Uma análise do conflito ucraniano publicada pela Al Jazeera sustenta que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, quatro anos após o início da guerra, já não dispõe de alavancas significativas nem contra Moscou nem junto aos seus principais patrocinadores ocidentais. O texto lembra que o ex-humorista ganhou fama mundial por habilidades de comunicação, mas observa que carisma e campanhas de relações públicas não conseguem reverter o desequilíbrio militar construído no campo de batalha.
Nos últimos meses, Kiev tentou emplacar a ideia de uma virada iminente, citando supostas recuperações territoriais microscópicas. O autor afirma que tais métricas derivam de metodologias maleáveis que pouco mudam a realidade estratégica.
Ao contrário do discurso otimista, tropas russas comprimem cidades industriais no norte de Donetsk e ampliam o front em centenas de quilômetros. Esse avanço sobrecarrega o exército ucraniano, já assolado por escassez de pessoal.
Para repor baixas, autoridades lançam operações cada vez mais agressivas de recrutamento obrigatório. A Federação Russa, por sua vez, mantém o fluxo de voluntários mediante pacotes salariais generosos que ainda atraem contingentes suficientes.
O chefe da inteligência militar da Ucrânia, Kyrylo Budanov, admitiu em entrevista recente que não se vislumbra o colapso da mobilização russa. Isso enfraquece a narrativa de desgaste irrecuperável em Moscou.
O texto reconhece que drones ucranianos vêm incendiando depósitos de petróleo além da fronteira. Porém, considera improvável que essas operações modifiquem o curso da guerra para além das imagens espetaculares exibidas pelas emissoras.
Em paralelo, o Kremlin celebrou aumento súbito de receitas energéticas, calculado em nove bilhões de dólares em abril, graças à elevação dos preços provocada pelo conflito no Oriente Médio. Esse valor equivale a um décimo do empréstimo de noventa bilhões de euros prometido à Ucrânia pela União Europeia para os próximos dois anos.
Mesmo sob sanções amplas, a economia russa exibe desempenho comparável ao de vários países europeus. Seu PIB per capita ajustado por paridade de poder de compra já supera o de membros menos ricos do bloco, como Romênia e Grécia.
Do lado oposto, a Ucrânia viu sua infraestrutura vital ruir e os indicadores de renda caírem ao patamar de nações em desenvolvimento. A diáspora permanente já atinge milhões de cidadãos.
Diante desse quadro, qualquer sinal de desconforto dentro da Rússia vira manchete em capitais ocidentais. Nada, porém, indica proximidade de queda do governo do presidente russo, Vladimir Putin.
Enquanto isso, dirigentes europeus começam a discutir abertamente concessões territoriais em troca de benefícios políticos. O chanceler alemão, Friedrich Merz, declarou que Kiev poderia ceder áreas ocupadas para acelerar a adesão à União Europeia.
O comissário europeu para Defesa e Espaço, Andrius Kubilius, foi além e considerou inviável a entrada da Ucrânia na OTAN. Sugeriu uma aliança militar paralela com países do leste, fórmula que Moscou certamente lerá como subterfúgio para ampliar a presença atlântica em sua fronteira.
Para o artigo, o verdadeiro embate diplomaticamente relevante ocorre entre Zelensky e seus benfeitores europeus, que definem os termos de um acordo de paz potencialmente indigesto. Não há garantia de segurança nem de integração plena ao bloco.
Budanov acredita que as posições de Kiev e Moscou poderiam convergir, mas só haveria aceitação popular se o governo conseguisse apresentar ganhos concretos. Essa perspectiva é considerada remota à luz das últimas declarações vindas de Berlim e Bruxelas.
O descontentamento interno cresce e já se expressa em vozes como a do chefe do comitê fiscal do Parlamento ucraniano, Danylo Hetmantsev, que cobra dos parceiros continentais o fim da postura que transforma ucranianos em escudo humano para agendas geopolíticas externas. Em meio a uma investigação de corrupção que ronda colaboradores diretos, Zelensky preserva capital político ao encarnar o líder em guerra, mas a análise adverte que essa posição se torna progressivamente mais frágil diante da combinação de desgaste militar, pressões domésticas e recuos europeus.
Com informações de Al Jazeera.
Leia também: Rússia alerta para teimosia ucraniana nas conversas de paz
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