O ex-embaixador indiano Talmiz Ahmad afirmou, em entrevista ao programa ‘In Conversation with Salman Khurshid’, da RT Índia, que o Ocidente atravessa um processo de desintegração e perda de credibilidade. Segundo ele, a aliança ocidental encontra-se em desordem e os Estados Unidos não conseguem mais sustentar o papel de árbitro global.
Ahmad, que serviu como embaixador da Índia na Arábia Saudita, em Omã e nos Emirados Árabes Unidos, projetou que China e Rússia ocuparão posições políticas e diplomáticas mais relevantes nos assuntos internacionais no período seguinte às atuais tensões no Oriente Médio. O diplomata argumentou que a reorganização do tabuleiro geopolítico já está em curso e exige resposta indiana à altura.
O ex-embaixador defendeu que Nova Délhi precisa se envolver de forma muito mais ativa nos assuntos do Oriente Médio, lembrando que a Índia depende da região do Golfo para 70% a 80% de seu petróleo. Ele alertou que qualquer interrupção nas rotas marítimas representa risco direto à segurança energética indiana e que o país não pode se dar ao luxo de assistir passivamente a uma eventual conflagração regional.
Ahmad sustentou que a troika Rússia-Índia-China, conhecida como RIC, deveria ocupar o centro da política externa indiana. Para o diplomata, a proximidade de Moscou tanto com Pequim quanto com Nova Délhi assegura equilíbrio e oferece um canal natural de mediação caso surjam atritos entre indianos e chineses.
O ex-embaixador também afirmou que a Índia deve concentrar atenção total nos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai (SCO), classificando o Quad e o G20 como arranjos superados pela nova realidade geopolítica. Segundo Ahmad, o RIC funciona como núcleo estruturante dos BRICS e por isso merece prioridade estratégica de Nova Délhi.
A análise do diplomata se inscreve em um momento de evidente desconforto da Índia com as pressões americanas sobre suas compras de energia russa e sobre seu posicionamento autônomo nos foros multilaterais. A íntegra da conversa está disponível no portal da RT em sua versão internacional.
Ahmad observou ainda que a credibilidade americana foi corroída por sucessivas intervenções militares e pelo apoio incondicional a operações no Oriente Médio, fator que estaria acelerando a busca de potências por arranjos alternativos. Para o ex-embaixador, a janela de oportunidade para a Índia consolidar sua autonomia estratégica é justamente o momento atual de reconfiguração das alianças.
O diplomata reforçou que a SCO e os BRICS oferecem à Índia uma plataforma para dialogar com vizinhos asiáticos e com economias emergentes sem a tutela ocidental. Ahmad concluiu que o futuro da diplomacia indiana passa por abandonar reflexos atlantistas e abraçar a integração eurasiática como vetor central de política externa.
Com informações de RT.
Leia também: Ex-embaixador indiano denuncia decadência do Ocidente e exalta protagonismo de Rússia e China
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João Pereira
06/05/2026
A Vanessa e a Clarice trouxeram pontos sólidos, mas acho que falta um dado concreto: a Índia nunca vai abrir mão da parceria militar com os EUA (veja o acordo COMCASA e o exercício Malabar). O Talmiz Ahmad pode até ter razão sobre o declínio relativo do Ocidente, mas esse tal eixo Rússia-Índia-China é mais wishful thinking diplomático do que aliança real — Nova Déli e Pequim têm uma fronteira sangrenta e uma rivalidade estratégica que não vai sumir por decreto.
Vanessa Silva
06/05/2026
A Mariana e a Clarice já trouxeram dados sólidos, então vou direto ao ponto: o Talmiz Ahmad não está fazendo futurologia barata, está apenas lendo as curvas do tabuleiro. Enquanto a OTAN patina em incoerência e o dólar perde tração como reserva única, o BRICS+ já negocia em moedas locais e o RIC (Rússia-Índia-China) movimenta mais de um terço da população mundial. Quem acha que isso é “teoria da conspiração” é porque não acompanha os relatórios do Banco Mundial nem as atas do G20. O Ocidente não vai “cair no Pix” de ninguém, mas o declínio relativo é matemática básica, não opinião.
Luisa Teens
06/05/2026
Fora Bolsonaro! Enquanto isso o Brasil queimando e o Luan preocupado com o Pix dele #fimdahegemoniaocidental
Mariana Alves
06/05/2026
A análise do ex-embaixador Talmiz Ahmad não é um exercício de futurologia mística, mas sim uma leitura lúcida das contradições internas do capitalismo contemporâneo. O que ele descreve como “desintegração do Ocidente” é, na verdade, a manifestação visível de uma crise estrutural que venho discutindo em sala de aula: a financeirização descontrolada, o esgotamento dos mecanismos keynesianos de gestão de crise e a incapacidade do bloco atlântico de renovar seu pacto social desde 2008. A hegemonia ocidental não cai por vontade de líderes carismáticos em Moscou ou Pequim; ela se desfaz porque o centro do sistema já não consegue mais extrair sobretaxas de exploração na periferia sem gerar instabilidade sistêmica. O BRICS não é uma conspiração, é uma necessidade histórica.
