Um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciência de Tóquio desenvolveu uma célula de memória que mede apenas 25 nanômetros de largura — menos de um centésimo da espessura de um fio de cabelo humano.
O que distingue o feito de avanços anteriores é que o dispositivo não apenas funciona nessa escala extrema, mas se torna mais eficiente à medida que encolhe. Isso contraria décadas de limitações práticas na engenharia de semicondutores.
O professor Yutaka Majima, que liderou a pesquisa, aponta que a descoberta abre caminho para resolver um dos principais gargalos da eletrônica portátil: o calor excessivo e o consumo acelerado de bateria. Ao reduzir drasticamente a energia necessária para gravar e ler dados, o novo chip pode prolongar a autonomia de relógios inteligentes, fones sem fio e módulos de inteligência artificial embarcada.
O princípio físico por trás da invenção é o túnel ferroelétrico, conceito teórico proposto em 1971 que permaneceu sem aplicação prática por décadas. Os materiais disponíveis perdiam desempenho ao ser afinados, bloqueando o avanço.
Essa limitação começou a ser superada quando pesquisadores descobriram que o óxido de háfnio retém polarização elétrica estável mesmo em filmes ultrafinos. Essa é uma propriedade rara entre os materiais compatíveis com a fabricação industrial de chips.
Majima e sua equipe foram além ao aquecer os eletrodos de forma controlada, fazendo-os assumir contorno semicircular e se aproximar da estrutura de um único cristal dentro da célula de memória. Essa geometria reduz as fronteiras entre grãos cristalinos — as chamadas correntes de fuga, pelas quais elétrons escapam e dissipam energia sem realizar trabalho útil.
A decisão mais ousada da equipe foi encolher o componente além do limite que a literatura técnica considerava viável, em vez de tentar compensar os defeitos com camadas adicionais de material. Com a área total do dispositivo tão reduzida, a superfície sujeita a imperfeições ficou pequena demais para comprometer o funcionamento.
O resultado foi confirmado em centenas de ciclos consecutivos de escrita e leitura sem degradação mensurável. Conforme detalhado pelo ScienceDaily, os testes demonstraram que a densidade de corrente necessária para alternar entre os estados 0 e 1 caiu, enquanto a diferença de condutância entre os dois estados aumentou.
Em termos práticos, o chip passou a distinguir bits com mais precisão e menos consumo energético simultaneamente. Esse resultado tem implicação direta nos esforços para embarcar inteligência artificial em objetos de pequeno porte, de pulseiras esportivas a sensores agrícolas remotos.
Grande parte da eletrônica de consumo atual gasta mais energia transferindo dados entre processador e memória do que executando cálculos. A nova célula promete reduzir esse gargalo de forma significativa.
O óxido de háfnio já integra as linhas de produção de semicondutores de última geração, utilizado como isolante em transistores FinFET por fabricantes asiáticos, europeus e norte-americanos. Isso significa que, se o protótipo japonês avançar para lotes piloto, a integração poderia ocorrer sem a necessidade de reconstruir fábricas bilionárias.
O avanço pressiona fabricantes que investem em memórias não voláteis de alto custo, como ReRAM e MRAM, para acelerar inferências de inteligência artificial em dispositivos locais. Se a alternativa baseada em óxido de háfnio comprovar durabilidade industrial, poderá entregar desempenho equivalente por fração do consumo elétrico.
Os resultados chegam num momento em que as emissões de carbono dos centros de dados crescem e se tornam alvo de regulações na União Europeia e em países asiáticos. Reduzir o consumo energético na borda da rede ajuda a conter a pegada ambiental sem sacrificar a expansão dos serviços digitais.
Majima reconhece que ainda faltam etapas antes da comercialização, incluindo testes de resistência a variações de temperatura, radiação ionizante e compatibilidade com litografias de dois nanômetros já em uso nas fundições mais avançadas. Para o cientista, o valor imediato da pesquisa está em demonstrar que empurrar o componente além do que os manuais prescreviam revelou propriedades novas.
Tóquio, que busca revitalizar sua indústria eletrônica após duas décadas de perda de participação de mercado para Coreia do Sul e Taiwan, enxerga no avanço uma oportunidade estratégica de reposicionamento. Empresas de design de chips de diversas nações acompanham o estudo com atenção, avaliando parcerias que possam diversificar fornecedores e ampliar o acesso soberano a tecnologias de ponta.
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Nadia Petrova
04/05/2026
25 nanômetros é impressionante, mas acho curioso como todo mundo pula direto pra “bateria de celular” sem perguntar quem vai controlar a produção desses chips. Japão sabe fazer engenharia de ponta, mas se a TSMC e a Samsung dominarem a fabricação, a “revolução” vira mais um elo na cadeia de dependência tecnológica. E, Marta, sobre o Custo Brasil: concordo que o Estado atrapalha, mas o problema não é só imposto — é que nosso setor produtivo prefere fazer lobby por subsídio a competir de verdade.
Mariana Santos
04/05/2026
Rubens, você trouxe a memória que faltava. O BNDES financiava pesquisa e a gente via resultado em inovação nacional, não só em importar tecnologia pronta. Esse chip japonês é lindo, mas enquanto o lucro for pra Vale e a conta ficar pro povo, a bateria do meu celular vai continuar morrendo às 15h porque a recarga é artigo de luxo num país que desmonta a ciência pública.
