Após ataques, sanções e repressão interna, diálogo indireto surge como tentativa de evitar uma escalada no Oriente Médio
Na quietude de um palácio próximo ao aeroporto de Mascate, algo raro aconteceu na sexta-feira (6). Enquanto o mundo assistia à escalada de retóricas belicistas, representantes de duas nações inimigas há décadas cruzaram o mesmo portão — não para se encontrar face a face, mas para ouvir um mediador comum. Omã, pequeno sultanato com vocação para a paz, abriu suas portas para um exercício frágil e necessário: tentar transformar ameaças em entendimento. Para o chanceler iraniano Abbas Araghchi, o resultado foi um “bom começo”. Talvez modesta demais para manchetes explosivas, essa expressão carrega um significado profundo num momento em que bombas parecem falar mais alto que palavras.
A aposta diplomática chega após meses sombrios. Em junho, uma guerra de doze dias entre Israel e Irã deixou marcas profundas. Aviões americanos bombardearam instalações nucleares iranianas. Teerã respondeu com repressão interna violenta contra manifestantes que clamavam por dignidade. O isolamento da República Islâmica se aprofundou. Contudo, mesmo sob pressão extrema, o regime iraniano demonstrou disposição para conversar. Essa decisão revela algo crucial: até governos autoritários reconhecem que a guerra total traz consequências imprevisíveis para todos os lados envolvidos.
Omã construiu ao longo das décadas uma reputação única no Oriente Médio. Enquanto vizinhos apostavam em alianças militares rígidas, Mascate cultivou neutralidade ativa. O ministro Badr al-Busaidi recebeu separadamente Abbas Araghchi e o enviado americano Steve Witkoff, além de Jared Kushner e até o almirante Brad Cooper — presença militar incomum que sinaliza como defesa e diplomacia se entrelaçam hoje. Esse formato indireto, onde as partes não se encaram diretamente, permite salvar face política enquanto se avança tecnicamente. É uma arte delicada, mas eficaz.
A escolha do local não foi casual. O palácio próximo ao aeroporto já acolhera diálogos semelhantes em 2025. Sua discrição operacional facilita movimentos rápidos e sigilosos. Jornalistas observaram comboios iranianos chegarem primeiro, seguidos horas depois por veículos americanos com bandeiras visíveis. Esse ritual coreografado demonstra o cuidado extremo necessário quando dois adversários históricos retomam contato. Cada gesto carrega simbolismo. Cada pausa revela desconfiança acumulada.
É impossível analisar essas negociações sem reconhecer o contexto interno iraniano. Os protestos massivos do mês passado representaram, segundo autoridades americanas, o maior desafio ao aiatolá Khamenei desde 1979. A resposta do regime foi brutal: milhares de mortos e dezenas de milhares de prisões. Essa repressão interna, contudo, não deve ofuscar um fato geopolítico: governos autoritários também calculam custos. Um confronto direto com os Estados Unidos poderia aprofundar ainda mais a crise interna iraniana. Portanto, a disposição para dialogar reflete pragmatismo, não apenas generosidade.
Do lado americano, a presença do almirante Cooper nas conversas revela uma contradição interessante. Washington mantém o porta-aviões USS Abraham Lincoln na região e intercepta drones iranianos regularmente. Ao mesmo tempo, envia diplomatas para conversar. Essa dualidade — punho de ferro e mão estendida — caracteriza a política externa contemporânea. Contudo, especialistas das monarquias do Golfo temem que mais ataques militares desencadeiem uma guerra regional devastadora. O Estreito de Ormuz, por onde passa um terço do petróleo mundial, torna-se assim um tabuleiro onde a imprudência pode custar caro a toda a humanidade.
Aqui reside um dilema progressista fundamental. Como defender a diplomacia sem ignorar a repressão iraniana? A resposta não está em escolher entre paz e direitos humanos. Ambos são inseparáveis. Sanções unilaterais e ameaças militares raramente fortalecem movimentos democráticos internos; frequentemente, servem para justificar mais repressão. Ao mesmo tempo, silenciar sobre violações de direitos humanos por conveniência geopolítica é uma traição aos valores que defendemos.
A posição do chanceler Araghchi merece atenção quando ele escreveu no X que “o Irã entra na diplomacia de olhos abertos e com uma memória sólida do ano passado”. Essa frase ecoa frustrações reais com acordos anteriores não cumpridos. Para construir confiança, é essencial honrar compromissos já assumidos. A igualdade de condições e o respeito mútuo, como ele destacou, não são retórica vazia — são pré-requisitos para qualquer entendimento duradouro.
O programa nuclear e os limites das concessões
As propostas em circulação incluem suspender o enriquecimento de urânio por três anos e enviar material altamente enriquecido para fora do país, com a Rússia como possível destino. Contudo, assessores próximos ao líder supremo já afirmaram que encerrar o programa nuclear ou exportar urânio está fora de cogitação. Essa posição reflete não apenas orgulho nacional, mas também a percepção iraniana de que capacidade nuclear civil é direito soberano — especialmente quando países como Israel mantêm arsenais não declarados.
O secretário de Estado americano Marco Rubio insiste em negociar também mísseis balísticos e outras questões. Essa abordagem ampla pode ser estratégica, mas também arrisca inviabilizar o diálogo. Avançar exige reconhecer que pequenos passos concretos valem mais que grandes acordos impossíveis. Reduzir gradualmente o enriquecimento, permitir inspeções mais rigorosas e estabelecer canais de comunicação direta já representariam ganhos significativos para a segurança regional.
No final das contas, as conversas em Omã representam algo profundamente humano: a recusa em aceitar a guerra como destino inevitável. Enquanto políticos inflam retóricas nas redes sociais, diplomatas anônimos trabalham nos bastidores para evitar catástrofes. Esse esforço merece nosso apoio crítico e vigilante. Apoiar a diplomacia não significa ingenuidade. Significa entender que civis iranianos, americanos e de toda a região pagam o preço mais alto quando as armas substituem as palavras.
A paz não nasce de gestos grandiosos, mas de encontros discretos em palácios próximos a aeroportos. De rodadas de conversas separadas coordenadas por um mediador paciente. De líderes que, mesmo sob pressão interna, escolhem o diálogo em vez da escalada. Neste momento tenso, celebrar um “bom começo” não é ingenuidade. É reconhecer que, mesmo nas trevas geopolíticas mais densas, ainda existe espaço para a razão. E enquanto houver esse espaço, devemos defendê-lo com todas as nossas forças.


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