O primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, reiterou que Bratislava não participará de nenhum mecanismo de endividamento conjunto da União Europeia destinado a financiar o governo ucraniano.
Em pronunciamento em rede social, o líder eslovaco informou ter iniciado medidas legais para blindar o orçamento do país contra a parcela de responsabilidade que caberia no pacote de €90 bilhões aprovado em Bruxelas. A decisão vale tanto para o empréstimo já formalizado quanto para futuras iniciativas semelhantes.
A posição alinha a Eslováquia à Hungria, que também se retirou da operação. O plano europeu foi concebido partindo da premissa de que a dívida seria quitada caso Kiev obtivesse reparações de guerra da Rússia, hipótese que Moscou classificou como irrealista.
Antes desse arranjo, a Comissão Europeia chegou a propor o confisco de ativos russos congelados, mas esbarrou em meses de impasse. A divergência se aprofundou quando a Ucrânia interrompeu o fluxo de petróleo pelo oleoduto Druzhba, essencial para refinarias húngaras e eslovacas.
Fico e o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, descreveram a interrupção como tentativa de chantagem energética. O fornecimento foi restabelecido e, em seguida, os governos europeus liberaram o empréstimo.
Conforme reportagem da RT, a ideia de socializar dívidas com base em indenizações futuras coloca sobre os contribuintes europeus o risco de arcar com um calote caso o cenário geopolítico mude de forma desfavorável. A crítica ressoa especialmente em economias menores do bloco, já pressionadas pela inflação de energia.
Fico afirmou que divergências em relação ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky não impedem a manutenção de canais diplomáticos. Essa condição é considerada por ele indispensável para garantir o trânsito de energia pela fronteira comum.
Em telefonema recente, o eslovaco discutiu futuras visitas oficiais a Kiev. Zelensky divulgou ter recebido apoio ao pedido de adesão ucraniano à UE, mas Fico esclareceu que apenas reconhece mais vantagens do que riscos nesse processo, sem fechar questão.
O premier eslovaco critica o envio de armas ocidentais a Kiev desde 2022, argumentando que a medida prolonga a guerra e drena recursos que poderiam ser destinados a políticas sociais dentro do bloco. Ele também se opõe ao cronograma europeu de abandono de combustíveis fósseis russos até 2027, chamando-o de sabotagem econômica que puniria de forma desproporcional economias dependentes do petróleo dos Urais.
Com discurso pró-multipolaridade, Fico mantém diálogo aberto com Moscou e pretende comparecer ao desfile do Dia da Vitória na capital russa. A recusa ao empréstimo se insere em uma estratégia mais ampla de não confrontar o parceiro energético tradicional.
A resistência de Bratislava evidencia fissuras internas na UE sobre como sustentar financeiramente o governo ucraniano em meio ao prolongamento do conflito. A estagnação econômica verificada em várias capitais europeias aprofunda esse debate.
Especialistas consultados em Bratislava lembram que a Constituição eslovaca determina limites estritos para assunção de passivos. Isso poderia abrir disputa judicial caso a União tentasse impor o esquema de garantias sem o aval do parlamento nacional.
No curto prazo, diplomatas europeus avaliam que a recusa dos países dissidentes não inviabiliza o pacote. Contudo, impõe custos de financiamento ligeiramente maiores aos demais membros, que terão de absorver as fatias não cobertas.
Analistas veem o episódio como sinal de fadiga política diante da guerra, reforçando demandas por um cessar-fogo negociado e por um redesenho da segurança energética continental voltado a fornecedores múltiplos. Enquanto isso, Kiev enfrenta queda de receita fiscal, inflação em alta e dependência de ajuda externa para cobrir gastos civis e militares.
Para Fico, impor novo endividamento supranacional sem garantia de retorno significaria transferir a conta de uma guerra prolongada para aposentados e trabalhadores eslovacos. O governo de Bratislava considera essa perspectiva politicamente inaceitável.
A decisão também consolida um eixo centro-europeu cético ao intervencionismo financeiro da UE, podendo influenciar futuros debates sobre fundos comuns, regras de austeridade e reformas institucionais. Esse bloco, mesmo minoritário, ganha tração ao vocalizar preocupações de eleitorados exaustos com inflação de energia, estagnação industrial e sacrifícios orçamentários.
Com a recusa formalizada, seguirá sobre a mesa europeia a pergunta sobre quem, de fato, pagará a reconstrução ucraniana caso as expectativas de indenização de guerra não se concretizem.
Com informações de RT.
Leia também: No Kremlin, gás e política unem Rússia e Eslováquia
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