Marta Souza
04/05/2026
Inovação japonesa de ponta, como sempre. Enquanto isso, o Brasil insiste em tratar o setor produtivo como inimigo, com uma carga tributária que inviabiliza qualquer P&D sério. Se esse chip chegar ao mercado, vai custar o dobro aqui por causa do nosso Custo Brasil. Deixem o mercado livre funcionar que a tecnologia chega mais rápido pra todo mundo.
Rubens O Pescador
04/05/2026
Marta, com todo respeito, mas mercado livre sem regra é o que deixou o povo da minha roça sem luz por três dias quando a chuva derrubou o poste e a empresa privada só veio consertar depois que a prefeitura ameaçou multar. Na época do PT, o BNDES financiava pesquisa e a gente via bateria de celular popular durando mais, não só chip de luxo pra rico.
Francisco de Assis
04/05/2026
Rapaz, o japão fazendo chip de 25 nanômetro e o Brasil ainda discutindo se 5G faz mal pra saúde. Enquanto isso a gente perde tempo com guerra ideológica enquanto a tecnologia avança e o povo brasileiro continua sofrendo com bateria que não dura nem meio dia de trampo. Tomara que o Lula veja essa notícia e meta o pé na porta da Finep pra financiar pesquisa nacional, senão vamos ficar pra trás mais uma vez.
Mariana Costa
04/05/2026
O avanço é impressionante como engenharia de materiais, mas a discussão aqui já mostra o quanto a gente se perde em ruído antes mesmo de a tecnologia chegar ao mercado. Minha torcida é que essa eficiência energética não fique refém de mais um ciclo de obsolescência programada em smartphones caríssimos, enquanto a infraestrutura básica de baterias para equipamentos médicos continua defasada.
Mateus Silva
04/05/2026
Silvia, você tocou no ponto nevrálgico. A miniaturização dos componentes é uma maravilha da engenharia, mas a lógica do capitalismo tardio garante que essa eficiência energética raramente chegue a quem mais precisa. Enquanto o custo de P&D for socializado e o lucro privatizado, veremos baterias de celular durarem uma semana para quem pode pagar 10 mil reais no aparelho, enquanto o SUS continua com equipamentos dos anos 90. A questão não é se a tecnologia funciona, mas para quem ela funciona.
Márcio Torres
04/05/2026
É curioso ver como uma notícia sobre inovação tecnológica concreta atrai, invariavelmente, o mesmo ruído de fundo. O Tonho Patriota, por exemplo, parece ter pulado a aula de biologia para fazer greve de braço cruzado na aula de física, confundindo nanômetros com virologia. O Ronaldo Pereira já corrigiu com precisão cirúrgica: 25 nm é uma escala de transistor, não de patógeno. Mas o que realmente me interessa nessa thread é o potencial real desse avanço japonês, que vai muito além de celulares com bateria que dura um dia a mais.
Do ponto de vista da ciência dos materiais, o feito do Instituto de Ciência de Tóquio é notável não apenas pela miniaturização, mas pela eficiência energética em escala atômica. Reduzir o consumo de energia em memórias não voláteis significa que dispositivos de borda — sensores, wearables, equipamentos médicos portáteis — poderão operar por semanas ou meses com uma única carga. Isso não é especulação futurista, é consequência direta da redução da corrente de fuga em transistores tão pequenos. A Silvia D. tocou num ponto crucial: o impacto disso no SUS e em equipamentos de diagnóstico comunitário seria transformador.
No entanto, sou obrigado a fazer um contraponto que a Mariana Ambiental levantou de forma parcial. Ela tem razão ao apontar o problema do lixo eletrônico e do controle social sobre a produção, mas falta um dado incômodo: a fabricação desses chips de 25 nm exige litografia ultravioleta extrema (EUV), um processo que consome uma quantidade absurda de energia e água ultrapura. A ASML, empresa holandesa que praticamente monopoliza essas máquinas, tem um consumo energético por máquina que rivaliza com uma pequena cidade. Então, sim, o chip final consome menos, mas a fabricação dele é um passivo ambiental que não pode ser varrido para debaixo do tapete do marketing verde.
Por fim, a Maria Clara Lopes acertou em cheio ao questionar a acessibilidade. A história da tecnologia é implacável: inovações de ponta sempre chegam primeiro aos países ricos e aos estratos mais altos de consumo. O Brasil, com sua indústria de semicondutores praticamente inexistente e uma dependência brutal de importação de componentes, dificilmente verá esses chips em baterias de celulares populares antes de uma década, e mesmo assim com ágio. Enquanto isso, o Tonho vai continuar confundindo escala nanométrica com conspiração comunista, e a gente vai seguindo na torcida para que a física quântica, ao menos, não precise de visto de entrada no país.
Silvia D.
04/05/2026
Ronaldo, você foi cirúrgico. Enquanto o Tonho Patriota acha que 25 nanômetros é vírus, a gente fica aqui torcendo pra essa tecnologia sair do laboratório e chegar no SUS, nas baterias de aparelhos auditivos e nos equipamentos de diagnóstico que precisam durar horas em comunidades sem energia estável. Ciência aplicada com política pública de acesso é o que importa.
