Analista da Ideia fala sobre “voto útil” dos eleitores de Ciro a Lula no 1° turno

Ricardo Stuckert

Segundo a Quaest, Lula já tem 64% dos votos válidos dos eleitores de baixa renda

Por Miguel do Rosário

11 de maio de 2022 : 13h39

Análise da pesquisa Quaest

Temos mais uma pesquisa a enterrar a narrativa – que nunca foi verdadeira, importante enfatizar – de que o ex-presidente Lula vinha perdendo votos. 

Lula não caiu em nenhuma pesquisa séria nos últimos meses. Houve sim pequenas oscilações, sempre abaixo da margem de erro, mas o petista tem mais de 40% em todas as sondagens, remotas ou presenciais.

Na Quaest, por exemplo, Lula nunca chegou a cair na espontânea. Hoje tem 28%, mesmo número de abril e 1 ponto acima do que tinha em março.

Bolsonaro tem hoje 22% na espontânea, mesmo número de abril.

Ciro Gomes  tem 2%.  

 

Nas presenciais, Lula tem pontos suficientes para uma vitória no primeiro turno. No caso da Quaest divulgada hoje, Lula tem 46% do votos totais, e 51% dos votos válidos. 

Bolsonaro herdou pontos de Sergio Moro, mas eram eleitores que ele já tinha, antes de Moro aparecer, e que haviam migrado temporariamente para o ex-juiz. Não houve um crescimento efetivo de Bolsonaro, e de qualquer forma, esse processo de “recuperação”  já se esgotou. 

Na pesquisa Quaest divulgada hoje, Bolsonaro caiu

No cenário 2 da pesquisa de abril, que era o cenário expandido, mas sem Moro, Bolsonaro tinha 31%.

O comparativo deve ser feito com o quadro expandido (cenário 1) da pesquisa divulgada hoje, de maio: onde o presidente caiu para 29%.

Já o ex-presidente Lula oscilou 1 ponto para cima, de 45% para 46%

Com isso, a vantagem de Lula sobre Bolsonaro, na estimulada do primeiro turno, ampliou-se de 14 pontos em abril para 17 pontos em maio

 

O dado mais impressionante da pesquisa Quaest divulgada hoje é a força do ex-presidente Lula junto aos eleitores de baixa renda.

Entre aqueles que recebem menos de 2 salários de renda familiar, o petista pontuou 64% em votos válidos. Em pesquisas anteriores, o petista tinha de 60% a 62% nesse segmento. 

Em votos totais, Lula tem 56% entre eleitores mais pobres. Bolsonaro, por sua vez, oscilou dois pontos para baixo, e agora tem 22% dos votos da baixa renda, 34 pontos atrás de Lula. 

Entre os eleitores com renda entre 2 e 5 salários, Lula também cresceu, embora 1 pontinho, de 43 para 44, ao passo que Bolsonaro oscilou 1 para baixo. Com isso a vantagem de Lula nesse segmento abriu-se para 12 pontos. 

Entre eleitores com renda acima de 5 salários, houve crescimento vigoroso de Bolsonaro, que hoje lidera o segmento com 43% dos votos. Mas Lula não caiu. Ao contrário, subiu 1 ponto e hoje tem 36% neste segmento.  

 

Esse número confirma uma tendência que venho observando em várias pesquisas: Lula está crescendo de baixo para cima. O petista está consolidando uma imagem extremamente forte entre os brasileiros mais humildes. O fenômeno lembra muito a volta de Getúlio Vargas em 1950, quando conseguiu uma vitória consagradadora nas eleições daquele ano, sobretudo em virtude da conexão impressionante que ele havia estabelecido com as grandes massas. 

 

O CEO da Quaest fez uma interpretação sobre um aspecto da pesquisa, que eu gostaria de problematizar um pouco.

Felipe Nunes observou que Lula “perdeu 4 pontos entre os evangélicos e viu Bolsonaro cresceu 9 pontos”. Logo em seguida, Nunes apresenta dados da pesquisa que mencionam um posicionamento recente de Lula sobre o aborto.

A inferência que se poderia fazer é que Lula caiu entre evangélicos por causa de suas declarações sobre o tema (Lula disse concordar com o direito ao aborto). Nunes alerta que 53% dos eleitores ainda não sabem dessa fala de Lula, e que, portanto, o petista pode perder mais votos quando a informação se disseminar, o que deve acontecer por iniciativa da campanha de Bolsonaro.

Não considero, contudo, que a pesquisa tenha trazido nada conclusivo sobre isso. 

