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Atlas Político confirma fortalecimento de Lula e estagnação da terceira via

Por Miguel do Rosário

30 de julho de 2021 : 13h51

A pesquisa do Atlas Político divulgada hoje (íntegra aqui) mostra o fortalecimento da candidatura de Lula (PT), a estabilidade de Bolsonaro e a estagnação dos outros candidatos.

No cenário extenso, com todos os candidatos, Lula passou de 33 para 39 pontos de maio a julho, e apresenta viés de crescimento acelerado (iremos discorrer mais sobre Lula mais adiante).

Bolsonaro, por sua vez, oscilou um ponto para baixo, e vem se mantendo estável desde janeiro, com 34 a 37 pontos. 

Ciro Gomes (PDT) ainda mantém o terceiro lugar, com viés de baixa ao longo dos últimos meses, e já aparece, num dos cenários reduzidos, em empate técnico com Eduardo Leite (PSDB). 

Abaixo, gráficos selecionados, seguido de alguns breves comentários. A análise segue ao final do post.

A pesquisa Atlas não é tão ruim para Bolsonaro como outras. No último Datafolha (de 7 e 8 de julho), por exemplo, Bolsonaro aparece com 25%. Aqui no Atlas, ele tem 35,9%.

No Datafolha, Lula tem 46%. Aqui tem 39,1%.

Na série temporal, nota-se quatro tendências:

1) Ascensão acelerada de Lula. O petista ganhou 17 pontos desde janeiro. Lula começa a disparar em março, quando seus processos judiciais e condenações são inteiramente anulados, primeiro pelo ministro Edson Fachin (8 de março), e, em seguida, por todo o plenário do STF (15 de abril).  Com essas decisões, Lula recuperou seus direitos políticos e voltou ao jogo com muito dinamismo. 

2) Estabilidade de Bolsonaro. Apesar da rejeição ao presidente estar crescendo, ele mantém um eleitorado cativo em torno de 35%. De janeiro a julho, Bolsonaro não perdeu eleitores. 

3) Estagnação, com viés de baixa, de Ciro. O ex-ministro foi o principal prejudicado pela recuperação dos direitos políticos de Lula, e também foi vítima de seus próprios erros e de seu partido. Falaremos desses erros na seção final do post. 

4) Tímido fortalecimento de Dória e Eduardo Leite. Ambos os candidatos do PSDB melhoraram sua perfomance. Seus votos somados no cenário extenso os colocam à frente do Ciro. Nos cenários reduzidos, aparecem individualmente em empate técnico com Ciro. Nas tabelas estratificadas, que vamos comentar mais abaixo, “lideram” a terceira via em alguns extratos e regiões. 

A novidade nesses dois cenários reduzidos é a pontuação de 5% de Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul. Leite ganhou notoriedade nas últimas semanas após aparecer, em entrevista ao apresentador da Globo, Pedro Bial, admitindo sua homossexualidade. Ao pontuar à frente de Mandetta (embora ainda dentro da margem de erro), e empatar tecnicamente com Ciro, que era até então considerado uma espécie de “campeão” da terceira via, o tucano ganha pontos na disputa interna do PSDB pela vaga de candidato presidencial. 

Os dados estratificados do cenário B (com Eduardo Leite) mostram que o governador tem boa performance na região Sul: onde tem 14 pontos, contra 8 de Ciro. Bolsonaro tem 34% no Sul, Lula 36%.

No Norte, porém, Leite tem apenas 1 ponto, contra 13 de Ciro. Bolsonaro tem 45% no Norte, contra 37% de Lula.  

No Nordeste, Leite tem apenas 2 pontos, contra 5 de Ciro, 26 de Bolsonaro e 61 de Lula. 

No Sudeste, Leite tem 4 pontos, contra 6 de Ciro. Mandetta também pontua 6 na região. Mandetta e Leite, portanto, somam 12 pontos, o dobro de Ciro. Bolsonaro tem 42% no Sudeste, contra 33% de Lula. 

Vamos aos outros gráficos.

 

Os cenários de segundo turno confirmam o que outras pesquisas tem apontado: Bolsonaro perde de quase todo mundo. 

Ele perde de Lula por 11 pontos (49% X 38%); de Ciro por 5 pontos (43% X 38%); de Haddad por 3,5 pontos (42% X 38%); de Dória por 2,5 pontos (41% X 38%). E apenas ganha de Eduardo Leite, provavelmente porque o governador ainda é pouco conhecido. 