Tonho Patriota
04/05/2026
25 NANOMETROS É MENTIRA, ISSO É TAMANHO DE VÍRUS, COMUNISTA! FAZ O L
Ronaldo Pereira
04/05/2026
Tonho, vírus tem 100 nanômetros, isso é ciência básica de escola pública. Enquanto você briga com fantasma, a classe trabalhadora espera bateria que dure mais de um turno sem ter que pedir aumento pra patrão.
Mariana Ambiental
04/05/2026
Lucas, você tá viajando legal. Enquanto você teoriza sobre pânico moral, a realidade é que esse chip de 25 nanômetros consome menos energia e pode reduzir o lixo eletrônico, já que baterias durariam mais. Mas sem controle social sobre a produção e descarte desses materiais, vira só mais um luxo pra poucos e passivo ambiental pros mesmos de sempre.
Maria Clara Lopes
04/05/2026
A Cíntia trouxe um ponto técnico que realmente faz diferença nessa discussão. Reduzir o consumo energético em armazenamento de dados é um avanço concreto, independente de viés político. Agora, se isso vai chegar ao consumidor brasileiro num preço justo ou virar mais um imposto disfarçado de inovação, aí já é outra história — e aí o Pedro tem razão em desconfiar.
Cíntia Ribeiro
04/05/2026
É impressionante como um avanço em ciência dos materiais pode redefinir não só a eficiência energética de dispositivos, mas a própria arquitetura de como armazenamos e processamos dados. A redução para 25 nanômetros não é apenas miniaturização; é um salto na relação entre consumo e desempenho que pode, sim, baratear custos de produção em escala — se houver política industrial pra isso. O problema, como o Pedro e a Luciana apontaram, não está na tecnologia, mas na nossa crônica incapacidade de transformar inovação em acesso.
Luciana Santos
04/05/2026
Pedro, é exatamente isso. 25 nanômetros, bateria que dura mais, mas a gente sabe que no Brasil essa tecnologia chega daqui a 15 anos, com imposto de 90% e ainda vão culpar o motorista por não ter carro elétrico. Enquanto isso, tô aqui torcendo pra bateria do meu ônibus não acabar no meio do trânsito.
Pedro Silva
04/05/2026
Pois é, mais uma promessa de tecnologia que vai revolucionar tudo… daqui uns 10 anos, se chegar no Brasil, vai vir com imposto de 80% e ainda vão chamar de inovação. Enquanto isso, tô aqui vendo a bateria do meu celular morrer no meio da corrida.
Marina Costa
04/05/2026
Tadeu, você tem toda razão em desconfiar dessa maravilha tecnológica que prometem e nunca chega ao preço justo. Enquanto os japoneses avançam em inovação, aqui no Brasil o governo gasta nosso dinheiro com ideologias imorais e esquece de investir em ciência de verdade. Essa bateria nova pode até ser boa, mas não adianta nada se a família tradicional continuar sendo desrespeitada e a educação dos nossos filhos deixada de lado.
Lucas Andrade
04/05/2026
Marina, você opera uma inversão curiosa: transforma a crítica à dependência tecnológica em pânico moral contra “ideologias”, como se a obsessão por uma família abstrata fosse mais urgente que a infraestrutura material que sustenta a vida — inclusive a das famílias reais, que precisam de ciência, bateria e dignidade, não de símbolos vazios de pureza.
Tadeu
04/05/2026
25 nanômetros é bonito no papel, mas vamos ver se isso realmente chega ao mercado sem custo estratosférico. Até lá, continuo olhando pro CDI e pra inflação, que é o que mexe com meu bolso de verdade.
Marcos Conservador
04/05/2026
Marta, a senhora foi cirúrgica. Mas olha, esse papo de “chip de 25 nanômetros” é a mesma ladainha de sempre: gastam rios de dinheiro em tecnologia pra no fim a bateria do meu celular continuar durando menos que um discurso do Lula. Enquanto isso, o Brasil importa lixo eletrônico e chama de progresso. Cadê o investimento em pesquisa nacional? Ah, é mais fácil comprar tudo pronto dos japoneses e ficar pagando royalty.
Samara Oliveira
04/05/2026
Marcos, você tem razão sobre a dependência tecnológica, mas seu erro é achar que o problema é só importar chip japonês — o Brasil queima bilhões em juros e subsídio pra banco enquanto corta verba de ciência, e aí qualquer inovação vira artigo de luxo que não chega no povo. Enquanto a fé nos ensina a cuidar da criação, o sistema prefere lucrar com a escassez.
Lurdinha Deus Acima de Todos
04/05/2026
Ana Rodrigues, amada, mas esse chip de 25 nanômetros é a prova que Deus existe e a ciência confirma 🙌 Enquanto isso o Brasil tá discutindo se pode ter celular na escola, os japoneses tão criando bateria que dura mais que promessa de político! 🇧🇷🙏🇺🇸
Marta
04/05/2026
Lurdinha, minha filha, senta aqui que a vovó professora vai te dar uma aula de história e cidadania. Primeiro, deixa eu te dizer uma coisa: misturar fé com propaganda de chip estrangeiro é um negócio que só atrapalha o raciocínio. Deus não precisa de um nanômetro pra existir, e a ciência não precisa de bênção pra funcionar. Agora, sobre essa sua implicância com o Brasil discutir celular na escola: pois saiba que isso se chama democracia, coisa que ditadura nenhuma ensina. Enquanto o Japão, sim, investe pesado em educação pública e ciência de base, aqui a gente ainda briga pra ter merenda de qualidade e professor com salário digno. Esse chip de 25 nanômetros é bonito, mas você já parou pra pensar que ele foi desenvolvido em universidades públicas japonesas, com financiamento estatal e décadas de investimento em pesquisa? Não caiu do céu, não, minha filha. Caiu do planejamento de um Estado que valoriza o conhecimento, e não de um “mercado” que adora terceirizar miséria.