Lula cresceu 2 pontos entre católicos, para 53%, ao passo que Bolsonaro caiu de 28% para 27%. Não consta que católicos sejam menos hostis ao aborto do que evangélicos. 

É sempre importante destacar que 51% dos brasileiros são católicos, contra 30% dos evangélicos. Além do mais, não é correto considerar o eleitor evangélico puramente sob seu aspecto religioso. A formação de voto do eleitor evangélico obedece a diretrizes psicológicas parecidas com as de brasileiros católicos ou sem religião. Os mesmos motivos que fazem Lula avançar entre mulheres e católicos, a crise econômica principalmente, também agem sobre os evangélicos. 

A queda de Lula entre evangélicos pode ser atribuída a outros fatores, como a intensificação da campanha eleitoral de organizações religiosas vinculadas politicamente ao governo Bolsonaro. 

Note ainda que Lula mantém 30% do voto evangélico. Não é pouca coisa. Se o petista segurar esse patamar entre evangélicos, e manter o percentual que tem hoje entre católicos, vence no primeiro turno. 

Escolaridade

Por fim, vale examinar a estratificação por escolaridade. Entre eleitores que tem até o ensino fundamental, que são 39% do eleitorado, Lula tem hoje 58% dos votos totais, 35 pontos à frente dos 23 pontos de Bolsonaro. Todos os outros candidatos somam apenas 9% neste segmento. 

Lula também lidera entre eleitores com ensino médio, com 40%, 4 pontos à frente de Bolsonaro. Este segmento representa 40% do eleitorado

Entre aqueles com ensino superior, incompleto ou mais, que formam 22% do eleitorado, Lula e Bolsonaro seguem empatados com 36%. 

Cenário sem Ciro Gomes e o voto estratégico

A Quaest apresentou ainda um cenário sem a presença de Ciro Gomes. Neste caso, o ex-presidente Lula seria o principal beneficiado, e chegaria perto dos 60% dos votos válidos. 

Sobre Ciro, a sua situação se torna cada vez mais complicada. Já está claro que suas chances de ultrapassar Bolsonaro e chegar ao segundo turno são praticamente nulas.

A declaração de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, de que Ciro poderia receber apoio de seu partido no caso de chegar a 10% na espontânea e 15% na estimulada, soou antes como uma maneira delicada de dizer não, que não é possível apoiar Ciro.

Além do mais, qualquer um que conheça, minimamente, a diversidade nacional do PSD sabe que o principal desafio de Kassab é evitar que seus quadros se vinculem a Bolsonaro no Sul e Sudeste, e a Lula, no Nordeste.

O sonhado apoio do União Brasil a Ciro é ainda mais impossível, pelas mesmas razões. 

Até recentemente, Ciro tinha em si mesmo o seu mais perigoso adversário. Seu temperamento irascivo, muitas vezes inconsequente, tem afastado muitos aliados e eleitores. 

Mas hoje Ciro encontrou um adversário ainda mais perigoso que seu reflexo: o voto estratégico, também chamado de voto útil. 

Vejamos mais dois gráficos da Quaest, relativos a cenários do segundo turno.

Lula mantém 20 pontos de vantagem sobre Bolsonaro no segundo turno, e quase 30 pontos sobre Ciro.

Com a percepção cada vez mais consolidada de que as chances de Ciro são próximas de zero, e que mesmo que chegasse ao segundo turno, Lula o venceria com facilidade, a candidatura pedetista enfrenta uma crise existencial profunda. 

E isso porque, à diferença de candidaturas da extrema-esquerda, como as do PSTU, do PCB ou UP, a de Ciro Gomes sempre tentou se apresentar não como um movimento puramente de opinião, e sim como um projeto realista de poder.  

Os números da Quaest, muito parecidos com o de outras pesquisas, tem convencido um percentual cada vez maior de eleitores de oposição de que seria muito conveniente, por inúmeras razões, fazer um voto estratégico no primeiro turno. O beneficiado, naturalmente, seria Lula. 

O próprio Ciro está sentindo a pressão, e reage à sua maneira, com enorme agressividade. 

Só que essas falas de Ciro talvez tenham efeito contrário ao desejado por ele. Ela podem pôr em evidência o seu desespero e acelerar, em seu eleitor, a tomada de decisão de fazer o voto estratégico em Lula. 

Há meses que Ciro, por exemplo, vem cultivando uma atmosfera conspiracionista a seu redor. Ele tem insinuado repetidamente que existiriam interesses obscuros por trás da divulgação de pesquisas eleitorais, e “denuncia” que elas custariam mais de R$ 1 milhão cada.

