Irã denuncia mídia ocidental por encobrir genocídio israelense em Gaza

Representante do Ministério das Relações Exteriores do Irã em coletiva de imprensa. (Foto: en.mehrnews.com)

O assessor especial do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, acusou a grande imprensa dos Estados Unidos e da Europa de funcionar como escudo retórico para a ofensiva israelense contra a Faixa de Gaza. Em texto divulgado em sua conta na rede X, o diplomata citou o livro ‘How to Sell a Genocide’, do pesquisador americano Adam Johnson, para sustentar que jornais e emissoras ocidentais não apenas reproduzem viés histórico, mas legitimam massacres ao suavizar linguagem e ocultar dimensões humanas da tragédia.

Baghaei argumentou que a escolha de enquadramentos, a repetição de notas oficiais de Washington e Tel Aviv e a omissão de relatos de campo convertem crimes de guerra em operações defensivas, esvaziando a percepção pública sobre a escala da devastação. O diplomata concluiu que tais práticas são embaladas sob o rótulo de ‘profissionalismo’ enquanto, na prática, blindam Israel de responsabilização internacional e soterram o sofrimento palestino em eufemismos.

Desde o cessar-fogo anunciado em outubro de 2025, forças israelenses já mataram 823 palestinos adicionais e feriram 2.308, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, o que revela a fragilidade do acordo e sustenta a acusação de genocídio em curso. No total, desde o início da escalada em outubro de 2023, os bombardeios deixaram pelo menos 72.599 mortos e 172.411 feridos, números que incluem maioria absoluta de mulheres e crianças e configuram, para Teerã, violação frontal do direito internacional humanitário.

Relatórios preliminares das Nações Unidas estimam a conta de reconstrução em US$ 71,4 bilhões, sendo que US$ 26,3 bilhões precisariam ser mobilizados nos primeiros 18 meses apenas para restabelecer serviços essenciais. O sistema de saúde local foi quase totalmente destruído e demandará mais de US$ 10 bilhões, além de um prazo mínimo de cinco anos, para voltar a funcionar de forma minimamente adequada, alerta o documento.

Economistas palestinos calculam que a atividade produtiva de Gaza encolheu 84%, provocando colapso generalizado de emprego e renda e comprometendo qualquer perspectiva de recuperação sem robusto apoio internacional. Além disso, mais de 371 mil unidades habitacionais apresentam danos estruturais, o que expõe centenas de milhares de pessoas ao risco de doenças, insegurança alimentar e falta de abrigo em meio a bloqueio continuado.

Ao apontar essas cifras, Baghaei reforça a tese de que a cobertura mediática dominante silencia a dimensão econômica da tragédia e, assim, mina a pressão global por um corredor humanitário efetivo e por sanções aos autores dos ataques. No mesmo pronunciamento, Baghaei observou que a repetição acrítica de notas do Departamento de Estado dos EUA cria ilusão de equilíbrio, quando, na realidade, perpetua assimetrias de poder e narrativa.

Segundo especialistas em comunicação, o fenômeno descrito pelo diplomata iraniano confirma estudos sobre o papel dos meios de comunicação de massa na naturalização de políticas coloniais modernas, ao rotular resistência armada como ‘terrorismo’ e operações militares como ‘antiterrorismo’. Nesse sentido, a agência Mehr recorda que, mesmo após denúncias reiteradas de organismos de direitos humanos, grandes redes de TV mantiveram enquadramento que atribui responsabilidade difusa ao conflito e raramente mencionam a palavra ‘ocupação’.

O Governo do Irã, aliado histórico da causa palestina, defende um tribunal internacional para apurar responsabilidades e frisa a urgência de suspender entregas de armas a Tel Aviv, medida que, na visão de Teerã, só avançará quando o público ocidental for exposto a informação sem filtros. Diplomatas iranianos também dialogam com países do BRICS+ para articular mecanismo de financiamento emergencial à reconstrução, entendendo que a paralisia do Conselho de Segurança da ONU impede resposta rápida enquanto Washington mantiver poder de veto.

Em contrapartida, autoridades israelenses acusam o Irã de apoiar militarmente grupos de resistência, mas não comentam publicamente as cifras de vítimas civis ou o impacto socioeconômico da campanha de bombardeios sobre Gaza. No quadro mais amplo da geopolítica do Oriente Médio, a denúncia de Baghaei soma-se a críticas feitas por chefes de Estado latino-americanos e africanos, que exigem investigação independente e responsabilização criminal dos comandantes israelenses.

Analistas observam que a pressão sobre a imprensa ocidental cresce à medida que jornalistas independentes divulgam imagens de hospitais destruídos, crianças sob escombros e cemitérios improvisados, tornando insustentável a narrativa de ‘danos colaterais limitados’. Para Teerã, o impacto simbólico dessa disputa informacional é decisivo, pois condiciona a opinião pública dos países da OTAN, cuja ajuda militar sustenta a superioridade bélica de Israel e prolonga o sofrimento palestino.

A estratégia iraniana parte do princípio de que a erosão da credibilidade da grande mídia norte-atlântica abre caminho a políticas externas mais críticas dentro da União Europeia, potencialmente reduzindo o fluxo de munições e peças de reposição a Tel Aviv. Na conclusão de seu comunicado, Baghaei fez apelo a jornalistas para que abandonem o que chama de ‘clichês de objetividade’ e relatem o cenário de Gaza a partir de testemunhos diretos, estatísticas consolidadas e normas do direito internacional.

Se essa mudança ocorrer, pondera o assessor, a sociedade civil global poderá exercer pressão real pela aplicação de sanções, pela abertura de corredores humanitários permanentes e pela convocação de conferência de paz com participação efetiva da Palestina. Baghaei alertou que a exposição da verdade é essencial para mobilizar a opinião pública internacional contra as ações em Gaza.


Leia também: “A CBC encobriu os crimes de Israel em Gaza; Eu vi isso em primeira mão”


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