O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, declarou que a República Islâmica não se submeterá à vontade dos Estados Unidos, destacando a força espiritual e política do mundo muçulmano e xiita. Em mensagem publicada em suas redes sociais, difundida em persa, árabe e inglês, o mandatário iraniano afirmou que os muçulmanos já se renderam ao Todo-Poderoso e que, por isso, ninguém mais tem o poder de forçá-los à submissão.
A declaração ocorre em meio a forte tensão entre Teerã e Washington, marcada pela presença militar americana no Oriente Médio e pelas ameaças reiteradas contra o programa nuclear iraniano. Pezeshkian sustentou que o único idioma compreendido pelas potências ocidentais é o da força, razão pela qual o Irã segue investindo em sua capacidade de dissuasão.
Em conversa telefônica com o recém-nomeado primeiro-ministro do Iraque, Ali Falih al-Zaidi, o presidente iraniano pediu que os líderes regionais aconselhem os Estados Unidos a retirar a ameaça militar da região. Pezeshkian reforçou que os seguidores da escola xiita não podem ser obrigados a se render mesmo diante de pressões externas, evocando uma tradição de resistência que remonta aos fundamentos religiosos da República Islâmica.
Segundo o portal RT, a postura iraniana representa uma resposta direta às tensões crescentes na região. A presença militar dos EUA tem sido apontada por Teerã como o principal fator de instabilidade.
A retórica de Pezeshkian se alinha à doutrina histórica da liderança iraniana, que vê na resistência um pilar da soberania nacional e da identidade religiosa do país. O presidente também enfatizou que a defesa territorial e a proteção dos interesses nacionais não são objeto de negociação sob coação.
Para Teerã, ceder à pressão americana significaria abrir mão de décadas de construção de autonomia estratégica. A região é historicamente marcada pela interferência ocidental e pela exploração de seus recursos energéticos.
O discurso de Pezeshkian se insere em um contexto geopolítico mais amplo, em que Washington tenta sustentar sua hegemonia no Oriente Médio. Os EUA enfrentam o desgaste de sua imagem internacional pela cumplicidade com a ofensiva israelense em Gaza.
A defesa que os EUA fazem de uma suposta ordem baseada em regras soa cada vez mais oca aos olhos das nações da região, que assistem ao financiamento americano de operações militares com elevado custo civil. O chefe de Estado iraniano destacou ainda a importância da articulação entre os países muçulmanos para frear o que classificou como agressões sistemáticas contra os povos da região.
A aproximação com o novo governo iraquiano integra esse esforço, em um momento em que Teerã busca consolidar uma frente diplomática capaz de equilibrar a presença militar dos EUA em bases instaladas no território do Iraque, da Síria e do Golfo Pérsico. A mensagem de Pezeshkian também tem dimensão interna, ao reafirmar perante a sociedade iraniana que o governo não recuará diante de sanções econômicas ou ameaças militares.
A República Islâmica enfrenta há anos um regime severo de sanções impostas pelos Estados Unidos, que afetam setores como petróleo, finanças e medicamentos. Segundo o discurso oficial, essas medidas fortaleceram a resiliência produtiva do país.
Ao reiterar que o Irã não se rende, Pezeshkian reforça uma narrativa que combina convicção religiosa, soberania política e oposição firme ao imperialismo. A declaração soma-se ao coro crescente de lideranças que questionam a legitimidade da ordem unipolar liderada por Washington e defendem um sistema internacional mais equilibrado e multipolar.
Com informações de ACTUALIDAD.
Leia também: Irã declara que afundará navios dos EUA se Washington tentar controlar o estreito de Ormuz
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


Cristina Rocha
06/05/2026
Cristina (60, SP)
Luciana, você tocou num ponto central: quem paga o pato é sempre o povo. Mas acho que precisamos ir além dessa constatação e perguntar por que a estrutura internacional está montada de forma que um país como o Irã precise fazer esse “joguinho de ego”, como você disse, para não ser simplesmente engolido pelo capitalismo imperialista. A declaração do Pezeshkian não é sobre ego, é sobre soberania, um conceito que a esquerda precisa resgatar sem romantizar regimes teocráticos.
