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O persidente chinês, Xi Jiping, e o presidente russo, Vladimir Putin. Foto: Sasha Modorvets / Getty Images

China e Rússia se movimentam por “aliança financeira” contra o dólar

Por Redação

11 de agosto de 2020 : 17h21

A Rússia e a China estão se aliando para reduzir sua dependência do dólar, um movimento que especialistas afirmam que pode levar a uma “aliança financeira” entre os países.

No primeiro trimestre de 2020, a participação do dólar no comércio entre russos e chineses caiu abaixo de 50% pela primeira vez registrada, de acordo com dados do Banco Central da Rússia e do Serviço Federal Alfandegário russo.

O dólar foi usado para apenas 46% dos acordos entre os dois países.

Ao mesmo tempo, o euro atingiu um novo recorde de participação diante das operações entre os dois países: 30%.

As moedas nacionais chinesa e russa também atingiram nova cifra diante da participação nas operações comerciais entre os países, representando 24% do total.

A Rússia e a China cortaram seu uso do dólar em comércios bilaterais drasticamente nos últimos anos.

Até pelo menos 2015, aproximadamente 90% das transações bilaterais eram conduzidas em dólares.

Contudo, com a guerra comercial sino-estadunidense e uma pressão combinada entre Moscou e Pequim para se afastar do dólar, essa participação caiu para 51% até 2019.

Ao Nikkei Asian Review, jornal japonês publicado nos idiomas japonês e inglês, o diretor do Instituto de Estudos do Extremo Oriente da Academia Russa de Ciências falou sobre o fenômeno.

Alexey Maslov, como é chamado o diretor, analisou que a “desdolarização” russo-chinesa aproxima-se de um “momento de ruptura” que pode elevar a relação entre as nações uma aliança concreta.

“A colaboração entre China e Rússia na esfera financeira nos diz que finalmente se encontram parâmetros para uma nova aliança entre os países”, disse.

“Muitos esperavam que essa seria uma aliança militar ou comercial, mas agora a aliança se move para ter uma natureza mais financeira e bancária, e é o que pode garantir a independência para ambos os países”.

A desdolarização é uma prioridade para a Rússia e a China desde 2014.

Na época, os países começaram a expandir sua cooperação econômica após “estranhamentos” a Moscou vindos do ocidente devido à anexação da Crimeia.

Substituir o dólar em negociações comerciais tornou-se uma necessidade para superar as sanções estadunidenses à Rússia.

Dmitry Dolgin, o economista-chefe do IGN Bank na Rússia, explica ao Nikkei que “qualquer transação que ocorra no mundo envolvendo dólares passa em algum ponto por um banco dos Estados Unidos”.

“Isso significa que o governo dos Estados Unidos pode mandar um banco congelar certas transações”, concluiu.

O processo recebeu um forte impulso com a administração de Donald Trump impondo tarifas de centenas de bilhões de dólares em produtos chineses.

Se, antes, Moscou já havia iniciado medidas para o inevitável processo de desdolarização, Pequim também desenvolveu uma posição crítica sobre a questão.

Zhang Xin, um pesquisador do Centro de Estudos Russos na Universidade Normal da China Oriental de Xangai, afirmou que apenas recentemente grandes atores chineses começaram a sentir semelhanças entre sua situação e a dos russos.

“Apenas muito recentemente as grandes estatais e entidades econômicas chinesas começaram a sentir que podem acabar em situação semelhante à dos colegas russos: ser alvo de sanções que potencialmente podem até barrar o país do sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication)”, explicou.

O SWIFT é um sistema de rede que permite a instituições financeiras globais enviarem e receberem informações sobre transações financeiras de forma padronizada e segura.

Em 2014, russos e chineses assinaram um acordo de trocas cambiais no valor de 150 bilhões de yuan (24,6 bilhões de dólares).

O acordo permitiu a cada país ganhar acesso à moeda do outro sem ter que comprá-la no mercado de câmbio internacional e foi estendido por mais 3 anos em 2017.

Em junho de 2019, mais um movimento entre Moscou e Pequim atingiu o dólar.

Os países decidiram estabelecer um acordo que substitua o dólar com moedas nacionais para negociações entre si.

Essa organização exigiu que ambos os países também desenvolvessem mecanismos alternativos ao SWIFT, dominado pelos Estados Unidos, para a condução do comércio entre rublos e yuan.

Além do comércio em moedas nacionais, a Rússia tem rapidamente acumulado reservas de yuan às custas do dólar.

No início de 2019, o banco central russo revelou ter diminuído suas reservas de dólares em US$ 101 bilhões — mais de metade de seus recursos existentes em dólares.

O movimento beneficiou especialmente o yuan, que viu sua participação nas trocas comerciais russas pularem de 5% para 15% após o banco central russo investir 44 bilhões de dólares na moeda chinesa.

Por consequência, a Rússia adquiriu um terço das reservas mundiais de yuan.

Já em 2020, o Kremlin deu permissão ao fundo soberano da Rússia para começar a investir em yuan e títulos chineses.

O movimento russo de acumular yuan não se trata apenas de diversificar suas reservas estrangeiras de câmbio, explicou Maslov.

Moscou também quer encorajar Pequim a se tornar mais assertivo ao desafiar a liderança econômica global de Washington.

Derrubar o dólar do pódio, contudo, não será fácil.

Jeffery Frankel, um economista em Harvard, afirmou à Nikkei que o dólar dispõe de três grandes vantagens: a habilidade de manter seu valor na forma de inflação e depreciação limitadas, o grande tamanho da economia doméstica estadunidense e os EUA terem mercados financeiros que são profundos, líquidos e abertos.

Contudo, Franekl também alertou que, embora a posição do dólar transmita segurança agora, dívidas galopantes e políticas de sanção exageradamente agressivas podem erodir sua supremacia no longo prazo.

“Sanções são um poderoso instrumento para os Estados Unidos, mas, como qualquer ferramenta, você arrisca que outros busquem alternativas se você utilizá-la demais”, explicou.

“Seria tolo assumir que está escrito em pedra que o dólar se manterá sem desafios como a reserva de valor internacional”, concluiu.

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