Análise da reunião ministerial de Bolsonaro

O alastrador de vírus. Foto: Joédson Alves/EFE

O que fazer ante o desastre iminente?

Por Pedro Breier

27 de março de 2020 : 16h28

Os efeitos do discurso da morte proferido por Bolsonaro na última terça se espalham, como alguns tipos perigosos de vírus, rapidamente. Alucinadas carreatas de crédulos estão ocorrendo hoje (27) em muitas cidades do país. Trata-se de um protesto para que a população siga as orientações do presidente — contrariando todos os médicos, pesquisadores, governos de outros países, OMS, etc. — e voltem à vida normal para “salvar a economia”.

Nas redes sociais, a impressão é de que não é apenas o bolsonarismo raiz que está adotando a linha presidencial; há muita gente reproduzindo o discurso do genocida de novo tipo. Conversei com uma vizinha, hoje, que é dona de um salão de beleza. Ela disse desconfiar da gravidade da pandemia. Eu disse os motivos pelos quais a situação é indubitavelmente grave e ela, então, respondeu que não sabia o que fazer para pagar as contas e o aluguel. Ela até conversou com o dono do imóvel, mas não houve qualquer flexibilidade.

Por aí se entende as razões que estão levando as pessoas a se alinhar a Bolsonaro. Como fazer para pagar as contas sem trabalhar? Como sobreviver ficando em casa?

Entre as duas únicas possibilidades que lhes são apresentadas — sair para a rua e correr o risco de pegar o vírus, contaminar outras pessoas e eventualmente morrer / ficar em casa e não ter condições para pagar o aluguel ou se alimentar — muitas(os) brasileiras(os) estão optando pela segunda. O que não é, convenhamos, de todo desarrazoado. É compreensível que a opção arriscada, mas que pode garantir a sobrevivência imediata, se sobreponha à opção mais sensata, cujos danos, contudo, são esparsos, coletivos e intangíveis até que a pessoa fique muito mal ou veja um ente querido nessa situação (ou os números de mortos disparem, como deve ocorrer).

A informação que Bolsonaro e todos os demais adoradores do deus capital sonegam ao público é que há uma terceira opção: o governo federal agir de forma contundente, distribuindo recursos para que os trabalhadores possam sobreviver a este período sem trabalhar e garantindo que apenas os serviços essenciais continuem funcionando. Como se vê nessa reportagem da BBC que compara as medidas econômicas que os países estão adotando, as brasileiras são das mais tímidas. A demonizada Venezuela, ao contrário, adota algumas bem mais avançadas.

Quanto ao isolamento social como medida de primeiríssima ordem para conter o contágio, a esmagadora maioria dos líderes de nações, de todos os espectros ideológicos, está adotando. Até mesmo Trump, o ídolo de Bolsonaro, mudou seu discurso e está recomendando que os americanos fiquem em casa. Bolsonaro, entretanto, segue em sua louca e suicida cavalgada. Seu governo está prestes a colocar no ar uma campanha com o slogan “O Brasil não pode parar”, ao custo de R$ 4,8 milhões de dinheiro público.

O prefeito de Milão, que agiu da mesma forma quando a Itália ainda tinha poucos mortos, disse ontem estar arrependido. Até o slogan era parecido: “Milão não para”. Mesmo assim, o governo do Brasil segue a linha de atuação (já abandonada) que certamente colaborou para que os italianos chorem hoje a morte de 9.134 pessoas — 969 somente nas últimas 24 horas, o recorde de óbitos até aqui.

A tendência é que o Brasil atravesse um vale de lágrimas sem precedentes nas próximas semanas.

É imperativo, portanto, que engulamos a raiva dos bolsonaristas que estão espalhando a desinformação mortal e divulguemos as informações corretas, com a persistência de uma formiga e a paciência de um buda. Eu mesmo estou com dificuldade de fazer isso (já briguei on-line com alguns bolsonaristas), mas é preciso seguir tentando. É necessário sermos estratégicos e recorrermos às nossas melhores armas argumentativas para ao menos minorar o desastre.

No plano da política, continua urgente que Bolsonaro seja detido. Impeachment, ações judiciais, incitação à renúncia, todas as ferramentas devem ser usadas para que a pressão sobre o presidente se intensifique e ele saia — ou seja saído — do comando da nação o mais depressa possível.

Como disse o famigerado profeta Eduardo Cunha, que Deus tenha misericórdia dessa nação.