Mais recentemente, chegou a falar em R$ 1,5 milhão.

Isso não é verdade, e esse tipo de desinformação apenas intoxica o debate político.  A Quaest é a pesquisa presencial regular mais cara de todas. Essa última custou R$ 269 mil. Isso é muito distante de “um milhão e meio” de reais. A maioria das pesquisas, todavia, custa bem menos que isso. A pesquisa Exame/Ideia, divulgada em abril, custou menos de R$ 28 mil. 

Recentemente, o Brasil assistiu a vídeos de Ciro Gomes numa feira agrícola fazendo xingamentos de baixíssimo calão contra eleitores. Além dos palavrões envolvendo a reputação da mãe alheia, Ciro também repetia que Bolsonaro era um “ladrão nazista”. 

Ora, se Ciro entende que Bolsonaro representa o nazismo, isso reforça o entendimento de que a disputa eleitoral deste ano se dará sob a polarização entre democracia e barbárie. 

Além disso, as movimentações de Bolsonaro desde o ano passado, procurando deslegitimar o próprio sistema eleitoral brasileiro, com seus ataques intermináveis à urna eletrônica, ao TSE e ao STF, além de suas tentativas de criar intrigas entre as Forças Armadas e o judiciário, deixam claro que o presidente está construindo um ambiente propício ao tumulto. 

Nessa situação, seria infinitamente mais seguro e prudente, para o futuro da nossa democracia, se as eleições fossem resolvidas no primeiro turno. 

Num eventual segundo turno, Bolsonaro e Lula terão o mesmo tempo de TV e rádio. O presidente terá, portanto, muito mais recursos para mobilizar uma campanha baseada em ódio e fake news. 

Segundo a Quaest, os eleitores de Bolsonaro e Lula estão quase todos decididos. Já aqueles que não preferem nem Bolsonaro nem Lula (entre os quais estão os eleitores de Ciro), uma imensa maioria de 69% respondeu que “pode mudar caso algo aconteça”.

E o que pode acontecer? Que motivos poderiam levar esse eleitor nem-nem a mudar de voto? 

Simples: o que pode acontecer é a possibilidade cada vez mais real de uma vitória de Lula no primeiro turno. 

Antes de encerrar, ofereço uma lista de razões pelas quais a pesquisa Quaest tornou-se a minha preferida:

  • É presencial. Presencial é sempre melhor. O pesquisador se encontra, cara a cara, com o entrevistado, e com isso evita respostas evasivas, irônicas ou insinceras. O grau de confiabilidade da informação relativa a renda do entrevistado, dado fundamental para se chegar a uma ponderação correta, é infinitamente superior. 
  • Tem um financiamento robusto. Dinheiro não é tudo. Supõe-se que um instituto de pesquisa sério, austero, pode fazer um excelente trabalho a um custo relativamente baixo. Mas pesquisa não é filme de arte de baixo orçamento. Se há um financiamento sólido, é claro que isso ajuda a coibir erros metodológicos que poderiam advir de um enxugamento excessivo dos custos. A pesquisa nacional divulgada hoje custou R$ 268.742,48, pagos pelo banco Genial Investimento. Não é R$ 1,5 milhão, conforme tem “denunciado” Ciro Gomes em suas entrevistas. Mas é o suficiente para fazer uma pesquisa de excelente qualidade.  
  • O relatório é divulgado simultâneamente. Isso não é trivial. Muitas pesquisas aparecem apenas com os números finais. Não é divulgado nenhum relatório. O Datafolha divulga um relatório, mas dias depois. Sem um relatório, é sempre mais difícil fazer uma avaliação da qualidade da pesquisa. 
  • É feita periodicamente, todo mês, religiosamente. A regularidade também não é um dado menor. Ao contrário, há um efeito cumulativo em pesquisas periodicas. Se temos 2 mil entrevistas presenciais todo mês, isso significa que temos 6 mil entrevistas presenciais a cada 3 meses. Os pesquisadores conseguem ajustar, na pesquisa de hoje, eventuais desequilíbrios identificados na pesquisa do mês anterior. 
  • O responsável pela pesquisa, o cientista político Felipe Nunes, vem pessoalmente às suas redes sociais, logo após a divulgação dos números, apresentar sua análise. Também participa de uma live no canal do Genial. A live de hoje está marcada para 16:45

Clique aqui para baixar a íntegra da pesquisa.

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Kleiton

11 de maio de 2022 às 21h35

….segundo a minha mãe eu sou mais bonito que Leonardo di Caprio.

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