E outra: essa história de “promessa de político” é o discurso mais batido que tem. Político promete e erra, sim, mas o sistema político é a única ferramenta que o povo tem pra cobrar. Agora, me diga: quem foi que entregou o pré-sal pra Petrobras explorar com lucro pro Brasil? Quem foi que criou o Bolsa Família, que tirou 36 milhões de pessoas da fome? Foi político, sim, e com compromisso com o povo. Agora, esse papo de “Deus e ciência confirmam” enquanto se joga areia nos olhos do brasileiro com inovação estrangeira é o mesmo que bater palma pra navio cheio de tecnologia enquanto a gente afunda na falta de investimento. O Brasil não precisa de milagre, precisa de gestão pública séria, de ciência financiada e de professor respeitado. Enquanto você estiver celebrando chip japonês e esquecendo de cobrar o básico aqui, os meninos mal-educados do liberalismo vão continuar vendendo o nosso futuro como se fosse sucata.
Por fim, Lurdinha, uma sugestão de coração: troca essa bandeira dos EUA pelo hino do Brasil e lê um pouco sobre a história da nossa ciência. O Brasil já teve um dos maiores programas de computação do mundo, com a Lei de Informática dos anos 80, que gerou empregos e tecnologia nacional. Sabe o que acabou com ele? A abertura irrestrita do mercado, a tal da “globalização” que você aí parece amar. O chip japonês é legal, mas se a gente não tiver política industrial e soberania tecnológica, vamos continuar sendo só consumidores de inovação alheia. E isso, minha filha, não é obra de Deus nem de político — é obra de quem acha que país pobre tem que se contentar com migalha. Vamos acordar, que o Brasil merece mais do que reza e aplauso pra tecnologia dos outros.
Ana Rodrigues
04/05/2026
Pô, legal a inovação, mas vou ficar feliz mesmo quando essa tecnologia chegar num carregador que dure o dia inteiro no meu celular sem precisar ficar esquentando banco. Enquanto isso, tô aqui com power bank velho e o aplicativo sugando a bateria.
Evelyn Olavo
04/05/2026
Cristina Rocha, cirúrgica como sempre. O papo já descambou pra guerra de narrativa e ninguém parou pra pensar no óbvio: 25 nanômetros é bonito no laboratório, mas cadê a fábrica que vai produzir isso em escala comercial sem derreter o bolso do consumidor? Enquanto não sair do papel, é só mais um paper bonito pra alimentar tese de doutorado e hype de mercado.
João Batista
04/05/2026
Evelyn, você toca num ponto que me lembra a parábola do semeador: a semente caiu em terra boa e deu fruto, mas o que adianta o laboratório produzir milagres se o sistema financeiro exige que o fruto seja vendido antes de brotar? Enquanto a ciência avança, o capitalismo de cassino prefere especular com criptomoeda a financiar fábrica de verdade — e quem paga a conta é o povo que nunca viu a bateria durar um dia inteiro.
Cristina Rocha
04/05/2026
É fascinante observar como uma notícia sobre um avanço tecnológico objetivo — um chip de 25 nanômetros desenvolvido por pesquisadores em Tóquio — rapidamente se transforma, nos comentários, em mais um ringue do velho debate ideológico brasileiro. Enquanto a Silvia Ramos enxerga falta de Deus e a Maria Antônia vê excesso de Estado, eu gostaria de propor um desvio epistemológico: vamos olhar para a estrutura de poder que financia e orienta essa inovação.
O Luiz Augusto trouxe um ponto importante ao lembrar do MITI japonês, mas comete um equívoco clássico ao tentar separar o “Estado estratégico e temporário” do “assistencialismo crônico”. Essa dicotomia é falsa. O que o pós-guerra japonês demonstrou, e que estudiosos como Chalmers Johnson analisaram com profundidade, é que o chamado “milagre japonês” foi construído sobre uma aliança orgânica entre Estado, grandes conglomerados (zaibatsu) e universidades públicas. Não há capitalismo “puro” ali — há planejamento centralizado com roupagem de mercado competitivo. A diferença entre o Japão e o Brasil não está na presença ou ausência do Estado, mas no caráter de classe desse Estado. Lá, o investimento estatal serviu para fortalecer a indústria nacional e gerar soberania tecnológica. Aqui, historicamente, o Estado serviu como moeda de troca para elites agrárias e financeiras, com raríssimas exceções como a Embraer ou a Petrobras em seus melhores momentos.
