O desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí levou à avenida um enredo sobre Luiz Inácio Lula da Silva e provocou debates sobre arte, memória e liberdade de expressão
No período anterior ao Carnaval, integrantes do movimento sindical e social iniciaram um processo que parecia longo e cansativo, mas também muito lúdico, divertido e prazeroso – ir a Niterói para os ensaios da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói. Tantos outros se empenharam no barracão, para fazer o melhor: a escola brilhar intensamente na avenida. O trabalho árduo nesse caso fica atrás das câmeras, mas também no dia da escola se apresentar, na Marquês de Sapucaí. O Carnaval é para as câmeras, é para o mundo, é para brilhar e fazer a diferença, principalmente no caso de uma escola que subiu para o Grupo Especial e por seu samba-enredo contar uma história tão potente, de brasilidade, luta e muita conquista. Era preciso mais que um bom samba e foi!
O Carnaval é, sem dúvida, a maior festa popular brasileira e neste ano de 2026 foi além, mas também tivemos muita controvérsia. A Rede Globo de Televisão, emissora detentora dos direitos de transmissão, não transmitiu. Tratou de invisibilizar, de esconder literalmente a Acadêmicos de Niterói, por conta da mesma trazer para avenida um samba sobre Lula, a história do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Boicote total e uma chuva de ações da direita e extrema direita, argumentando, descaradamente, tratar-se de propaganda política antecipada.
Arte não é propaganda política, é manifestação de beleza, empoderamento… História não é propaganda política, como deixa claro o samba “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Uma homenagem à história do presidente Lula, transformada em história de resistência, não é propaganda política, é beleza poética e transformação lúdica.
O fato é que a falta de profissionalismo da TV Globo sucumbiu à lógica, ao bom senso, atentou contra a liberdade de expressão e principalmente contra a história, por sinal, muito bem cantada, contada e sambada. Mas a arte foi criminalizada e invisibilizada pela TV Globo que deveria ter transmitido o desfile com respeito e isenção.
Foi uma transmissão vergonhosa, um vexame. Foi pífia a transmissão feita por um canal de televisão que detém os direitos de transmissão do Carnaval, uma empresa que tem uma concessão pública, mas que em nenhum momento transmitiu adequadamente o desfile da primeira escola a desfilar na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, no dia 15 de fevereiro. Um fiasco televisivo. É necessário não deixarmos cair no esquecimento. Precisamos registrar, sim, que houve uma tentativa explícita de invisibilização. Mais que isso, tentativa de apagamento da história do Presidente Lula.
A história da vida do Presidente Lula, é uma história de luta e brasilidade. É a democracia cantada e encenada na maior festa popular do nosso país – no Carnaval, na Marquês de Sapucaí. Enquanto o mundo celebra, reverencia e aplaude Lula; no Brasil sua história transformada em arte é invisibilizada, escondida. Tendo como fachada uma falsa cobertura, buscou-se apagar a cultura e a arte presentes na trajetória vitoriosa de um homem que traz consigo a história de um país e seu povo.
Nunca antes na história tivemos tanta polêmica por conta de um samba-enredo. E, vale destacar, que tivemos homenagens no passado, relacionadas ao samba-enredo homenageando políticos e nem por isso houve esse ataque e perseguição. Vamos resgatar: Getúlio Vargas foi homenageado em 1956 pela Mangueira; Juscelino Kubitschek foi homenageado em 1981, pela Mangueira; Getúlio Vargas foi homenageado novamente em 1985, pela Salgueiro; Antony Garotinho foi homenageado pela Independentes de Cordovil em 1994; Getúlio Vargas foi homenageado pela terceira vez, pela Portela, em 2000; Chiquinho da Mangueira foi homenageado pela Unidos da Vila Rica, em 2001; Lula foi homenageado em 2003, pela Beija-Flor de Nilópolis; em 2006 a Leandro de Itaquera homenageou Alckimin, Serra e Covas; a Mocidade Unida de Jacarepaguá, em 2010 homenageou novamente Chiquinho da Mangueira; em 2012, a Vai-Vai homenageou Dilma Rousseff; também em 2012 a Gaviões da Fiel homenageou Lula; em 2023 a Cidade Jardim homenageou Lula. Ou seja, com a homenagem da Acadêmicos de Niterói, em 2026, Lula foi homenageado pela quarta vez.
Em nenhuma das homenagens acima houve tanta polêmica, tanta balbúrdia e descaso midiático como neste Carnaval de 2026. Mas todo esse processo deve ser refletido por nós, dirigentes sindicais e militantes da esquerda, porque ele demonstra claramente todos os desafios que teremos pela frente neste ano de eleições e de forte emoções.
Não podemos e nem devemos ignorar tudo que aconteceu, todos os fatos, sejam eles cometidos por disputas internas, pelos responsáveis das principais escolas do Grupo Especial, seja pela Liesa – Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, dentro de um processo de possível perseguição à escola, o que decisivamente contribuiu para seu rebaixamento. A escola de samba Acadêmicos de Niterói teve o samba-enredo, no Carnaval de 2026, criminalizado de forma explícita.
Um perigo para a arte e a democracia.
Virginia Berriel é Presidenta do Sindicato dos Jornalistas de Profissionais do Município do Rio de Janeiro

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