No dia 12 de abril o Boticário lançou o CodeHerBot, uma ferramenta projetada para enfrentar o crescimento da violência digital contra mulheres, especialmente os casos de manipulação de imagens íntimas por meio de inteligência artificial.
A iniciativa surge em meio a um cenário preocupante no qual a tecnologia amplifica abusos que antes encontravam limites maiores, tornando esses atos mais acessíveis e naturalizados na internet.
Levantamento da SaferNet Brasil registra que as denúncias de misoginia, discriminação e violência contra mulheres aumentaram 224,9 por cento. Esse dado revela a escala do problema e serviu como um dos motivadores para o desenvolvimento da solução tecnológica pela marca de cosméticos.
O impulso concreto para a criação do CodeHerBot veio após campanha com a cantora Marina Sena para promover a linha Her Code, quando sua imagem foi inserida em prompts no Grok, a inteligência artificial da plataforma X, gerando versões em nudez ou poses sexuais sem consentimento algum, conforme detalhou o portal Carta Capital em sua reportagem sobre o caso.
O episódio expôs falhas estruturais nas plataformas que permitem o uso não autorizado de fotos públicas ou privadas como base para criações falsas.
O CodeHerBot funciona de maneira direta e integrada às redes sociais. Quando um usuário marca o bot em determinada publicação, o sistema inicia monitoramento automático do conteúdo. Se identificar que uma imagem foi manipulada digitalmente com emprego de inteligência artificial, o material é ocultado de imediato para limitar sua propagação.
O bot ainda oferece orientações claras sobre o processo de denúncia a autoridades e plataformas, além de informar os direitos legais disponíveis às vítimas.
O arcabouço jurídico brasileiro já estabelece responsabilidades para esses atos por meio da Lei Carolina Dieckmann, que trata de violações envolvendo imagens íntimas, do Marco Civil da Internet, que regula obrigações das plataformas, da Lei do Stalking, que pune formas de perseguição, e da Lei Rose Leonel, que reforça a proteção contra compartilhamento não consensual de conteúdo íntimo.
Todas essas normas alcançam também materiais gerados por inteligência artificial, responsabilizando a criação, a manipulação e o compartilhamento sem autorização. O desafio central, porém, não está na falta de legislação, e sim na velocidade com que o dano se espalha. Quando uma ordem judicial finalmente é cumprida, o conteúdo muitas vezes já circulou por diversas redes, causando impactos profundos e de difícil reparação.
A abordagem do Boticário marca uma evolução no papel das empresas, que deixam de se limitar a campanhas de conscientização para oferecer infraestrutura técnica ativa de proteção.
O CodeHerBot intervém diretamente no fluxo de conteúdo, reduzindo o alcance de abusos antes que se tornem virais, e posiciona a marca como agente de autoproteção digital para mulheres. Essa medida vai ao encontro da necessidade de respostas imediatas em um ambiente onde fotografias comuns viram matéria-prima para agressões em escala industrial, com custo baixo e disseminação instantânea.
A inteligência artificial alterou não apenas os métodos de violência de gênero, mas também sua intensidade e alcance. Ferramentas automatizadas de detecção e contenção como o CodeHerBot tornam-se componentes indispensáveis para a defesa de direitos digitais.
A experiência demonstra que ações concretas de monitoramento e bloqueio podem mitigar danos que leis sozinhas demoram a resolver. Com isso, o Boticário contribui para elevar o patamar de responsabilidade corporativa no combate a formas modernas de misoginia que se valem da tecnologia para atingir a autonomia e a integridade das mulheres.


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