O problema do discurso de “não me rendo” é que ele esconde uma contradição interna brutal. O Irã é um país com uma riqueza cultural imensa, uma história de resistência anticolonial que deveria nos inspirar, mas ao mesmo tempo é uma teocracia que reprime mulheres, persegue intelectuais e sustenta um aparato militar que drena recursos que deveriam ir para educação e saúde. Não dá para fazer uma leitura maniqueísta: os EUA são o império predatório, sim, mas o regime iraniano também é um instrumento de dominação de classe e de gênero. A luta anti-imperialista não pode ser um cheque em branco para qualquer regime que se coloque contra Washington.
A Maria Silva tem um ponto que merece ser debatido sem o tom agressivo que ela usou. A ditadura religiosa iraniana é um fato, e o sofrimento do povo iraniano sob as sanções é real. Mas atribuir isso exclusivamente ao “cabresto” interno é ignorar que as sanções dos EUA são um instrumento de guerra econômica, um bloqueio criminoso que impede o Irã de importar medicamentos e alimentos. É uma arma de destruição em massa contra a população civil. O FMI e as tentativas de abertura nos anos 90, como a Maura lembrou, só mostraram que a “solução” neoliberal proposta pelo Ocidente é tão ou mais cruel que a opressão doméstica. O que o povo iraniano precisa não é de mais sanções ou de mais aiatolás, é de uma esquerda internacionalista que condene ambos os lados e lute por um Irã laico, democrático e soberano.
Portanto, a frase do Pezeshkian tem um valor tático de resistência, mas não pode ser o nosso horizonte político. Nós, do lado de cá, precisamos apoiar o direito do Irã de não se submeter aos EUA, mas também precisamos denunciar a opressão interna e apoiar as lutas do povo iraniano por liberdade, especialmente das mulheres. É uma posição incômoda, porque exige que a gente ande na corda bamba entre o anti-imperialismo e a crítica radical ao patriarcado e à teocracia. Mas a filosofia política nunca foi feita para nos dar conforto, e sim para nos obrigar a pensar a totalidade das contradições.
Luciana
06/05/2026
Maria Silva, você tem razão que o povo iraniano sofre com as sanções, mas quem tá de fora vê essa briga de ego entre dois países e quem paga o pato é sempre o povo. Enquanto eles ficam nesse joguinho de “não me rendo”, o preço do gás de cozinha lá deve estar um absurdo, igual aqui quando a política externa esquenta.
Maria Silva
06/05/2026
Esse povo aí fica de mimimi com “colonialismo” e “hegemonia”, mas a real é que o Irã é um cabresto de ditadura religiosa que vive de fazer média com os xiitas enquanto o povo morre de fome. Quer desafiar os EUA? Então para de choramingar sanção e abre a economia, vende petróleo sem amarras, deixa o povo trabalhar. Enquanto ficar nessa de “força espiritual”, vai continuar sendo o jegue que berra alto mas não sai do lugar.
Maura Santos
06/05/2026
Maria Silva, falou bonito, mas esqueceu de contar que o Irã já tentou abrir a economia nos anos 90 e o que aconteceu foi o FMI arrochando o povo enquanto os aiatolás mantinham o poder. O problema não é “força espiritual”, é que sanção dos EUA não cai porque eles querem seu petróleo de graça, não porque o Irã é teocrático. Quer ver o povo trabalhar? Tira o bloqueio e para de bancar monarquia do Golfo que financia terrorista.
Fernando O.
06/05/2026
Marcos, você tocou num ponto que pouca gente encara de frente: os EUA têm um histórico de meter o bedelho onde não são chamados e ainda saem de vítima. Mas também não dá pra ignorar que o Irã gasta uma fortuna com milícias no Líbano e no Iêmen enquanto o povo lá come poeira com inflação de 40%. Resistir à pressão externa é legítimo, mas a conta sempre sobra pro cidadão comum, não pros aiatolás.
Marcos Andrade Niterói
06/05/2026
João Carlos, você foi cirúrgico. A galera que repete o discurso pronto do “eixo do mal” ignora que os EUA têm um histórico de desestabilizar países soberanos pra roubar petróleo e impor ditaduras de araque. O Irã não é santo, mas resistir à chantagem de Washington é o mínimo diante de décadas de sanções criminosas. Aqui em Niterói a gente sabe bem o que é gestão competente versus intervenção estrangeira disfarçada de “ajuda”.