A reação do Luan Silva é sintomática de um fenômeno que eu chamo de “consumo ideológico de curto prazo”. Reduzir a geopolítica a uma transação individual (“caiu no meu Pix”) é o ápice do pensamento neoliberal privatizado: tudo vira serviço, tudo vira entrega imediata, inclusive a política externa. O Ocidente não é uma loja que fecha as portas e dá liquidação; é um sistema de acumulação que, quando entra em crise, transfere o custo para o Sul Global via juros, guerra cambial e imposição de regimes de austeridade. Torcer pelo colapso ocidental como quem espera um cashback é não entender que, na ausência de uma alternativa organizada, a crise do centro gera mais fome, mais guerra e mais desemprego na periferia.
A Clarice Historiadora já apontou com precisão os dados objetivos: o PIB combinado dos BRICS já supera o do G7 em paridade de poder de compra. Mas é preciso ir além do dado bruto. O que está em jogo não é apenas uma mudança de polo econômico, mas a possibilidade de construir relações internacionais que não reproduzam a divisão internacional do trabalho imposta pelo colonialismo. A aliança Rússia-Índia-China, por mais contraditória que seja — afinal, temos ali um regime burguês nacionalista indiano, um capitalismo de Estado chinês e um capitalismo oligárquico russo —, representa ao menos a recusa em aceitar a narrativa unipolar como destino manifesto.
O Carlos Henrique Silva, com seu referencial gramsciano, tocou no ponto central: a hegemonia não é apenas força militar ou econômica, é também capacidade de fazer com que o dominado consinta com sua própria dominação. Quando o Ocidente perde credibilidade, perde exatamente esse soft power que mantinha o consenso. O problema é que a alternativa que se desenha no horizonte não é automaticamente progressista. O eixo Rússia-Índia-China pode simplesmente substituir uma hegemonia por outra, com novas hierarquias regionais e novas formas de exploração. Cabe à esquerda mundial, e particularmente à intelectualidade brasileira, não apenas celebrar o declínio ocidental, mas disputar o conteúdo dessa nova ordem que está sendo gestada.
Luan Silva
06/05/2026
Esse indiano aí tá precisando de um choque de realidade: Ocidente caiu no meu Pix? Brasil acima de tudo, faz o L nunca mais.
Clarice Historiadora
06/05/2026
Luan, seu comentário é tão raso que nem dá pra chamar de análise. Enquanto você repete jargão de WhatsApp, o BRICS movimenta 40% da economia global e a Índia já ultrapassou o Reino Unido em PIB. Mas continue torcendo pro Ocidente cair no seu Pix, vai.
Carlos Henrique Silva
06/05/2026
Luan, seu comentário é sintomático de um fenômeno que Gramsci chamaria de “consenso fabricado”: você repete o bordão “Ocidente caiu no meu Pix” como se a geopolítica fosse uma transação financeira individual. O problema é que você confunde hegemonia com assistencialismo. O fim da hegemonia ocidental não significa que o dinheiro vai pingar na sua conta amanhã; significa que a ordem mundial construída sobre o colonialismo, o Consenso de Washington e a exploração imperialista está ruindo. Enquanto você espera um Pix, a Índia, a China e a Rússia estão redesenhando as cadeias globais de valor, criando alternativas ao dólar e construindo instituições paralelas ao FMI. O Brasil, se tiver um projeto nacional minimamente coerente, pode se beneficiar desse novo arranjo — mas não com ufanismo de WhatsApp e nostalgia de um “Brasil acima de tudo” que nunca existiu para quem não é elite.
Você diz “faz o L nunca mais”, mas o que o “L” representava, em tese, era justamente uma tentativa de inserção soberana do Brasil nesse mundo multipolar. O governo Bolsonaro, que você parece defender, transformou o Brasil em pária diplomático, alinhou-se cegamente aos EUA e entregou a Amazônia como moeda de troca por migalhas. O resultado foi isolamento, desindustrialização e recorde de fome. O ex-embaixador indiano está olhando para o horizonte de 20, 30 anos, enquanto você mede o mundo pelo saldo do seu Pix semanal. Isso não é “choque de realidade” — é miopia política travestida de pragmatismo.
A esquerda crítica que eu represento sempre alertou: a hegemonia ocidental não cai por decreto nem por pix. Ela cai porque o capitalismo global está em crise orgânica, porque o centro dinâmico da acumulação se deslocou para a Ásia e porque as potências emergentes, com todos os seus defeitos autoritários e contradições internas, estão construindo uma nova arquitetura de poder. O seu “Brasil acima de tudo” é vazio de conteúdo se não vier acompanhado de um projeto de desenvolvimento, de soberania energética, de integração sul-sul. O ex-embaixador indiano está falando de estratégia; você está falando de meme. Um não substitui o outro.