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Nelson Barbosa: Brasil abandonou toda e qualquer política de desenvolvimento

Por Redação

14 de janeiro de 2021 : 08h17

Nesta terça-feira, 12, o ex-ministro da Fazenda (2015-2016), Nelson Barbosa, escreveu um artigo sobre a ausência de um projeto de desenvolvimento para o Brasil e citou os exemplos o fim da produção da Ford, reestruturação no Banco do Brasil e o PDV na Volkswagen.

Por Nelson Barbosa

O ano não começou bem no emprego. O Banco do Brasil anunciou o fechamento de 361 agências e corte de 5.000 empregos. A Volkswagen abriu plano de demissão voluntária em Taubaté e, na notícia mais bombástica, a Ford anunciou o encerramento de sua produção de veículos no Brasil.

As más notícias do emprego refletem, em parte, mudanças tecnológicas e reorganização dos setores envolvidos.

No setor bancário, o avanço do trabalho remoto e e-banking não requer tantas agências como antes. Vários bancos privados já reduziram sua rede de atendimento presencial. O BB está indo no mesmo caminho.

No setor automotivo, está ocorrendo uma transição tecnológica para produtos de maior valor unitário, com novas tecnologias de propulsão (motores híbridos ou elétricos), e crescimento de novas empresas, como as montadoras chinesas e a Tesla norte-americana.

encerramento das atividades da Ford no Brasil reflete, em parte, a adaptação da empresa ao novo cenário automotivo mundial, mas não foi somente isso.

A recessão de 2014-16 e a estagnação de 2017-19 também tiveram papel importante, pois a produção brasileira é voltada para o mercado interno.

Sem perspectiva de recuperação de vendas, com o Presidente da República dizendo que o país está quebrado e o Ministro da Economia dizendo que não tem plano de reconstrução econômica pós-pandemia, não surpreende que Ford encerre suas atividades.

Vários analistas já se apressaram a culpar governos passados, por terem dado grandes desonerações para a instalação da Ford no Brasil, especialmente no Nordeste. Acho esta crítica injusta com Fernando Henrique e Antônio Carlos Magalhães, que levaram a Ford para Bahia mediante fortes incentivos estaduais e federais.

Prefiro adotar o “Princípio de Furlan”, segundo o qual não se desonera o que não existe. Traduzindo do economês, os críticos de políticas automotivas dizem que o governo perdeu X bilhões com incentivos A, B e C, tomando como referência a produção existente após o incentivo.

O problema deste raciocínio é que, sem o incentivo, provavelmente a produção não existiria, logo não houve desoneração de fato. Houve incentivo fiscal para criação de renda e emprego, que não aconteceria sem o incentivo.

A crítica válida é que a desoneração não pode ser para sempre. O incentivo deve ser temporário, pois as empresas têm que andar com suas próprias pernas a partir de algum momento. Esta foi a lógica das políticas automotivas dos governos Lula e Dilma, que trouxeram investimentos e empregos para o Brasil, em troca de incentivos com prazo para acabar.

O caso mais famoso foi o Inovar-Auto, que aumentou a capacidade produtiva interna, com cronograma de redução gradual dos incentivos depois de cinco anos.

A redução dos incentivos estava programada para começar em 2017, mas antes disso veio o golpe de 2016 e o Brasil abandonou toda e qualquer política industrial e regional de desenvolvimento.

O desastre começou com os fiscalistas de planilha do governo Temer e se aprofundou com os austríacos de circo do atual governo. Em vez de fazer transição suave de retirada de incentivos, desde 2016, o governo federal optou pelo fim abrupto de vários programas de diversificação produtiva, interrompendo o diálogo necessário com a indústria nacional.

As consequências vêm depois. Estagnação econômica e ausência de política de desenvolvimento produtivo são fatais para a indústria. Infelizmente, enquanto formos governados por terraplanistas, decisões como a da Ford tendem a se repetir em outras empresas e setores.

Texto publicado originalmente na Folha em 12 de janeiro de 2020.

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2 comentários

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Ricardo JC

14 de janeiro de 2021 às 13h42

Resta saber por que a Ford resolveu manter a sua fábrica na Argentina e no Uruguai e fechar no Brasil? Os carros da Ford continuarão a ser vendidos no Brasil, mas “importados” da Argentina e do Uruguai. Se a questão está relacionada com uma reorganização do setor a nível mundial, existe algum outro componente que o ex-ministro (com minúsculas mesmo) se furta em comentar.

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EdsonLuiz Pianca

14 de janeiro de 2021 às 13h36

Nelson Barbosa está sendo bem corajoso e honesto em admitir que a recessão ocorreu a partir de 2014, seguida de estagnação, estagnação esta que perdura até hoje. A declaração do Nelson é uma declaração rápida, mas honesta. Dá uma fotinha 3/4 (quem se desacostumou com o termo, é essa fotinha pequena, quadradinha, que fazíamos para carteiras de documentos).

A coragem e honestidade se dá por ter sido exatamente Nelson Barbosa o formulador de política econômica dos governos PT após iniciarem a desmontagem da herança insuficiente, mas que deu grandes resultados em uma economia que Fernando Henrique pegou em destroços. É quando comparada a esses destroços que a economia de FHC é muito bem sucedida. Na verdade, para a realidade da época, um grande milagre, e uma benditíssima herança posterior. Mas nunca para o PT, que sempre vai demonizar até obras de arte como conseguir produzir os resultados que FHC conseguiu, e divinizar desastres como os do PT na economia. Quanto ao Fernando Henrique, fico por aqui. O PSDB, por puro limite ideológico, muito pouco avançou uma agenda econômica em favor dos mais pobres.

Recessão econômica é tragédia. Causa desemprego, perda de renda e quebra de receita, reduzindo dos entes públicos de todas as esferas capacidade de financiamento. Mas uma recessão não aparece do nada. Se teve recessão a partir de 2014 – documentada pelo Comitê de Datação de Ciclos. E foi uma recessão-desastre completo e a maior recessão da história da república – sua gestação começou em 2006/2007, época em que o mesmo Nelson Barbosa assumiu a Secretaria de Política Econômica do Governo Lula. Foi ali que começaram as alterações na herança econômica que o PT recebeu e em um documento, a Carta ao Povo Brasileiro, assinada pelo Lula, prometeu manter. As alterações econômicas, inicialmente pequenas, depois foram se avolumando e deu no que deu. Adivinhem quem era o formulador de política econômica do PT? Leiam novamente o nome da pasta que Nelson assumiu.

Mas depois, possivelmente percebendo que tinha errado, tentou corrigir, não conseguiu dado o populismo do PT, e saiu do Governo. Quando retornou, foi para o Ministério do Planejamento, em 2015, e depois assumiu o Ministério da Fazenda, em 2016, eu acho. Tentou sim corrigir o desastre que criara. Não conseguiu. O desastre faz vítimas até hoje (imaginem toda a falta de dinheiro todos estes anos, para a educação, para o SUS, para pesquisa, para Universidades, para investimento, para tudo. Imaginem o número de desempregados até hoje (abstraindo os da pandemiapresidente, que ainda vão aparecer).

É claro que não seria o Temer, e muito menos o bolsonaro que iriam resolver isso.

Precisamos derrotar essas forças e retomar o investimento e o desenvolvimento com um projeto completo, agora sem os limites ideológicos do Fernando Henrique e do PSDB e sem os desastres do PT.

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