Num eventual segundo turno entre Lula e Ciro, o petista vence com 16 pontos de vantagem (37% X 21%), mas o número de indecisos e nulos neste cenário é tão grande (42%) que fica uma dúvida no ar. 

Continuemos.

A imagem de Bolsonaro tem se deteriorado, mas o que impressiona mesmo é que ainda há 37% de entrevistados que tem uma impressão positiva do presidente. 

Lula ainda tem uma rejeição relativamente alta (é bem menor que a de Bolsonaro), mas a linha positiva vem crescendo de maneira firme. Após chegar a um mínimo de 28% de positivo em maio de 2020, hoje já tem 43%.

A imagem de Ciro Gomes apresentou melhora nos últimos meses. A linha negativa caiu 7 pontos, de 57 para 50, e a positiva subiu 8 pontos, passando de 24 para 32.  Já é uma imagem bem melhor, por exemplo, do que a de Sergio Moro, que hoje tem 28% de positivo e 55% de negativo. 

 

 

A avaliação do governo Bolsonaro se deteriorou muito nos últimos meses. As notas ruim e péssimo subiram 6 pontos, e chegaram  a 59%, o recorde negativo de sua administração. A aprovação (notas ótimo e bom), por sua vez, caíram 5 pontos, e estão em 26%. Mas a aprovação do governo já esteve pior: em março/abril de 2020, chegou a 21%. 

Os dados estratificados mostram que a deterioração do prestígio do governo vem se dando tanto no alto como embaixo da pirâmide de renda, e daí vem contaminando os setores médios que ainda aprovam a administração.

Entre famílias com renda mensal até 2 mil reais, 69% desaprovam o governo, percentual que se repete, ironicamente, entre as famílias mais ricas, com renda mensal acima de 10 mil. Em ambas as categorias, apenas 28 ou 29% aprovam o governo. 

Nos setores intermediários, a aprovação do governo sobe para 42% a 43%; mesmo aí, porém, a rejeição, 56%, é bem maior que a aprovação.

Entre os eleitores com ensino superior, o governo é desaprovado por 64%, percentual parecido aos 64% de rejeição entre eleitores que tem apenas o ensino fundamental. 

Os eleitores gays ou LGBT rejeitam, em sua quase totalidade (94%), o governo Bolsonaro. 

69% dos católicos rejeitam o governo. Entre os evangélicos, porém, o governo mantém uma aprovação positiva de 52%, contra 45% de rejeição.

Todos (99%) os eleitores de Haddad no segundo turno de 2018 rejeitam o governo Bolsonaro, ao passo que, entre eleitores de Bolsonaro, o governo tem aprovação de 70%, contra 26% de desaprovação. A lei da inércia, ou primeira Lei de Newton, parece também valer para a política. É difícil fazer as pessoas se convencerem de que votaram errado. 

Conclusão & análise

A expectativa de que o bolsonarismo entrasse em colapso não vem se materializando. Um dos dados mais impressionantes da pesquisa Atlas é a estratificação do apoio ao governo conforme o voto no segundo turno de 2018. Bolsonaro mantém 70% de apoio de seus próprios eleitores. Sua estratégia é se comunicar unicamente com quem votou nele. 

No entanto, ele perdeu praticamente todos os outros votos. Entre eleitores de Haddad, 99% não apoiam seu governo. Os eleitores que não votaram, ou que votaram nulo/branco, igualmente desaprovam o governo em sua quase totalidade (87% e 95%, respectivamente). 

A polarização entre Lula e Bolsonaro se mantém duramente cristalizada, com ajuda do próprio presidente. Ele deixou isso claro em sua live de ontem, em que prometeu apresentar provas de fraude (e não o fez). A nova teoria de conspiração de Bolsonaro é que o TSE e o STF se mancomunaram para dar liberdade a Lula, restituir-lhe os direitos políticos, e, em seguida, fraudar as eleições presidenciais de 2022 para dar a vitória ao petista. 

Bolsonaro está apostando pesado nisso, e com a rede que ele possui, é provável que convença um bocado de gente. Esse é o tumulto que ele pretende criar para 2022, e por isso insiste tanto no “voto impresso”. A estratégia é relativamente simples. Ele quer deslegitimar o sistema eleitoral e, com isso, criar um ambiente favorável para contestar a derrota. Como fez Trump nos Estados Unidos. Caso o voto impresso fosse aprovado, por sua vez, Bolsonaro teria o campo de atuação dobrado, porque poderia contestar tanto o voto eletrônico como a recontagem dos votos impressos. Igualmente como fez Trump. Ele denunciaria fraude em ambos. E o processo de demora da recontagem lhe daria tempo para promover tumultos e sedições. 