O que realmente me preocupa nessa notícia é a apropriação dessa tecnologia. Um chip que reduz o consumo energético de baterias para IA e celulares pode ser uma ferramenta libertadora ou um novo instrumento de controle. Depende de quem o detém. Se essa inovação ficar restrita a monopólios como Samsung ou TSMC, veremos mais um ciclo de acumulação predatória: dispositivos mais eficientes, sim, mas com obsolescência programada ainda mais rápida e cadeias produtivas que exploram mão de obra no Sudeste Asiático. A questão não é se o chip funciona, mas se a sociedade terá controle democrático sobre ele. Enquanto a esquerda brasileira perder tempo discutindo pautas identitárias de forma rasteira e a direita delirar com um “mercado livre” que nunca existiu, o capital transnacional segue patenteando o futuro. Essa é a verdadeira ideologia que nos paralisa: a crença de que a tecnologia é neutra e que seu progresso nos salvará automaticamente. Não vai. Sem uma reforma profunda na propriedade intelectual e no financiamento público da ciência com controle social, esse chip de 25 nanômetros será apenas mais um brinquedo caro nas mãos de poucos.
Luiz Augusto
04/05/2026
João, você tem razão sobre o papel do MITI no pós-guerra japonês, mas isso foi um caso de Estado estratégico e temporário, não o assistencialismo crônico que a esquerda defende aqui. O mérito é dos engenheiros e das empresas que competiram globalmente, não do burocrata de plantão. Se o Brasil quisesse de fato inovar, cortava imposto, desregulamentava e deixava o empreendedor trabalhar.
Maria Antonia
04/05/2026
Rodrigo, concordo que o salto é promissor, mas o que realmente me anima é ver a iniciativa privada e a academia trabalhando sem o Estado atrapalhando. Enquanto isso, por aqui, a gente perde tempo com burocracia e incentivos fiscais malucos que só engordam cartel. Se o Brasil quer um pedaço desse bolo, precisa urgentemente de reformas que liberem o empreendedor, não de mais estatais.
João Carvalho
04/05/2026
Maria Antonia, sua leitura ignora que o próprio desenvolvimento do chip japonês que estamos comentando foi viabilizado por décadas de investimento estatal coordenado via MITI — exatamente o tipo de política industrial que você critica. A questão não é Estado versus mercado, mas que tipo de Estado e para quem ele atua; sem regulação e financiamento público estratégico, o “empreendedorismo” que você defende tende a reproduzir a concentração de renda que já sufoca a inovação brasileira.
Rodrigo Meireles
04/05/2026
Carlos, você tem razão em desconfiar do hype, mas 25 nanômetros em memória é um salto de ordem de grandeza, não incremental. Se essa eficiência energética se traduzir em produto, a autonomia de dispositivos de IA pode realmente mudar de patamar. O gargalo agora é escala de produção e custo, mas a física do negócio é promissora.
Silvia Ramos
04/05/2026
Carlos, o problema não é se a tecnologia sai do laboratório ou não, é que enquanto o mundo investe em inovação, o Brasil perde tempo com ideologias que destroem a família e a fé. Toda essa evolução material sem Deus só leva o homem a se achar mais importante do que realmente é. Como está em Provérbios 16:18, a soberba precede a ruína.
Carlos A. Mendes
04/05/2026
Legal ver que a pesquisa em materiais continua avançando, mas fico com o pé atrás sobre quando isso vai realmente sair do laboratório e chegar num produto que a gente possa comprar. Promessa de revolução em bateria a gente ouve todo ano, e no fim o celular continua descarregando no meio da tarde.
Lucas Moreira
04/05/2026
Cecília Alves, você tocou no ponto central. O Japão investe pesado em P&D estatal, sim, mas a diferença é que lá o dinheiro público não vira cabide de emprego nem aparelhamento ideológico — vira patente, licenciamento e produto que concorre no mercado global. Aqui a gente gasta rios de dinheiro em estatal que quebra, em subsídio pra setor que não inova e em taxa de juro que estrangula quem quer empreender. Enquanto discutimos se o Estado deve ou não bancar pesquisa, o chip de 25nm já está saindo do laboratório. O Brasil perde o bonde da inovação não por falta de investimento público, mas por falta de um ambiente que transforme esse investimento em valor de mercado.
Clarice Historiadora
04/05/2026
Lucas, você está certo ao apontar que o problema brasileiro não é o investimento em si, mas o modelo de gestão. O Japão tem no MITI e na JAXA exemplos de estatais que funcionam porque são blindadas da política de apadrinhamento — algo que o Brasil nunca conseguiu replicar, vide o aparelhamento da Finep e do BNDES em governos passados. Enquanto a gente não separar política de mérito técnico, qualquer recurso público vira cabide, não patente.
Cecília Silva
04/05/2026
Cecília Alves, você acredita mesmo que inovação nasce só de mercado livre? O Japão que você idolatra tem pesado investimento estatal em P&D, não é mão invisível que faz milagre. Enquanto isso, aqui na favela a gente sabe que bateria que dura mais é revolução sim — mas se chegar, vai vir com preço de iPhone e obsolescência programada.
Cecília Alves
04/05/2026
Cecília, você está certa sobre o hype, mas o ponto é outro: inovação de verdade vem de propriedade intelectual protegida e mercado livre, não de estatal bancando pesquisa. Enquanto o Brasil debate tabelamento de bateria e imposto de importação, o Japão avança porque respeita o direito de quem inventa. O chip de 25 nm é prova de que menos Estado e mais liberdade econômica geram resultado de verdade.
