A disputa pelo audiovisual deixou de ser uma briga entre estúdios e virou um capítulo da geopolítica. É assim que Leonardo Edde, presidente da RioFilme, resume a transformação do setor que acompanha há quase três décadas como produtor.
Edde é citado nos bastidores do setor audiovisual como um dos nomes cotados para presidir a Ancine a partir da próxima vaga que abrir na instituição, o que pode acontecer nos próximos meses. Boa parte da diretoria deve ser renovada, o que vai ajudar a destravar, segundo ele, as inovações necessárias para melhorar a situação do cinema nacional.
O adversário das cinematografias nacionais não é mais Hollywood no sentido antigo, segundo Edde. São hoje as maiores empresas do mundo, Alphabet, Amazon, Netflix e Apple, que tratam conteúdo como isca para vender assinatura e não como produto cultural.
Edde lembra que essa disputa sempre teve natureza política. “O cinema sempre foi político. A arte sempre foi política”, diz, antes de observar que a novidade é a escala, agora verdadeiramente global, num momento em que distribuir um filme pelo mundo se tornou um processo extremamente simplificado pela revolução digital e pela concentração das plataformas.
“Não é mais o Exército que protege as nações, é a cultura”, afirma.
Os Estados Unidos entenderam isso logo após a Segunda Guerra, quando transformaram o cinema no motor do seu soft power. O cinema americano vende, antes de tudo, o próprio modo de vida americano.
A Coreia do Sul fez a leitura mais inteligente das últimas décadas. Quando um único blockbuster de Hollywood ocupou as salas coreanas nos anos 1990, o governo percebeu que saía mais dinheiro do país para os estúdios americanos do que entrava com a exportação de carros.
A resposta foi uma política pública de Estado, perene e ambiciosa. O ápice veio com o Oscar de Parasita, que abriu caminho para as séries, a música, a culinária e até o idioma coreano conquistarem o mundo.
O Brasil tem a matéria-prima e desperdiça a oportunidade. Segundo Edde, o país exporta pouco demais para uma indústria que pretende ser sustentável, já que toda indústria audiovisual saudável é exportadora.
Hollywood tira entre 60% e 70% da receita de seus filmes do mercado externo. Sem exportar, o cinema brasileiro não se sustenta nem ajuda a projetar o país no tabuleiro internacional.
Há ainda um efeito interno pouco discutido. Filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto só alcançam grande bilheteria doméstica depois de ganharem relevância em festivais lá fora.
Edde chama isso de “exportação de produto e importação de relevância”. É o atalho contra o que ele descreve como uma “cabeça colonizada”, a velha síndrome de vira-lata que ainda leva o público brasileiro a desprezar o que é nacional.
Nesse ponto a conversa encontra os Brics. Para o presidente da RioFilme, o Brasil tem a chance de deixar de ser apenas exportador de commodity e passar a liderar uma narrativa cultural própria num mundo multipolar.
O problema é que a política pública brasileira chega atrasada justamente à parte que mais cresce. O streaming, segmento mais expandido do consumo audiovisual, é o único elo da cadeia que segue sem regulação no país.
Todos os outros segmentos são regulados e contribuem para garantir espaço ao produto nacional. O ambiente digital, onde está a maior parte da audiência, escapa dessa lógica.
O resultado aparece nos números da própria agência reguladora. A [última pesquisa da Ancine](https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca) aponta que apenas 5% do conteúdo disponível nos streamings no Brasil é nacional.
É pouco demais para o lugar onde o público de fato assiste. “É premente que a gente possa regular os streamings”, afirma, sob pena de o país perder investimento, distribuição e a disputa pela própria tela.
Edde não é inimigo das regras. “Eu sou a favor da burocracia, aliás eu nem sei o que seria sem ela”, diz, mas defende apenas a burocracia necessária, aquela que dá segurança jurídica sem asfixiar a criação.
Falta, na sua avaliação, uma política de Estado que nenhum governo possa desmontar com uma canetada. O que ele descreve como um tripé institucional, formado por Conselho Superior do Cinema, Ancine e Ministério da Cultura, virou a partir do golpe de 2016 “um monopé”, que “não para em pé sozinho”.
Há também um problema no desenho do setor. São 12 mil produtoras independentes no Brasil, a maioria no nível de entrada e muitas abertas apenas para acessar editais.