Essa narrativa conspiratória traz para o debate político um fator emocional que ajuda a manter a polarização. O eleitor que rejeita Bolsonaro, mesmo que crítico aos governos petistas, se sente inclinado a votar em Lula como forma de colocar um ponto final, já no primeiro turno, à tentativa do presidente de tumultuar as eleições. O voto em Lula acaba se transformando também num voto de protesto contra os delírios de Bolsonaro. 

A terceira via, por sua vez, está mais desorientada do que nunca. O nome principal desse campo, Ciro Gomes, viu sua militância se exaurir nas redes sociais numa luta vazia em torno do “voto impresso”. O PDT defendeu o voto impresso com argumentos inacreditavelmente retrógrados, prejudicando a imagem de Ciro, muito forte em 2018, de que ele representaria um projeto moderno. 

Os ataques exagerados a Lula também constituíram um erro, pois Ciro não percebeu que as decisões do STF que anularam os processos do petista criaram uma onda de anistia moral e política aos erros do ex-presidente e de seu partido, e não apenas junto à esquerda. 

Outro erro de Ciro foi a expulsão da deputada Tábata Amaral, ainda mais da maneira traumática como se deu. O PDT não entendeu que havia um grande e promissor espaço vazio na política nacional, o do liberalismo progressista (liberalismo de esquerda), campo onde a Tábata é uma das maiores estrelas. O partido não precisa se tornar “liberal progressista”, mas poderia incorporar esse campo. Isso pavimentaria o caminho para Ciro fazer as parcerias necessárias com os partidos de centro e centro-direita que poderiam proporcionar enormes recursos políticos para sua candidatura. Para um partido que abriga uma quantidade expressiva de quadros extremamente reacionários, o liberalismo progressista de Tábata seria um contraponto saudável. Ao atacar e expulsar Tábata, o PDT perdeu a aura de legenda de “centro” ou de “esquerda moderada e moderna” que parecia ser a sua principal estratégia a partir de 2019. Após aquele movimento, Ciro perdeu o apoio dos liberais progressistas, que provavelmente agora devem migrar para uma terceira via de centro-direita, ou para Lula. 

A pesquisa Atlas mostra que o eleitorado de Ciro permanece extremamente concentrado entre famílias com renda mensal superior a 10 mil. Na tabela estratificada do cenário B, Ciro tem 16% entre famílias com renda acima de 10 mil, e apenas 5% entre aquelas com renda inferior a 2 mil. 

Esse eleitorado de classe média alta tem mais visibilidade em algumas redes sociais, mas não dá volume nas pesquisas. 

Lula, todavia, mesmo nesse eleitorado mais rico, com renda mensal acima de 10 mil, tem 26%; Bolsonaro lidera nesse extrato, com 32%. 

Entre famílias com renda até 2 mil, Lula tem 52%, contra 31% de Bolsonaro.

Houve um momento, breve, após a restituição dos direitos políticos de Lula, em que as forças da terceira via iniciaram articulações que poderiam unificá-las ao redor de uma candidatura. Ciro era um nome cogitado, até por aparecer, até então, relativamente isolado em terceiro lugar. Os nomes da terceira via assinaram uma carta coletiva em defesa da democracia. Houve uma live com a participação de Mandetta, Ciro e Kalil. Enfim, apareceram sinais de que havia disposição dos nomes da terceira via de se unirem com vistas ao “bem maior”. 

Mas esse movimento se desmanchou, por várias razões. Primeiro, Lula iniciou articulações agressivas – e bem sucedidas – para se aproximar de seus velhos amigos de centro. Em seguida, o PSB recebeu dois grandes quadros políticos, Dino e Freixo, num movimento coordenado com Lula, para trazer o partido para órbita de sua candidatura. Isso imediatamente isolou o PDT na esquerda, repetindo o que aconteceu em 2018, tornando-o menos competitivo e, portanto, com menos poder gravitacional para atrair o centro.

Por fim, restou claro às forças de centro-direita que Ciro Gomes tem um projeto desenvolvimentista que, em alguns aspectos, parece estar à esquerda do PT, e, portanto, haveria resistências políticas intransponíveis para uma associação com ele. Como diria um famoso gaúcho, ideias não são metais que fundem. 