Cecília Torres
04/05/2026
Sofia, o entusiasmo é compreensível, mas precisamos separar fato de ficção. Um chip de 25 nm em laboratório não significa bateria que dura uma semana amanhã — a distância entre um protótipo e um produto comercializável é enorme, cheia de promessas quebradas. Antes de comemorar, vamos ver se esse negócio escala sem derreter ou custar o olho da cara.
Sofia García
04/05/2026
gente o Japão tá criando chip de 25nm e a gente aqui com iPhone de 7k que esquenta no zap kkkkk Marina falou tudo, enquanto a gente teoriza eles tão inovando de verdade, quero ver essa bateria durar uma semana no meu celular sem precisar carregar
Marina Silva
04/05/2026
Lucas, belo discurso, mas enquanto a gente teoriza sobre consumo, o Japão tá revolucionando bateria e a gente aqui discutindo iPhone importado.
Pedro Neto
04/05/2026
25 nanômetro e o Brasil ainda pagando 7 mil reais num iPhone com bateria que dura 3 horas.
Ricardo Almeida
04/05/2026
Pedro, o problema não é o preço do iPhone, é a ausência de uma política industrial que force a produção local de componentes estratégicos e barateie o acesso à tecnologia. Enquanto tratarmos inovação como artigo de luxo importado, vamos continuar pagando caro por bateria que dura uma reunião.
Lucas Pinto
04/05/2026
Pedro, sua ironia é certeira e revela um sintoma profundo: o brasileiro médio já naturalizou a relação de consumo como única mediação possível com a tecnologia. Você reclama do preço do iPhone e da bateria que dura três horas, mas essa queixa, embora legítima, opera dentro da mesma lógica que o oprime. O problema não é que o iPhone custe 7 mil reais; o problema é que a produção de conhecimento científico e tecnológico foi transformada em mercadoria sob o capitalismo tardio, e o Brasil, como periferia do sistema, é condenado a importar até a própria miséria materializada em componentes eletrônicos. Enquanto o Japão desenvolve um chip de 25 nanômetros que melhora a eficiência energética, aqui a burguesia nacional e seus lacaios no Estado continuam acreditando que inovação se resolve com “menos impostos e mais empreendedorismo”, como se a ciência fosse um subproduto espontâneo do mercado.
O que você chama de “bateria que dura 3 horas” é, na verdade, a materialização de uma escolha política deliberada: a desindustrialização programada, a destruição do sistema público de pesquisa e a submissão aos interesses das big techs estrangeiras. Não é coincidência que o Brasil tenha cortado verba para ciência e tecnologia enquanto o Japão, com seu capitalismo de Estado planejado, investe pesado em P&D público há décadas. Como bem apontou a Cecília ali em cima, a questão é de prioridade política, não de “burocracia” ou “doutrinação”. O discurso do “empreendedorismo salvador” é a ideologia que legitima a transferência de recursos públicos para o setor privado sem contrapartida social, enquanto a população paga 7 mil reais num aparelho que, em termos de valor de uso, não justifica nem metade do preço.
O mais grave é que essa relação fetichista com a tecnologia nos impede de enxergar a estrutura que a produz. Você não quer um iPhone com bateria que dure mais; você quer um sistema que produza tecnologia a serviço das necessidades humanas, e não do lucro. Enquanto a esquerda brasileira não for capaz de articular uma crítica radical a essa dependência tecnológica e propor um projeto de soberania científica e industrial, vamos continuar nessa dança macabra de reclamar do preço do iPhone enquanto a China e o Japão constroem os meios de produção do futuro. O chip de 25 nanômetros não é uma solução mágica; é um lembrete de que a luta de classes também se dá no terreno da nanotecnologia. E, como diria Gramsci, o velho está morrendo e o novo não pode nascer — nesse interregno, nascem os monstros do iPhone de 7 mil reais com bateria de 3 horas.
Paulo Ribeiro
04/05/2026
Pedro, sua ironia é certeira e revela um sintoma profundo: o brasileiro médio já naturalizou a relação de consumo como única mediação possível com a tecnologia. Você reclama do preço do iPhone e da bateria que dura três horas, mas essa queixa, embora legítima, opera dentro da mesma lógica que nos mantém reféns do subdesenvolvimento. O problema não é que o iPhone custe 7 mil reais; o problema é que, estruturalmente, nossa economia está montada para que a inovação chegue até nós apenas como mercadoria importada, nunca como capacidade produtiva internalizada. Enquanto o Japão desenvolve um chip de 25 nanômetros com investimento estatal coordenado por décadas de política industrial — algo que Althusser chamaria de aparelho ideológico do Estado a serviço da reprodução ampliada do capital, mas com planejamento —, o Brasil terceiriza sua soberania tecnológica para a Apple e a Samsung, e depois se surpreende com o preço.
O que me incomoda no seu comentário, Pedro, não é a constatação — é o horizonte político implícito. Você coloca a questão nos termos de um consumidor lesado, não de um cidadão que exige do Estado uma política de desenvolvimento científico e tecnológico. Gramsci já nos alertava: o senso comum é fragmentário, incoerente, e frequentemente reproduz a hegemonia mesmo quando critica. Ao reduzir o debate a “pagar caro por bateria ruim”, você acaba endossando a premissa liberal de que o acesso à tecnologia se resolve no mercado, quando na verdade a questão é de poder: quem controla os meios de produção do conhecimento? Quem define o que é inovação e para quem ela serve? O chip japonês não vai baratear seu iPhone, vai tornar mais eficiente a extração de dados dos usuários de IA, a menos que haja disputa política sobre o destino dessa tecnologia.
