A dívida em poder do público nos Estados Unidos ultrapassou o tamanho da própria economia americana, um marco que recoloca em debate a sustentabilidade fiscal de Washington.
Segundo dados citados pelo Metrópoles, a dívida chegou a US$ 31,27 trilhões, enquanto o PIB acumulado em 12 meses ficou em US$ 31,22 trilhões. Na prática, o endividamento atingiu 100,2% do Produto Interno Bruto.
O dado é relevante porque mostra que a maior economia do planeta já deve mais aos investidores do que produz em um ano. Não se trata apenas de contabilidade pública. É um sinal de pressão sobre juros, orçamento, moeda e poder geopolítico.
O Departamento do Tesouro dos EUA informa diariamente o estoque da dívida federal. No dado mais recente disponível na base “Debt to the Penny”, a dívida em poder do público aparecia acima de US$ 31,27 trilhões, enquanto o total da dívida federal, incluindo obrigações internas do governo, passava de US$ 38,9 trilhões.
O Bureau of Economic Analysis, órgão oficial de estatísticas econômicas dos EUA, informou que o PIB real americano cresceu a uma taxa anualizada de 2% no primeiro trimestre de 2026. O avanço mostra que a economia ainda cresce, mas não no ritmo necessário para aliviar a pressão da dívida.
A comparação histórica aumenta o peso do número. O Escritório de Orçamento do Congresso, o CBO, projeta que a dívida em poder do público deve subir de 101% do PIB em 2026 para 120% em 2036. O recorde anterior foi de 106% em 1946, logo após a Segunda Guerra Mundial.
A diferença é política e econômica. Nos anos 1940, o endividamento americano estava ligado ao esforço de guerra e foi seguido por décadas de expansão industrial. Agora, o crescimento da dívida vem de déficits persistentes, juros mais altos e gastos obrigatórios em alta.
O CBO estima déficit federal de US$ 1,9 trilhão em 2026, equivalente a 5,8% do PIB. Também projeta despesas de US$ 7,4 trilhões, ou 23,3% do PIB, contra receitas de US$ 5,6 trilhões, ou 17,5% do PIB.
Esse desequilíbrio limita a margem de manobra de Washington. Quanto mais o governo americano precisa rolar dívida, maior tende a ser a disputa por recursos no mercado financeiro. Isso pode pressionar juros globais e encarecer crédito para países emergentes.
Para o Brasil, o tema não é distante. A dívida americana influencia o custo do dólar, o fluxo de capitais, os preços de commodities e a política monetária em países que dependem de financiamento externo ou de comércio internacional dolarizado.
Também há uma dimensão geopolítica. A capacidade dos EUA de emitir a principal moeda de reserva do mundo ainda oferece uma vantagem que nenhum outro país possui. Mas uma dívida crescente pode acelerar debates sobre alternativas ao dólar, especialmente entre China, Rússia, países do BRICS e economias que buscam reduzir vulnerabilidades financeiras.
O sinal é claro: a potência que sustenta parte da ordem econômica global carrega uma dívida maior que sua produção anual. Para o Brasil, acompanhar esse movimento é questão de soberania econômica, estratégia externa e defesa de uma inserção internacional menos dependente das decisões fiscais de Washington.


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