Hoje está claro que os partidos de centro e centro-direita irão se organizar em torno de uma ou mais candidaturas próprias. Pode haver uma fragmentação, com PSDB, PSD, PSL e DEM lançando seus candidatos, até mesmo para testarem suas forças. A necessidade de se fazer bancada federal, cujo tamanho determina o volume dos fundos partidários, estimula esse movimento.  

A polarização parece consolidada. Há espaço de crescimento, porém, para dois campos que reúnam em torno de si o voto útil daqueles que não querem Lula ou Bolsonaro. Ciro ocupa um desses campos, mas ele apresenta imensa dificuldade para avançar além da esquerda. E a esquerda está meio que “tomada” por Lula. 

Não seria surpresa, portanto, se Ciro fosse ultrapassado por uma candidatura liberal, como a de Eduardo Leite, que reunisse inicialmente os votos classe média alta das capitais, e, em seguida, conquistasse os eleitores da região Sul e do estado de São Paulo.

A lógica eleitoral sugere que uma candidatura de centro-direita, com perfil liberal, teria mais chances (ainda que remota) de atrair o eleitorado conservador, e tirar Bolsonaro no segundo turno. 

Mas a política raramente segue a lógica. E tudo vai depender, naturalmente, da resiliência de Bolsonaro. 

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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18 comentários

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Alexandre Neres

02 de agosto de 2021 às 01h04

Meu caro Alan C, nós sabemos que o principal objetivo do ano que vem é defenestrar o miliciano. Temos que derrotar a barbárie por meio do voto. De preferência, com alguém do segmento progressista, pois não seria justo que a direita limpinha, corresponsável pela eleição de Bolsonaro, se apossasse do palácio. Jabuti não sobe em árvore, se está lá é porque quem pôs foi gente, isto é, a direita limpinha (Lava Jato, Temer, FHC, Dória, Maia e ACM Neto). Temos que arranjar um meio de resgatar Ciro Gomes, que tem muito a contribuir para o Brasil.

PS Acho que também não vai sair em resposta ao seu comentário como tentei fazer

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Kleiton

31 de julho de 2021 às 20h16

Será que o tal de Lula é recebido desse jeito…?

https://fb.watch/75zkoxkezG/

Ninguém vê ele, cadê o “filho do Brasil” ? Kkkkkkk

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Rosinei Brandão

31 de julho de 2021 às 19h06

A análise do Sr. Miguel do Rosário é simples e tecnicamente perfeita. Portanto contém dois elementos básicos, indispensáveis ao brilhantismo. Isto posto, penso que os 42 % de indecisos entre Lula e Ciro talvez não ajudem Ciro. Lula está tão à frente de Ciro que basta agregar uma pequena fatia p este se eleger. Lula é um agregador e Ciro temperamental. Acho mais fácil a “elite” querer lidar com Lula do que com Ciro.

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Bassam

31 de julho de 2021 às 14h28

Eita! Parece até financiamento de bozo isso aqui!! Ciro mesmo tem 14% e até 16% em outras pesquisas vencendo bozo no segundo turno. Faz mais sentido!!!

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canastra

31 de julho de 2021 às 12h42

Qual vai ser o discurso de Lula caso seja candidato…? Alguém sabe…?

O que os brasileiros nao viram e m15 de PT para querer de novo essa quadrilha de volta ?

Serà que os brasilerios sao tao idiotas como a esquerda acham ?

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Efrem Ventura

31 de julho de 2021 às 10h19

Cadé o realtorio da CGU que desontou todas as invençoes do Circo Calheiros…esqueçeram de postar viu pseudo defensores da pluralidade de informaçào…!!

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Alan C

31 de julho de 2021 às 10h19

Neres, meu comentário era pra ficar abaixo do seu, acabou caindo no lugar errado… Abraço companheiro!

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Alan C

31 de julho de 2021 às 10h17

O desempenho do Ciro é fruto dos seus próprios (e enormes) erros.

De minha parte continuo fiel ao que venho dizendo desde o início: votar em quem estiver contra o asno miliciano, isso se ele estiver lá.

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Dartahnan

30 de julho de 2021 às 21h58

Nem Lula moído de pinga acredita nessas pesquisas.