Mariátegui dizia que o atraso latino-americano não é uma etapa natural do desenvolvimento, mas o resultado de uma inserção subordinada na divisão internacional do trabalho. Enquanto não rompermos com essa lógica, estaremos sempre comentando notícias sobre inovação alheia com a amargura de quem paga o pato. A saída não é baixar imposto de empresário nem esperar o mercado se autorregular; é construir um sistema público de ciência e tecnologia que produza chips, baterias e iPhones — ou, melhor ainda, que produza tecnologia a serviço das necessidades sociais, não do lucro da Apple. Até lá, seu comentário continuará sendo um epitáfio da nossa dependência, não uma crítica à altura do problema.
Ricardo Menezes
04/05/2026
25 nanômetros e o Brasil ainda discutindo se ensina empreendedorismo ou doutrinação nas escolas. Enquanto isso, o Japão inova sem pedir licença pra burocrata nenhum. Se aqui não baixarem os impostos e pararem de tratar empresário como criminoso, vamos continuar comprando tecnologia pronta dos outros.
Carlos Oliveira
04/05/2026
Ricardo, o Japão inova porque há décadas faz política industrial de Estado com pesado investimento público em ciência, e não porque “baixou imposto de empresário”. Enquanto a gente ficar nessa conversa de que o problema é burocrata ou doutrinação, as multinacionais vão continuar levando nossa riqueza embora e o motorista de app aqui vai seguir sem direito nenhum.
Adalberto Livre
04/05/2026
25 NANOMETRO É MENOR QUE VIRUS DE COMPUTADOR, MAS OS CHINESES JA FAZEM ISSO HÁ ANOS E NINGUEM FALA. ESSA MIDIA SÓ QUER ENGANAR OTARIO.
Cecília Ramos
04/05/2026
Adalberto, a China investe pesado em P&D público há décadas, enquanto aqui cortam verba de ciência e tecnologia e chamam de ideologia. O problema não é a mídia, é a falta de prioridade política com o bem comum.
Marcus Almeida
04/05/2026
Interessante ver a ciência avançando, mas enquanto japoneses criam chips minúsculos pra melhorar IA, aqui no Brasil o governo gasta rios de dinheiro com ideologia e censura nas escolas. Cadê o investimento em tecnologia de verdade, em vez de doutrinação? O Brasil perde o bonde da inovação enquanto a esquerda brinca de reinventar a roda.
Luizinho 16
04/05/2026
Cala a boca, Marcus, vai defender corte de verba na educação enquanto os ricinhos fazem fortuna com chip japonês, isso sim é doutrinação.
Letícia Fernandes
04/05/2026
Caro Marcus Almeida, sua indignação sobre a falta de investimento em tecnologia no Brasil é compreensível, mas o diagnóstico que você oferece padece de um erro grosseiro de causalidade. A ausência de autonomia tecnológica brasileira não é consequência de “ideologia nas escolas” ou de gastos com “doutrinação” — essa é uma narrativa conveniente para desviar o olhar do verdadeiro algoz: a estrutura de acumulação capitalista periférica que nos condena ao papel de exportadores de commodities e importadores de inovação alheia. O Japão não chegou a liderar o setor de semicondutores porque seus alunos foram poupados de aulas de filosofia ou sociologia; chegou lá porque o Estado japonês, em aliança orgânica com seus grandes conglomerados, praticou um industrialismo agressivo, com protecionismo, subsídios maciços e um sistema educacional que, sim, forma cidadãos críticos e tecnicamente competentes ao mesmo tempo. O problema brasileiro nunca foi “excesso de esquerda na sala de aula” — foi a subordinação histórica da nossa burguesia ao capital internacional, que prefere lucrar com a importação de chips prontos do que financiar pesquisa básica de longo prazo.
O senhor clama por “investimento em tecnologia de verdade”, mas ignora que a “tecnologia de verdade” que o senhor admira nos japoneses é fruto de décadas de planejamento estatal, de universidades públicas robustas e de uma política industrial que jamais se envergonhou de ser chamada de intervencionista. O chip de 25 nanômetros que reduz o consumo energético de baterias não surgiu do nada num “empreendedorismo” espontâneo; surgiu de laboratórios financiados com dinheiro público, de cientistas formados em universidades estatais e de um arcabouço regulatório que protege a inovação nacional da voracidade do mercado financeiro. Enquanto isso, aqui no Brasil, o que a direita chama de “ideologia” é justamente o esforço de formar cidadãos capazes de questionar por que um país com o PIB do Brasil não consegue fabricar nem um processador simples sem depender de licenciamento estrangeiro. A censura que o senhor denuncia é, na verdade, o pânico de uma elite que sabe que uma população educada para pensar criticamente não aceitará passivamente ser mão de obra barata para a quarta revolução industrial.
