Comentários sobre o áudio vazado de André Esteves (BTG Pactual)

Foto: Marcos Corrêa/PR

Tempestade perfeita

Por Pedro Breier

28 de janeiro de 2021 : 10h19

O “eu garanto a vocês que não tem qualquer possibilidade de impeachment” que Eduardo Bolsonaro fala logo no início deste vídeo lembra aqueles momentos em que o técnico do time está sob alta pressão e o dirigente do clube dá uma entrevista dizendo que o cidadão está prestigiado e que não há perigo de demissão. E então, poucos jogos depois, o técnico cai.

Ainda mais quando o filho do presidente tenta justificar sua afirmativa: Bolsonaro não cai porque “tem apoio popular” e porque “dentro do Congresso Nacional isso daí é motivo de chacota”. O apoio popular é fragorosamente desmentido pela última rodada de pesquisas de avaliação do governo: todas os institutos apuraram uma deterioração importante na popularidade do presidente e da sua administração.

Quanto ao impeachment ser chacota dentro do Congresso, bem, quando o presidente da Câmara e um dos candidatos ao cargo falam sobre o tema, quando começam a se espalhar “placares do impeachment” para contabilizar os votos dos parlamentares, quando os jornalões e grupos de direita passam a considerar ou mesmo defender o impeachment e quando o governo tenta desesperadamente garantir a eleição de um aliado para a presidência da Câmara para não correr risco de cair, é porque o impeachment já passou do estágio chacota faz algum tempo.

Há outros sinais de que o impeachment de Bolsonaro não deve ser um hit fugaz nas paradas de sucesso, mas um clássico que ficará marcado na história.

Um deles é o tradicional “vice-prontinho-para puxar-o-tapete”. Bem no dia em que explodiu o escândalo do leite condesado, Hamilton Mourão deu uma entrevista para a CNN falando de sua relação com o presidente Bolsonaro:

Não há conversas seguidas entre nós. As conversas são bem esporádicas.

E, indagado se sente falta do diálogo:

Faz falta, sim. Faz falta até para eu entender em determinados momentos o que eu preciso fazer.

Alguém aí lembrou da famigerada cartinha de Michel Temer a Dilma Rousseff? Faltaram a carga dramático-patética e as mesóclises, mas o sentido é o mesmo: há um fosso intransponível entre mim e o presidente, portanto se derrubarem-no, podem confiar no papai aqui.

A verborragia de Bolsonaro, apesar de habitual, não exatamente baixa a temperatura do caldeirão do impeachment – pelo contrário.

Apesar das justas ponderações que se vem fazendo sobre a fragilidade do escândalo da compra de alimentos nos aspectos contábil e orçamentário – é, de fato, um debate pequeno diante do sequestro do orçamento perpetrado por Paulo Guedes e turma –, o estrago político que pode ser provocado pelos milhões gastos em chicelete e leite condensado é tectônico.

E, de todo modo, os contratos milionários do governo com empresas aparentemente modestíssimas (e que ainda negam a venda) são evidentes causas para uma investigação rigorosa, pois é possível, senão bastante provável, que haja desvio de recurso público na história. Quem se surpreenderia com os especialistas em rachadinha escalando seu negócio para um rachadão?

Uma CPI que investigue e encontre roubo de dinheiro público pode ser a pá de cal no governo Bolsonaro.

O céu fechado que começou a se armar para o presidente por conta da tragédia da falta de oxigênio em Manaus toma ares, agora, de tempestade perfeita – aquele momento da política em que uma miríade de fatos e condições adversas acontecem simultaneamente e jogam o governante nas cordas. Em um cenário desses, a garantia do glorioso Dudu Bananinha (vocês lembram quem inventou esse apelido, né?) vale tanto quanto uma nota de três reais.

Pedro Breier

Pedro Breier nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo. É formado em direito e escreve n'O Cafezinho desde 2016, sendo atualmente um dos editores do blog.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

7 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Ana Maria dos Santos

10 de março de 2021 às 12h01

Pra quem ama o inferno , o Brasil está prato cheio com esses demônios nos governando, população armada a vontade até os dentes, pra se matarem uns aos outros, Direitos retirados ,
fome miséria, nos isolando dos outros países, viramos chacota mundial, Só Deus pra ter misericórdia desse pobre povo

Responder

Ventura Efrem

28 de janeiro de 2021 às 19h08

Governo ridículo tá engraçado de ver… kkkkkkkkkkkkkkkk

Responder

    Luan

    29 de janeiro de 2021 às 09h03

    Vai se divertir por um tempo ainda….

    Responder

Tony

28 de janeiro de 2021 às 18h57

Bolsonaro pinta e borda com essa oposiçào patetica que vive de idiotices.

Responder

    Valeriana

    29 de janeiro de 2021 às 09h04

    Isso é bom para as esquerdetes aprender um pouco a viver na democracia, coisa que até 2 anos atras nao conheciam….vai fazer bem para todo mundo.

    Responder

Efrem Ventura

28 de janeiro de 2021 às 10h31

Esperneiem mais que tà engraçado de ver…kkkkkkkkkkkkkkkk

Responder

    Paulo César Cabelo

    29 de janeiro de 2021 às 07h09

    Deve estar muito engraçado ver o povo morrendo sufocado em Manaus.
    Você é só um capacho de bandidos genocidas.

    Responder

Deixe um comentário

Parlamentarismo x Semipresidencialismo: Qual a Diferença? Fernanda Montenegro e Gilberto Gil são Imortais na ABL: Diversidade Auxilio Brasil x Bolsa Família: O que mudou? As Refinarias da Petrobras À Venda pelo Governo Bolsonaro O Brasileiro se acha Rico ou Pobre?