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Galinze

30 de julho de 2021 às 21h44

Lula não queria ser candidato nem em 2018 vai ser agora..!?!? Kkkkkkk

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Netho

30 de julho de 2021 às 19h43

O analista deve ter se equivocado com a leitura dos números que, ao contrário de quem olha e vê, não consegue identificar a obviedade ululante: a terceira via está aberta e com perspectivas crescentes, sobretudo para a candidatura de centro-esquerda até agora mais identificada com o PDT que se posiciona para recepcionar quem não deseja repetir a história como farsa, após os espetáculos dantescos de duas tragédias representadas pelas República da Odebrecht e da Milícia.

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Alexandre Neres

30 de julho de 2021 às 17h09

O Miguel continua nas pontas dos cascos e fazendo análises cirúrgicas.

Deixa entrever a simpatia que tem por Ciro, mas não é mais condescendente com seus inúmeros erros.

Daqui a pouco irão aparecer os ciristas, movidos pela paixão, tentando desconstruir essa brilhante análise, dizendo que no ano que vem a realidade será outra e que tais, que há espaço para o nem-nem. Não se dão conta de que a análise do Miguel é eminentemente técnica, sem em nenhum momento abrir mão de um faro político apurado. O cenário das eleições 2022 está se cristalizando.

PS Tô com saudades das análises bem fundamentadas, das quais eu discordava, do Miramar e do Netho, por exemplo. Os caras sumiram, parecem estar meio deprimidos, quiçá por que previram em 2020 depois das eleições municipais a morte política do PT e de Lula

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    Marco Vitis

    30 de julho de 2021 às 23h29

    É bobagem prever a morte do PT. Eu torço para que o PT volte às sua origens e renasça. Porém, o fato é que a representatividade do PT é declinante a partir de 2010. Vejamos os números:
    2006 – 83 deputados federais
    2010 – 88 deputados federais
    2014 – 69 deputados federais
    2018 – 54 deputados federais.

    2006 – 10 senadores
    2010 – 14 senadores
    2014 – 12 senadores
    2018 – 6 senadores.

    Responder

      Alexandre Neres

      02 de agosto de 2021 às 01h39

      Meu caro Marco Vitis, acho que, com a ataque diuturno e incessante que o PT sofreu da grande mídia, é um portento que esteja ainda de pé. É o mesmo ataque que sofreram Vargas e Jango, trabalhistas. Como o PT, eles cometeram vários erros, mas é impressionante como nossa elite é relutante e não aceita nem governos moderados. Sob a alegação de corrupção, malfere a democracia.

      Acho difícil que o PT retorne às suas origens. Seria bom se ocorresse, mas não vejo como. A partir de 2006, passei a votar no PSOL, na esperança de que dali surgisse um novo PT, mas foi em vão.

      No presidencialismo de coalização, tem-se que abrir mão de muita coisa para governar. Para bem administrar, não basta a ética da convicção, faz-se mister também a ética da responsabilidade. Na Realpolitik, o jogo é bruto. Pegue o programa do Ciro que é muito bom. Ciro teria que negociar com os players que estão aí hoje, que estão dispostos até a ceder, mas tem seus interesses paroquiais, fazem barganha. Os farialimers aceitam algumas mudanças, mas desde que o neoliberalismo continue dando as cartas. Se Ciro Gomes quiser governar o país, terá que abrir mão do seu projeto e compor com essas pessoas. O projeto seria desossado, perderia parte da essência, embora alguma coisa boa pudesse ser preservada. Assim as coisas funcionam.

      Precisamos ter o cuidado de não tacharmos todos que assumiram o governo de vendidos, de corruptos, ao passo que bons seriam apenas os que nunca estiveram por lá. Esta visão é simplista, moralista. Será que se o Ciro fosse governar não teria que dialogar com o Centrão, com a centro-direita e com a centro-esquerda? Não teria que negociar com essas mesmas forças que aí estão? Não são bobos, não são amadores, têm seus interesses e é incontornável ter que lidar com eles. É bastante difícil governar um país em que a correlação de forças no Congresso é extremamente desfavorável.

      Fui crítico ao PT, não gostei do reformismo fraco, queria que houvesse uma alteração na estrutura dos impostos no sentido de que quem ganhe mais pague mais e não como é e sempre foi, que as mudanças viessem por meio da educação e da cidadania, e não do consumo, que o PT tivesse mobilizado a sociedade e não se alinhado com as elites, mas as coisas nem sempre acontecem como gostaríamos. Não suportaram nem a Comissão da Verdade, por mais que o PT tenha cedido, não foi o bastante. Assim como aconteceu com os antigos trabalhistas. Espero que essa história não mais se repita.

