Cafezinho das 3: por que as manifestações de domingo floparam?

Foto: Arquivo / Agência Brasil

Organizações ligadas à agricultura protestam contra postagem do Governo Bolsonaro associando agricultor a um jagunço armado

Por Redação

28 de julho de 2021 : 20h00

A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e outras organizações ligadas a agricultura familiar como a Ação da Cidadania e a Contag protestaram contra a publicação do Governo Bolsonaro onde associa um homem armado com os trabalhadores do campo.

A publicação tinha o objetivo de “homenagear” pelo Dia do Agricultor.

“Hoje homenageamos os agricultores brasileiros, trabalhadores que não pararam durante a crise da Covid-19 e garantiram a comida na mesa de milhões de pessoas no Brasil e ao redor do mundo”, dizia a postagem.

Imagem: Reprodução/Secom

A postagem foi apagada após usuários do Twitter compararem a publicação do Governo Bolsonaro com a do Governo de São Paulo.

Confira as notas das organizações na íntegra!

NOTA À IMPRENSA

Posicionamento da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) contra postagem belicista e desrespeitosa do Governo Federal no Dia do Agricultor e da Agricultora

A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) manifesta seu repúdio à campanha de ódio e violência no campo propagada pela Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República em seu intento de tumultuar a celebração deste 28 de julho, Dia do Agricultor e da Agricultora no Brasil.

Ao utilizar a imagem de um caçador portando uma espingarda em savana africana, adquirida em um banco de imagens pagas, o Governo Federal demonstra mais uma vez seu desconhecimento da realidade da agricultura familiar no Brasil, marcada pela solidariedade, generosidade e dedicação para prover alimentos de verdade para as famílias brasileiras.

Com sua campanha de ódio e confronto armado, em vez de enaltecer e fomentar o trabalho de agricultores e agricultoras, o Governo Federal reforça a política genocida responsável pela morte de mais de 550 mil brasileiros e brasileiras que pereceram pela Covid-19, por inação e sabotagem das autoridades aos esquemas de prevenção e combate à pandemia. A mesma postura negacionista promove o desmonte das políticas públicas de apoio à produção e oferta de alimentos à população vulnerável que sofre os efeitos da pandemia sobre a Economia, padecendo da fome e miséria que o Governo Federal é incapaz de enfrentar.

A agricultura familiar e camponesa do Brasil merece respeito e apoio, merece ser valorizada e enaltecida por seu papel histórico no desenvolvimento do país e na segurança e soberania alimentar que já demonstrou ser possível alcançar sob a gestão de profissionais sérios e comprometidos com a paz no campo e a produção de alimentos de qualidade.

Ao lado das organizações representantes de agricultores e agricultoras, rechaçamos o simbolismo armamentista promovido pelo Governo Federal nas áreas rurais do país e conclamamos a sociedade civil brasileira a se posicionar em favor da agricultura familiar e camponesa e da agroecologia, apoiando nossas campanhas por auxílio emergencial, ampliação do Programa de Aquisição de ALimentos (PAA) e fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

A segurança no campo não depende de armas, mas sim de políticas públicas de desenvolvimento rural, reforma agrária e tecnologia apropriada, geração de trabalho e renda, tanto no campo quanto nos centros urbanos que sofrem com o desemprego e a escorchante inflação dos alimentos.

Paz no campo e comida no prato!

Brasília (DF), 28 de Julho de 2021

Articulação Nacional de Agroecologia (ANA)

Do outro lado do rifle estão indígenas e quilombolas brasileiros

A estarrecedora imagem postada pela SECOM do Governo Federal com um homem segurando um rifle ao invés de uma enxada no Dia do Agricultor só demonstra a forma como este governo encara a zona rural: um campo de batalhas.

Na ponta daquele rifle retratado na postagem estão os indígenas, os quilombolas, os ribeirinhas e os pequenos produtores que lutam dia-a-dia pela sua sobrevivência enquanto o agronegócio avança em cima de suas terras, com agrotóxicos e espingardas.

Para além do absurdo da imagem, está a desfaçatez do texto, que, em mais um exercício de pós-verdade, tenta colocar o Brasil como um exemplo de segurança alimentar. Nosso país vive uma inflação com subida de preços no setor de alimentos de 15,26%, sendo que, dentre estes alimentos, os cereais (arroz, feijão etc) tiveram aumento médio de mais de 30%, a carne mais de 35% e o óleo mais de 55%.

Tudo isso com o Bolsa Família com o valor congelado desde 2016; e o aumento real do salário mínimo revogado pelo governo federal.

O aumento da promessa de investimento não significa execução real deste montante. O fato é que os recursos destinados totais diminuíram de 2014 a 2020; e o pequeno produtor sofre cada vez mais com a falta de políticas públicas que possam garantir preços para produtos que a população consome verdadeiramente, como o arroz e o feijão.

Em suma, temos um governo que acha que exportar soja e milho para alimentar principalmente gado, suínos e aves é segurança alimentar para o povo brasileiro. Ou seja, tal mentalidade demonstra claramente o seu total desconhecimento sobre a fome no Brasil.

Rodrigo “Kiko” Afonso

Diretor Executivo da ONG Ação da Cidadania

No Dia do Agricultor(a), quem produz alimentos exige reconhecimento e respeito após postagem do governo federal

São 15 milhões de trabalhadores rurais agricultores e agricultoras familiares que contribuem com a soberania e segurança alimentar e nutricional da população, produzindo 70% dos alimentos que chegam diariamente à mesa da população brasileira.

São alimentos saudáveis, produzidos de forma sustentável, com mais sabor, potencial nutritivo e preservando os hábitos alimentares locais, o meio ambiente e a cultura local.Portanto, nesse Dia do(a) Agricultor(a), celebrado em 28 de julho, a melhor homenagem que os agricultores e agricultoras familiares esperam é reconhecimento ao seu importante papel na produção de alimentos e no desenvolvimento do País.

Ao invés disso, recebemos do governo federal uma “homenagem” totalmente desrespeitosa, com a imagem de uma pessoa no campo segurando uma espingarda. Exigimos respeito!A CONTAG repudia totalmente essa postagem feita nas redes oficiais do governo e, enquanto representante dos agricultores e agricultoras familiares, expressa a sua indignação.

Ao mesmo tempo, homenageia a todos os homens e mulheres que trabalham debaixo de chuva e de sol, no frio e no calor, de domingo a domingo, com pandemia e sem pandemia, semeando, cultivando e colhendo com amor e dedicação os alimentos que geram vida, saúde, renda e desenvolvimento em todo o País.

Diretoria da CONTAG

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