Misturar estreantes e grandes produtoras nas mesmas regras acaba travando todo mundo. A saída, para Edde, é separar políticas, com mais liberdade e mais cobrança para quem disputa o mercado mundial e mais apoio para quem ainda tenta entrar nele.
Na entrevista ao Cafezinho, Edde também foi perguntado sobre o financiamento obscuro do filme Dark Horse, bancado com dinheiro de Daniel Vorcaro, um dos maiores fraudadores financeiros da história brasileira. A operação parte justamente de quem vive tentando demonizar o sistema de financiamento público do cinema nacional.
Sua resposta foi recusar o enquadramento. “Falta de ética é falta de ética”, disse, lembrando que o senador Flávio Bolsonaro, autor do projeto sobre o pai, sequer é do ramo. “Nem ele é um produtor de cinema. Tá longe de ser.”
Para Edde, quem quer enganar ou roubar fará isso em qualquer indústria, sob qualquer pretexto. “Não é sobre cinema. É sobre corrupção, é sobre fraude.”


Cecília Ramos
29/06/2026
É animador ver que finalmente o debate sobre o audiovisual sai do clubinho e entra na geopolítica, porque cinema sempre foi disputa de narrativa e poder. Tomara que o Leonardo Edde, se for para a Ancine, priorize políticas públicas que fortaleçam nossas histórias periféricas e não só os grandes conglomerados. O Estado precisa sim financiar cultura que denuncie desigualdade e defenda os direitos humanos, afinal, toda boa arte também é profecia.
Ronaldo Pereira
29/06/2026
Acertou na mosca, Cecília. O cinema sempre foi uma ferramenta de luta de classes, e o Estado tem o dever de financiar a voz do povo trabalhador, não a lucratividade dos patrões. Quem viveu greve e resistência sabe que toda arte que denuncia a exploração é um ato de solidariedade internacional.
Paulo Gestor RJ
29/06/2026
Interessante a leitura geopolítica do Leonardo Edde sobre o audiovisual, mas no Rio de Janeiro precisamos de gestão com resultados concretos. A RioFilme tem potencial, mas sem métricas claras de retorno para a cidade e sem transparência fiscal, o discurso geopolítico vazio não paga conta de luz. Foco em eficiência e parcerias que gerem emprego e renda de verdade.
Fernando O.
29/06/2026
Paulo, concordo em parte: métricas e transparência são obrigatórias em qualquer gestão pública. Mas reduzir a discussão geopolítica a “discurso vazio” é o tipo de pragmatismo raso que ignora que, sem posicionamento estratégico, nem parceria gera emprego sustentável — vira só mais um evento sazonal.
Maria Silva
29/06/2026
Cinema brasileiro é caso perdido. Esses caras vivem de mamata estatal enquanto o agro brasileiro banca o país. Geopolítica do cinema pra quê se ninguém assiste esses filmes financiados com nosso suor? Libera logo o mercado e deixa o povo escolher, igual boi escolhe pasto.
Sargento Bruno
29/06/2026
Boa observação, Maria. Mas enquanto o agro banca o país com nosso suor sujo de guerra, essa trupe de cineastas esquerdistas vive distribuindo mamata ideológica com dinheiro público. Se querem geopolítica, que aprendam com os militares: disciplina e patriotismo, não lacração financiada pelo contribuinte.
Tadeu
29/06/2026
Maria, você tem um ponto: se cinema brasileiro desse retorno real, não precisava de injeção estatal todo ano. Deixar o mercado resolver era mais eficiente que torrar dinheiro público em filme que ninguém vê.
Laura Silva
29/06/2026
Maria, vou direto ao ponto porque sua fala merece uma interlocução à altura, e não o desprezo que você provoca. Você chama o cinema brasileiro de “caso perdido” e fala em “mamata estatal”, mas ignora que o agronegócio que você exalta é o maior beneficiário de subsídios públicos da história recente do país. Dados do Banco Central mostram que, entre 2000 e 2020, o setor agropecuário recebeu mais de 500 bilhões de reais em renúncias fiscais, crédito subsidiado e renegociações de dívidas. Cada saca de soja que sai do Porto de Santos carrega um subsídio embutido que você, como contribuinte, paga. O cinema brasileiro, por sua vez, recebeu algo em torno de 3 a 4 bilhões no mesmo período via leis de incentivo e fundos setoriais. Menos de 1% do que o agro embolsou. Então, se vamos falar em “mamata”, sejamos honestos: quem mama grosso no teto do Estado é o agro exportador de commodities, que ainda por cima utiliza trabalho análogo à escravidão e desmata áreas protegidas com a bênção de sucessivos governos.
