Um espectro ronda os Estados Unidos, o espectro do socialismo. Não é exagero: é quase uma citação literal do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, de 1848. Quase dois séculos depois, a frase não descreve mais apenas a Europa do século XIX — hoje cabe perfeitamente na política americana de 2026.
Dados recentes de pesquisas divulgadas pela CNN e confirmados por levantamentos como o da Gallup mostram que 66% dos democratas americanos têm visão positiva do socialismo. Apenas 42% veem o capitalismo de forma favorável. É uma inversão histórica dentro do próprio Partido Democrata.
O analista de dados da CNN, Harry Enten, resumiu bem: o socialismo está “subindo como um foguete” entre os democratas, enquanto o capitalismo “caiu no chão”. Não é só opinião abstrata. A ala socialista organizada — a Democratic Socialists of America (DSA) — tem hoje +17 pontos de favorabilidade líquida entre os democratas, melhor que a própria bancada democrata no Congresso (+4).
A força eleitoral da esquerda socialista
Essa virada não é só de pesquisa. Tem tradução eleitoral concreta.
Em 2025, o socialista Zohran Mamdani (DSA) venceu a prefeitura de Nova York com 1.114.184 votos (cerca de 50,8% dos votos válidos), em uma eleição com a maior participação desde 1969. Agora, em 23 de junho de 2026, a DSA lança uma chapa ambiciosa para o Congresso e legislaturas estaduais em Nova York, com forte apoio do próprio Mamdani. As chances de vitória em distritos-chave são reais. O que antes era marginal virou tendência.
Trump em queda livre e a revolta geracional
Enquanto isso, do outro lado, Donald Trump patina em 37% de aprovação geral, com números ainda piores na economia e na inflação.
A guerra contra o Irã (iniciada no final de fevereiro de 2026) foi o golpe de misericórdia. Pesquisas da AP-NORC, Reuters/Ipsos e YouGov mostram que a aprovação de Trump no manejo da economia e da inflação afundou para patamares recordes negativos — em alguns trackers, -51 pontos na inflação. A maioria dos americanos (cerca de 60-65%) desaprova a condução da guerra. O próprio Trump já recuou e busca um acordo preliminar, mas o estrago político está feito.
Entre independentes, a situação é dramática. O mais impressionante, porém, é o corte geracional.
No Harvard Youth Poll de março/abril de 2026, apenas 13% dos jovens (18-29 anos) acham que o país está no rumo certo. A aprovação de Trump entre eles gira em torno de 25%. A grande maioria considera que a ação militar no Irã não é do interesse dos americanos e vê a relação com Israel mais como ônus do que benefício.
Essa geração não só é mais crítica da política externa americana tradicional como também é a que mais abraça visões econômicas progressistas. O socialismo — ou pelo menos uma forte regulação do capitalismo — deixou de ser tabu. Virou alternativa plausível para quem não viu o “sonho americano” se realizar.
Tudo isso tem consequências diretas aqui no Brasil. O bolsonarismo construiu sua identidade em grande parte copiando o trumpismo: negacionismo climático, autoritarismo de fachada, ataque às instituições, alinhamento com a extrema direita israelense e uma retórica de “guerra cultural”.
O modelo que eles copiam está em declínio claro nos Estados Unidos — e o declínio é geracional. Os jovens americanos, que serão a maioria do eleitorado nas próximas décadas, estão virando à esquerda em temas econômicos, rejeitando guerras imperialistas e questionando o apoio automático a Israel.
A “onda reacionária global” que muitos anunciavam, ancorada fortemente no trumpismo americano, parece cada vez mais uma bolha.


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