELHO EU TERIA QUE APELAR PARA A COVARDIA (cinco contra um)

Ministro da Saúde diverge de Damares sobre campanha por abstinência sexual

O ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta diverge de Damares Alves dos Direitos Humanos sobre qual deve ser o foco da campanha de combate à gravidez precoce. Nos últimos dias, a ministra tem sido alvo de críticas por propor a abstinência sexual

https://www.brasil247.com/brasil/ministro-da-saude-diverge-de-damares-sobre-campanha-por-abstinencia-sexual

EU JÁ DESCONFIAVA que Damares era sexualmente inativa (veja a notícia abaixo). E eu tenho um medo horrível de quem não faz amor.

Por isso, depois de ler a notícia abaixo, eu me proponho A CASAR COM A DAMARES ALVES. ISSO MESMO: CASAR.

A NOTÍCIA: Ministra Damares Alves diz que quer se casar e pede que interessados enviem currículos
A ministra descartou recorrer ao aplicativo Tinder, mas disse estar aberta a propostas de interessados

Nesta quarta-feira (05), de visual novo, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, confirmou que está em busca de um novo casamento.

Em entrevista a revista Veja, Damares, divorciada, disse que seu novo corte de cabelo não era à toa e, perguntada sobre casamento, confirmou seus interesses. “É verdade! Pretendo me casar, sim!”, afirmou.

Sobre os boatos de que entraria no Tinder, a ministra comentou que tratava-se de uma brincadeira, mas afirmou estar à espera de interessados e sugeriu até mesmo abrir um site para os candidatos se inscreverem. “Mas se tiver alguém, pretendentes, podem fazer inscrição. Acho mais fácil abrir um site, né? E as pessoas se inscrevem e os candidatos conversam comigo”, sugeriu.

https://varelanoticias.com.br/ministra-damares-alves-diz-que-quer-se-casar-e-pede-que-interessados-enviem-curriculos/

Damares, meu amor, escolha um restaurante para o nosso primeiro encontro à luz de velas. Mas tem uma coisa que você precisa saber: eu sou tarado.

Aguardo notícias. Beijos do Maiorca.

Responder

Paulo

27 de janeiro de 2020 às 18h43

Eu ainda acho que uma eventual coalizão assim tão ampla, contra Bolsonaro, em 2022, só é viável com alguém de centro encabeçando a chapa. Dino, Lula (ou quem ele indicar), não tem chance…

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Andressa

27 de janeiro de 2020 às 18h41

Agora vai… ninguém segura. Kkkkkk

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Oscar

27 de janeiro de 2020 às 17h49

Má ideia. Na narrativa da direita, seria uma conspiração do nordeste mortadela lulopetista querendo vencer o resto do Brasil para manter os seus privilégios pagos com o imposto do contribuinte do centro-sul. O que, aliás, pode até ser a verdade de fundo. Mas qualquer coisa vinda da esquerda que seja percebida como provocação só vai voltar a deixar a direita monarquista com sangue nos olhos, e aí Bolsonaro leva no primeiro turno em 2022. Certas bandeiras da esquerda atual são lixo radioativo político, pelo seu caráter sectarista. Se não for possível trocá-las por um discurso de união nacional pró-crescimento econômico, nacionalista, pró-serviço público civil e militar como indutores de desenvolvimento, então acabou.

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Evandro Garcia

27 de janeiro de 2020 às 17h48

O Nordeste investindo em tecnologia…? Vivem num mundo paralelo essa gente, só pode.

O Pandoro foi (justamente) a favor do acordo sobre a base de Alcântara.

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