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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17 comentários

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JOÃO LUIZ GARRUCINO

27 de março de 2020 às 21h52

Perestroika/Glasnost Global para derrubar ditadura ou muros das ideologias religiosas, políticas e econômicas todas fundamentalistas medievais?
https://www.linkedin.com/pulse/perestroikaglasnost-global-para-derrubar-ditadura-ou-muros-garrucino
https://www.linkedin.com/pulse/perestroikaglasnost-global-para-derrubar-ditadura-ou-muros-garrucino/?published=t

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JOÃO LUIZ GARRUCINO

27 de março de 2020 às 21h52

Texto recente analisando os cenários e a conjuntura do Brasil e do mundo sob óptica diferente ou fora das velhas caixas de crenças ou ideologias reacionárias e conservadoras, aprofundo uma visão crítica radical da atual crise ética, moral e espiritual do Brasil e da humanidade a caminho do nada ou do buraco, ruina, queda, destruição e morte se nada for feito ou se não mudarem a atual educação heterônoma para uma autônoma libertadora dos cidadãos com ciências, história, filosofia, física quântica, democracia e liberdade efetivas, e o Deus real da física quântica, e o Jesus real do cristianismo primitivo, desmoronando todos estes castelos medievais como enormes muros de Berlim em novas Perestroikas ou Glasnot agora globais detonando o reino ou ditadura das ideologias materialistas e fundamentalistas religiosas, políticas e econômicas da atual ditadura global gerando os males que vemos no mundo em plena nova era ou terceiro milênio ou século XXI.
Extrema direita cresce em reação à esquerda e áreas acadêmicas presas no modelo materialista newtoniano ignorando física quântica e democracia.
https://www.linkedin.com/pulse/extrema-direita-cresce-em-reação-à-esquerda-e-áreas-presas-garrucino/?fbclid=IwAR3Lzi-r8niJ63Y3EgiHWH-n23inpuEnymP-0gzP-wORVRsgxTWXvBDcnlE

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JOÃO LUIZ GARRUCINO

27 de março de 2020 às 21h51

E tem diversos vídeos do professor filosofo marxista linkados. Em reflexão do momento grave do Brasil e planeta apontamos a única solução à vista que seriam áreas acadêmicas se livrarem do velho paradigma materialista newtoniano, tratando tudo como partícula ou matéria, como trem no final da linha ou trilhos prestes a se chocar contra enorme muro da realidade maior, da física quântica, afora se livrarem das ideologias todas, religiosas, politicas e econômicas mantendo ditadura global histórica gerando todos os males que ainda vemos, e liderar sociedades como formadores de opnião, investigando a fundo como ocultaram a educação autônoma libertária e revolucionária de fato, dos espiritualistas racionais da França entre 1830 e 1850, mas que influenciou até na revolução francesa, retirando isto do gueto fundamentalista kardecista medieval nada diferente das velhas igrejas e também usando a velha educação heterônoma do vaticano kardecista da FEB e dioceses ou bispados, socando dogmas roustaguistas e igrejistas de meros católicos reformados ou de seita protestante, conservadores e reacionários sempre, como todas as religiões violando livre arbítrio ou o Deus real da física quântica, impedindo democracia, liberdade, paz, amor, fraternidade, justiça, bondade, tolerância, perdão, enfim tudo o que Jesus e Buda ensinaram falando de física quântica e não de mistificações religiosas dos doutores da lei homens deste mundo tendo tetas e vivendo as custas dos outros, para não pegarem no batente como todos, a serviço dos “capetas” ou fascinadores dominando as mentes de algo em torno de 90 ou 95 ou 99 % do Brasil e do planeta mas no Brasil religioso sem dúvida de 99 %.
Ghiraldelli filosofo marxista e físico fala de metafísica, mas conhece física quântica ou metafísica ou espiritismo ciências Buda Lao Tsé etc.?
https://www.linkedin.com/pulse/ghiraldelli-filosofo-marxista-e-físico-fala-de-mas-física-garrucino/?published=t

BOLSONARO QUER SIM O CAOS! Concepções de História e Caos Brasileiro

https://www.youtube.com/watch?v=okeKLVAQfsg

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    Paulo

    27 de março de 2020 às 22h31

    Fritjof Capra ou Arthur Schopenhauer?

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JOÃO LUIZ GARRUCINO

27 de março de 2020 às 21h51

Sem mudanças radicais regime dos partidos acabou e votos nulo, em branco e abstenções serão maioria afora riscos militares e econômicos
https://www.linkedin.com/pulse/sem-mudanças-radicais-regime-dos-partidos-acabou-e-votos-garrucino/

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JOÃO LUIZ GARRUCINO

27 de março de 2020 às 21h50

Ciro decola devido Flávio Dino PCdB e Requião postes do PT e Lula. E sem Frente Ampla em Defesa da Democracia Estado de Direito e Laico Brasil acabou
https://www.linkedin.com/pulse/ciro-decola-devido-flávio-dino-pcdb-e-requião-postes-do-garrucino/?published=t

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Ugo

27 de março de 2020 às 21h49

O discurso dele foi para levar equilíbrio no que estava indo num sentido único.
De gente que quer, precisa e voltará ao trabalho em breve tem dezenas de milhões.
Ver alguém bater na Globo de verdade (até ontem foi só papo de um lado e bilhões do outro) não tem preço.

