A prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, torna ainda mais difícil sustentar versões que tentam embaralhar a identidade política do escândalo do Banco Master.
Desde o início, o caso já orbitava dois polos fortemente associados ao bolsonarismo: de um lado, o BRB, banco público ligado ao governo do Distrito Federal; de outro, o governo Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, também envolvido nas articulações em torno do Banco Master. Com a nova fase da investigação, essa vinculação política fica ainda mais nítida.
A ofensiva da Polícia Federal, autorizada por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, teve como alvo Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Segundo a investigação, ele chegou a receber R$ 74,6 milhões em imóveis de luxo usados como pagamento de propina nas negociações com o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Os seis imóveis envolvidos no esquema alcançariam R$ 146,5 milhões. De acordo com a decisão, parte dessas operações já havia sido efetivamente executada.
O documento afirma que as transações só não foram concluídas integralmente porque Vorcaro teria tomado conhecimento da existência de uma investigação sigilosa. Essa apuração buscava esclarecer justamente o pagamento de vantagens indevidas a Paulo Henrique por meio da compra e do repasse de imóveis.
A investigação identificou seis imóveis vinculados ao chamado “cronograma pessoal” do ex-presidente do BRB. Quatro ficam em São Paulo — Heritage, Arbórea, One Sixty e Casa Lafer — e dois em Brasília — Ennius Muniz e Valle dos Ipês.
A Polícia Federal afirma ter rastreado pagamentos concretos superiores a R$ 74 milhões. Entre os desembolsos já mapeados estão valores relativos aos empreendimentos Heritage, One Sixty, Arbórea, Ennius Muniz e Valle dos Ipês.
Segundo a decisão do STF, o esquema teria recorrido a fundos de investimento geridos pela Reag e a empresas de fachada registradas em nome de interpostas pessoas. Entre elas aparece o cunhado do advogado Daniel Monteiro.
Para os investigadores, os imóveis teriam sido usados para ocultar a origem dos recursos. A avaliação da PF é que o caso revela um modelo sofisticado de lavagem de capitais.
A prisão de Paulo Henrique ocorreu na quarta fase da Operação Compliance Zero. A ação investiga um esquema de lavagem de dinheiro voltado ao pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos.
Também foi preso nesta quinta-feira o advogado Daniel Monteiro. Ele é suspeito de ter participado da montagem da estrutura financeira usada para ocultar valores ligados à negociação entre o BRB e o Banco Master.
A investigação aponta que Daniel Monteiro mantinha ligação direta com Paulo Henrique Costa. Segundo a PF, ele também participou das tratativas relacionadas à operação.
A defesa do ex-presidente do BRB nega irregularidades. O advogado Cleber Lopes afirmou que Paulo Henrique “não cometeu crime algum” e classificou a prisão como “desnecessária”.
Politicamente, o impacto é direto. Num cenário em que houve disputa para empurrar o escândalo do Banco Master para diferentes lados, a prisão do ex-presidente de um banco público vinculado a um governo bolsonarista reforça a associação do caso com a direita.
Ainda mais porque o BRB não apareceu agora na história. O banco esteve desde o começo no centro das relações com o Banco Master, assim como o governo Cláudio Castro, outro ator fortemente identificado com o bolsonarismo.
A nova fase da operação não encerra todas as perguntas sobre a extensão do esquema. Mas consolida, no terreno político, a imagem de que o escândalo do Banco Master cola cada vez mais na direita bolsonarista.