Você diz que “liberar o mercado e deixar o povo escolher, igual boi escolhe pasto” resolveria a questão. Aí está o coração da falácia neoliberal que você reproduz sem perceber. O “mercado livre” do cinema mundial é um oligopólio de seis corporações estadunidenses que controlam mais de 80% da bilheteria global. Elas não competem em igualdade: têm orçamentos de marketing que superam o PIB de muitos países, acordos de exclusividade com redes de exibição e uma máquina de soft power que inclui desde o Departamento de Estado até as plataformas de streaming. “Deixar o povo escolher” nesse contexto é como dizer que o gado escolhe o pasto quando o pasto é cercado por arame farpado e o peão decide onde o boi pasta. A liberdade de escolha do consumidor, no capitalismo tardio, é a liberdade de escolher entre o que o capital já decidiu produzir. Se não há política pública de fomento ao cinema brasileiro, a “escolha” do público se reduz a um cardápio de filmes de Hollywood com variações mínimas de enredo e estética. Isso não é geopolítica? É a mais brutal geopolítica cultural, que apaga identidades, línguas e histórias inteiras.
Por fim, Maria, seu desprezo pelo cinema nacional revela uma compreensão rasa do que significa soberania cultural. O Brasil não é apenas um vendedor de soja e minério de ferro; é um país com 200 milhões de pessoas que têm o direito de se ver nas telas, de ter suas contradições narradas com complexidade, e não apenas como cenário exótico para produções estrangeiras. O cinema brasileiro não é um “gasto”, é um investimento em autoestima coletiva, em formação crítica e em memória. Filmes como “Que Horas Ela Volta?”, “Bacurau” e “Central do Brasil” não são entretenimento vazio: são ferramentas de compreensão do Brasil real, que o agronegócio e o mercado financeiro preferem que a gente não enxergue. Se você acha que o povo “escolhe” como boi escolhe pasto, está projetando sua própria resignação. O povo tem fome de representação, sim. Basta ver a fila que se forma em mostras de cinema periférico ou nas sessões gratuitas em comunidades. O problema não é a falta de público, é a falta de distribuição e de salas de exibição, que o Estado também precisa regular e fomentar. Liberar o mercado sem contrapartida é entregar o país de bandeja para o imperialismo cultural. Se você se orgulha de viver numa colônia de pasto, tudo bem. Mas quem luta pelo cinema brasileiro luta por dignidade, não por esmola.
Ana Paula Conserva
29/06/2026
Que o cinema brasileiro seja visto como geopolítica é preocupante, pois mostra como a cultura está sendo usada para espalhar ideologias que destroem a família. Enquanto isso, valores cristãos e a moral são deixados de lado em nome de uma agenda globalista. Espero que Leonardo Edde, se for para a Ancine, priorize produções que respeitem a tradição e a ordem.
Alice T.
29/06/2026
Ah, a hipocrisia liberal padrão: acusar o cinema brasileiro de “globalista” enquanto consome streaming americano cheio de pauta conservadora vendida por bilionários. Que tal parar de lacrar e assistir um filme nacional de verdade pra variar?
Luciana
29/06/2026
É verdade que o brasileiro médio assina Netflix porque o cinema nacional custa caro e mal chega no interior, então antes de cobrar militância, alguém precisa explicar como pagar 40 reais num filme nacional com o gás a 130.
Lucas Gomes
29/06/2026
Luciana, você acertou em cheio ao denunciar o custo de vida absurdo e a distribuição elitista do cinema nacional — isso é fruto de um projeto de país que entrega nossa cultura ao mercado estrangeiro enquanto o povo luta pra pagar o gás. Mas não confunda a militância antissistêmica com a falta de políticas públicas sérias de acesso à arte popular: ambas são vítimas do mesmo capitalismo predatório que encarece o ingresso e a botija.