      Responder

Jean Pierre

30 de julho de 2021 às 16h54

Ótima dissertação. Esmiuçou o puro suco do ambiente político que estamos presenciando. Parabéns. Sucesso sempre pra ti.

Responder

Tiago Silva

30 de julho de 2021 às 16h54

Todos da “Terceira Via” (Leia-se via do Capital Cosmopolita) estão à procura de um “Novo Collor”…

Conseguiram emplacar Collor em 1989, depois conseguiram com FHC um “Novo Collor” em 1994 e 1998, depois quase conseguiram com Aécio Neves um “Novo Collor” em 2014, mas em 2018 conseguiram o “Novo Collor” com o Bozismo!!!

Hoje tentam de tudo para encontrar esse “Novo Collor”, para a emissora do Plim Plim esse era pra ser Aécio Neves, mas depois quis Dória, depois tentou com Sérgio Moro e agora tenta a “Via do Capital” através de Mandeta, Eduardo Leite, Simone Tebet, Datena, ressuscitar o ex-Juiz corrupto do Sérgio Moro ou até fenômenos apoiados pelo mercado financeiro como Luíza Trajano (que teria muito a perder financeiramente nessa aventura política que foi fugaz para aquilo que representa o dono da Havan), Tábata Amaral ou até figuras mais toscas como Danilo Gentille para emular um Beppe Grillo, mas que vai ser difícil esconder suas posições neoliberalóides e neofascistas (como o resto do MBL, Vem Pra Rua e outros movimentos Golpistas)…

Coitado de Ciro Gomes, que mesmo pagando caro no ex-marketeiro do PT ainda tropeça nas próprias pernas e de forma atabalhoada e desequilibrada atira para todos os lados… E noutra face busca cortejar o DEM de ACM Neto, Solidariedade de Paulinho da Força, PSDB de Tasso Jeirissate, Cidadania, etc… que inclusive fizeram um bloquinho esvaziado (levou menos gente e tinha menor adesão que o nanico PCO) na última mobilização de 24/07/2021 em que o carro de som do PSDB, PDT, Solidariedade, cidadania e movimentos do capital que burlam para emplacar o inconstitucional financiamento empresarial como o Agora e Acredito… tiveram dificuldade de o povo desconsiderar o que eles já fizeram no passado golpista recente.

Se em 1989 foi a tragédia, esperam repetir a farsa de 2018 em 2022…

P.S. Miguel, as pessoas e movimentos que você considera “Liberal Progressista” (acredito que uma junção de neoliberalismo na economia e progressismo nos costumes) começaram assim em 2014 – como era a narrativa de MBL, Vem Pra Rua, Partido da Lava Jato, Jovem Klan, Partido do Jorge Paulo Lemann, Partido da GloboNews, etc… E depois não tiveram pudor em se mostrarem e buscarem efetivar um Neofascismo (Neoliberalismo + Neofascismo) no Brasil.

Responder

Marco Vitis

30 de julho de 2021 às 16h09

Hoje, a 14 meses das eleições, constatamos algumas coisas:
(1) uma frenética atividade de pesquisa. Será que é para sondar o impeachment, pressionar Bolsonaro ou valorizar Lula ?
(2) a ordem de classificação é igual, mas os quantitativos são muito diferentes de uma pesquisa para outra. Metodologia diferente explica ? Mas e como fica o “Nível de Confiança” ? Sou leigo, mas acho que tem alguma coisa errada.
(3) Bolsonaro está derretendo. Com maior ou menor velocidade, mas sempre caindo.
(4) Existe um percentual significativo de eleitores que votam “nem, nem”. Portanto, uma candidatura alternativa não está descartada. E ainda faltam 14 meses… Tem muita verdade para os eleitores tomarem consciência.
(5) Lula vence Ciro num possível segundo turno: 37 a 21. Mas o que mais se destaca são os 42% que formam o grupo Não Sei/ Nulo/ Branco. Portanto, essa pesquisa indica que a disputa entre Lula e Ciro num eventual segundo turno está ABERTA.
(6) Todos esses dados demonstram de modo irrefutável que, a 14 meses da eleição, falar em uma inevitável polarização é de uma DESONESTIDADE criminosa. A mentira é um vício. Não é absoluto como Kant pretendia, mas no caso da “Polarização Inevitável” é um vício repugnante.

Responder

Antonio Morais

30 de julho de 2021 às 15h53

Muito boa esta análise.

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