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Alexandre Neres

27 de março de 2020 às 19h43

O discurso do Bolsoignaro, admitamos, teve um efeito devastador. É um antilíder, por execelência. A partir daí, malucos passaram a defender a economia em detrimento da vida humana, a voltar às praias e a fazer carreata. Por aí se vê que esses velhacos bolsonaristas não passam de fanfarrões. Se fossem valentões como apregoam, fariam passeata e não carreata.

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Paulo

27 de março de 2020 às 19h21

Bolsonabo deve estar sendo pressionado pelos financiadores de sua campanha. No momento, o custo-benefício ainda está a favor do confinamento. Isto posto, tenho receio do que possa acontecer com a economia se isso se estender…

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    Alexandre Neres

    27 de março de 2020 às 20h16

    Numa hora dessas, o Paulo vem me falar em custo-benefício. Depois reclama da aprovação da Reforma da Previdência, que o afeta pessoalmente, mas não consegue se aperceber que tudo está dentro da mesma ideia hegemônica neoliberal. O Paulo ainda acredita na falácia da meritocracia e na pureza de propósitos da Lava Jato, bem como na imparcialidade de Sergio Moro. É de lascar.

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      janster

      27 de março de 2020 às 22h26

      Como assim ?

      Você não acredita na democracia e nas instituições da mesma ?

      Responder

      Paulo

      27 de março de 2020 às 22h56

      O custo-benefício ainda se constitui na dinâmica e trunfo maiores do capitalismo, Alexandre (idealmente, pelo menos, tirante, portanto, os privilégios comprados, ilegítimos)! Ele é quem dita as cartas, no fim das contas. Não acredito na “falácia da meritocracia”, mas em dobrar a aposta em cima dela (mitigando, é claro, as desigualdades sociais e a ausência de uma ética cristã, de resto, ausente de todo o pensamento esquerdista clássico). Meu caso pessoal com a Previdência é fruto de uma crítica ao liberalismo transviado, praticado por Porco Guedes, que não respeita nem mesmo seus pressupostos fundantes: respeito aos contratos e aos princípios básicos do liberalismo, que versam sobre a defesa do livre mercado, do direito de propriedade privada, da liberdade da ação individual – o que pressupõe a garantia das liberdades individuais pelo Estado –, a não intervenção demasiada do Estado sobre o mercado, a competitividade econômica e a geração de riqueza. Nada disso se viu na Reforma da Previdência, que tudo isso ignorou. Quanto a Moro, acredito menos nele do que na justiça das condenações de Lula, confirmadas em 2ª Instância…

      Responder

Kastor Mattos

27 de março de 2020 às 17h55

Atenção esse tal de Pedro Breier está se oferecendo para pagar as contas dos brasileiros daqui pra frente.

Deixem em baixo seus contatos para fazer o cadastro. Obrigado

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    Nelson

    27 de março de 2020 às 20h30

    O que se há de fazer quando o sujeito opta pela “cegueira intencional”.

    Responder

Alan C

27 de março de 2020 às 17h34

Pedro,

Eu interpreto de forma diferente, as pessoas NÃO estão concordando com o bozo para voltar à vida normal, elas estão sim discordando do bozo pela morosidade dele em dar o auxílio que essas pessoas precisam. O problema é o mesmo (a dificuldade financeira) a causa é diferente (insatisfação com o governo federal).

Fiz uma pequena pesquisa com os bozonaristas que conheço pessoalmente, alguns fanáticos, e NENHUM concorda com a abertura das orientações da OMS, do ministério da saúde e da vice presidência da república exatamente por terem medo de contrair o vírus, apesar de estarem, logicamente, preocupados com a condição financeira.

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    Alfredo Stam

    27 de março de 2020 às 21h56

    Provavelmente você perdeu a pesquisa Datafolha sobre a atuação do governo em relação ao coronavirus.
    Na Itália ninguém viu um centavo do governo ainda e nem na Espanha por exemplo.

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    Haroldo Fonseca

    27 de março de 2020 às 22h01

    Quem trabalha com carteira assinada vai receber na semana que vem ou daqui 10 dias e provavelmente as empresas darão férias por x dias.

    E depois ?

    Quem tem comércio faz o que ?

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