O crescente clima de tensão no Oriente Médio, marcado por confrontos e disputas envolvendo o Irã, os Estados Unidos e Israel, tem colocado o estreito de Ormuz no centro de uma possível redefinição geopolítica. A região, crucial para o transporte global de petróleo, enfrenta instabilidade diante de ações militares e políticas que desafiam o equilíbrio local.
De acordo com o portal Al Jazeera, os estados litorâneos do estreito, incluindo membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), têm uma oportunidade única de construir um novo modelo de segurança regional. Tal modelo poderia não apenas aliviar as pressões atuais, mas também fortalecer sua relevância estratégica no cenário global.
As relações entre o Irã e os países do CCG, que vinham mostrando sinais de melhora nos últimos anos, sofreram abalos recentes devido a incidentes como ataques a infraestruturas militares e econômicas no Golfo e a expulsão de diplomatas iranianos de algumas capitais da região.
A República Islâmica, por sua vez, tem demonstrado capacidade de interferir no tráfego marítimo com tecnologias acessíveis, como drones de baixo custo estimados em 20 mil dólares, o que lhe confere um poder de barganha considerável. Autoridades iranianas já sinalizaram que pretendem usar essa vantagem para moldar uma nova dinâmica de controle no estreito de Ormuz, passagem marítima vital para o comércio internacional de energia.
Do outro lado, os estados do CCG enfrentam um dilema delicado. Confrontar diretamente as políticas dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, pode gerar consequências imprevisíveis. Por outro lado, manter uma postura passiva diante das agressões contra o Irã corre o risco de torná-los percebidos como cúmplices de uma agenda externa, o que poderia legitimar retaliações sob a perspectiva militar iraniana.
Esse cenário expõe as limitações do modelo de proteção de segurança oferecido pelos EUA, especialmente quando os interesses de Israel parecem frequentemente sobrepor-se aos de outros aliados regionais na visão de Washington.
Um ponto crítico destacado por analistas é a ausência de um marco legal internacional que regule especificamente o estreito de Ormuz. Diferentemente de outros pontos estratégicos, como os estreitos turcos protegidos pela Convenção de Montreux, Ormuz opera em um vazio jurídico, o que o torna suscetível a intervenções de potências externas.
A proposta de um “Congresso para Ormuz” surge como uma possibilidade para que os países da região estabeleçam um tratado formal, definindo regras claras de navegação e segurança. Tal iniciativa, se concretizada, poderia estabilizar a área, proteger os interesses econômicos globais ligados ao fluxo de petróleo e oferecer uma saída política para os EUA em meio às tensões atuais.
No curto prazo, a reabertura segura do estreito sob um acordo regional poderia ser apresentada como um sucesso diplomático para a administração Trump, aliviando a pressão sobre Washington. A longo prazo, um tratado codificado traria maior autonomia aos estados do CCG, reduzindo sua dependência de um aliado que, em diversas ocasiões, demonstrou priorizar outros interesses em detrimento da estabilidade regional.
Enquanto isso, o Irã poderia consolidar sua influência, desde que aceitasse negociar em termos coletivos. A construção dessa nova ordem, embora desafiadora, é vista como um passo essencial para evitar que o estreito de Ormuz continue sendo palco de disputas internacionais.