João Carlos da Silva
06/05/2026
Julia, você trouxe um contraponto necessário. Reduzir a política externa iraniana a mero “terrorismo” ignora séculos de história colonial e a assimetria de poder na geopolítica do petróleo. Gramsci já nos alertava que o discurso do “valentão” é muitas vezes a ferramenta do hegemônico para deslegitimar a resistência do subalterno. O problema não é a retórica de Pezeshkian, mas o fato de que, sem uma real autonomia econômica e política, essa “força espiritual” acaba servindo mais à manutenção do regime do que à emancipação do povo iraniano.
Maria Antonia
06/05/2026
Mais um ditador teocrático bancando o valentão às custas do próprio povo. Enquanto o Irã gasta rios de dinheiro financiando terrorismo no Oriente Médio, a população vive sob sanções e miséria. Se o regime não se render, que ao menos liberte os iranianos para decidirem o próprio futuro sem a tutela dos aiatolás.
Julia Andrade
06/05/2026
Maria Antonia, entendo sua indignação com a retórica belicosa do regime iraniano, mas acho que precisamos complexificar um pouco essa leitura. Quando você reduz a política externa do Irã a um “ditador teocrático bancando o valentão”, acaba reproduzindo a mesma lógica orientalista que o Ocidente sempre usou para desumanizar movimentos de resistência no Sul Global. O discurso de Pezeshkian não surge do nada — ele é herdeiro direto de uma história de intervenções estrangeiras, golpes e humilhações que remontam ao golpe de 1953 contra Mossadegh, orquestrado pela CIA e pelo MI6, justamente porque ele ousou nacionalizar o petróleo iraniano. A teocracia iraniana é autoritária, sim, e isso precisa ser criticado sem meias palavras, mas o “desafio aos EUA” não é apenas bravata: é também a memória viva de um país que aprendeu, na pele, que ceder às pressões de Washington geralmente resulta em mais exploração e menos soberania.
Sobre o financiamento de grupos como Hezbollah e Hamas, é importante lembrar que o Irã os enquadra como parte de uma “resistência” contra a ocupação israelense e a influência saudita-americana na região. Não estou defendendo esses grupos nem sua violência sectária, mas precisamos reconhecer que essa política não é irracional: ela responde a uma geopolítica onde o Irã está cercado por bases militares americanas no Iraque, Afeganistão, Catar, Barein e Emirados Árabes. O regime iraniano vê o financiamento a esses atores como uma forma de dissuasão assimétrica — um jeito de garantir que qualquer agressão externa tenha um custo alto. Isso não justifica a repressão interna, que é brutal e fere mulheres, jovens e ativistas, mas ajuda a entender por que a teocracia não vai “se render” tão cedo: para eles, render-se equivaleria a um suicídio político e estratégico.
Quanto ao povo iraniano e sua vontade, concordo plenamente que ele merece decidir o próprio futuro — e os protestos de 2022, com mulheres e jovens nas ruas gritando “Mulher, Vida, Liberdade”, mostraram que há uma demanda real por transformação. Mas acho ingênuo achar que essa libertação viria simplesmente com o fim do regime ou com uma rendição aos EUA. A população iraniana é diversa, tem orgulho de sua história e de sua civilização milenar, e muitos iranianos — inclusive os que odeiam o governo — desconfiam profundamente das intenções americanas. Sanções econômicas não enfraquecem apenas o regime; elas sufocam a sociedade civil, impedem o acesso a medicamentos, destroem a classe média e fortalecem justamente os setores mais duros do regime, que usam o sofrimento para justificar o discurso de que “o Ocidente quer nos destruir”. Se queremos apoiar o povo iraniano, talvez o caminho não seja torcer por mais pressão militar ou econômica, mas sim defender a diplomacia, o fim das sanções unilaterais e o fortalecimento de redes transnacionais de solidariedade que respeitem a autonomia dos iranianos para construir seu próprio futuro — com ou sem aiatolás, mas sem tutela de ninguém, seja de Teerã ou de Washington.