O “bonde da inovação” que o Brasil perdeu não foi perdido por causa de Paulo Freire ou de discussões sobre gênero nas escolas. Foi perdido nos anos 1990, quando a abertura comercial desenfreada e a desindustrialização patrocinada pelo Consenso de Washington destruíram o que restava do nosso parque tecnológico. Foi perdido quando a Embraer foi privatizada, quando a Lei de Informática foi esvaziada, quando a Petrobras foi transformada em máquina de distribuir dividendos para acionistas estrangeiros. O senhor quer tecnologia? Então lute por um Estado que invista pesado em ciência básica, que proteja o mercado interno para que empresas nacionais possam crescer, que financie universidades públicas sem cortes recorrentes de orçamento. Mas, para isso, é preciso parar de repetir o mantra neoliberal de que o problema é o “gasto com ideologia” — porque, no fundo, a verdadeira ideologia é a que nos convence de que o mercado, sozinho, vai resolver o que décadas de política industrial ativa construíram no Japão, na Coreia e na Alemanha.
Mariana Oliveira
04/05/2026
Marcus, sua indignação com a falta de investimento tecnológico no Brasil é legítima, mas o diagnóstico que você faz é raso e desvia a atenção do verdadeiro problema. A narrativa de que o governo gasta dinheiro com “ideologia e censura nas escolas” enquanto deveria focar em chips e inovação é um falso dilema que ignora a complexidade histórica do subdesenvolvimento tecnológico brasileiro. Kimberlé Crenshaw, ao formular o conceito de interseccionalidade, nos ensina que as desigualdades não operam em compartimentos estanques — a precariedade da educação pública, especialmente nas periferias e entre a população negra, está diretamente ligada à nossa incapacidade de formar uma base sólida de cientistas e engenheiros. Não é a “doutrinação” que nos atrasa, mas a ausência de um projeto de Estado que invista em ciência básica, reduza a desigualdade de acesso e rompa com a lógica colonial de exportar matéria-prima e importar tecnologia. O Japão que você admira não chegou lá cortando educação ou perseguindo professores; ele construiu seu parque tecnológico sobre décadas de investimento público em pesquisa, universidades e formação crítica.
Você menciona que o Brasil perde o bonde da inovação enquanto a esquerda brinca de reinventar a roda, mas essa é uma caricatura que serve para ocultar os reais responsáveis pelo nosso atraso. bell hooks, em Ensinando a Transgredir, argumenta que a educação não pode ser reduzida a mera transmissão de habilidades técnicas — ela precisa formar sujeitos capazes de pensar criticamente o mundo, inclusive para inovar. Sem uma escola que ensine a questionar as estruturas de poder, a desigualdade racial e a exploração econômica, o que teremos é uma mão de obra treinada para operar máquinas estrangeiras, não para criar tecnologia própria. O “empreendedorismo” que Carlos Meirelles defendeu no começo da thread, sem políticas públicas robustas de ciência e tecnologia, vira apenas mais um mecanismo de reprodução de privilégios. O Brasil não inova porque nossa elite sempre preferiu lucrar com a dependência tecnológica a financiar pesquisa autônoma — e isso não é culpa de “ideologia nas escolas”, mas de um projeto de país que nunca levou a sério a soberania científica.
A censura que você denuncia, se existe, é um problema grave, mas ela não vem das pautas progressistas — vem, historicamente, de governos autoritários que suprimiram o pensamento crítico para manter o status quo. Enquanto você aponta o dedo para supostas doutrinações, o orçamento da Capes e do CNPq foi sistematicamente cortado nos últimos anos, e a reforma do ensino médio aprofundou a precarização da formação básica. O chip japonês de 25 nanômetros não vai surgir do nada num país que desvaloriza seus professores, terceiriza a pesquisa e trata a educação como gasto, não como investimento. A inovação tecnológica exige um ecossistema que inclua desde a alfabetização científica na infância até a proteção de cientistas contra a censura e o assédio político. Se você realmente quer ver o Brasil liderando em semicondutores, deveria defender mais investimento em educação pública, laica e crítica — e não menos.
Maura Santos
04/05/2026
Marcus, falar em “perder o bonde da inovação” é cômico vindo de quem defende o governo que, entre 2016 e 2022, cortou 40% do orçamento de ciência e tecnologia e ainda deixou o INPE sem verba pra monitorar desmatamento. Enquanto isso, a “doutrinação” que você critica é, na real, o que formou os engenheiros que mantêm de pé o pouco de pesquisa que ainda temos — sem eles, nem pra copiar chip japonês a gente ia servir.
Carlos Meirelles
04/05/2026
Mais um avanço tecnológico que o Brasil poderia estar liderando se não fosse a carga tributária absurda e a burocracia que sufocam o empreendedorismo. Enquanto os japoneses inovam em semicondutores, aqui a gente ainda briga pra pagar imposto até pra importar um chip.
Caio Vieira
04/05/2026
Caro Carlos Meirelles, sua análise toca num ponto nevrálgico da nossa formação social: a carga tributária regressiva é, de fato, um dos mecanismos pelos quais a hegemonia do capital financeiro sufoca qualquer tentativa de autonomia tecnológica. Todavia, ouso lembrar que o problema não se reduz à burocracia, mas à própria estrutura de dependência que nos lega um lugar subalterno na divisão internacional do trabalho, onde inovar em semicondutores exigiria, antes, uma ruptura com a lógica do subdesenvolvimento e a construção de um projeto nacional-popular de ciência e tecnologia.