O CEO da OpenAI, Sam Altman, passou cerca de duas horas no banco das testemunhas em um tribunal federal de Oakland, na Califórnia, em depoimento marcado por um interrogatório duro sobre sua confiabilidade pessoal. O advogado de Elon Musk, Steven Molo, dedicou quase 20 minutos a uma única pergunta-chave: ‘Você é totalmente confiável?’, ao que Altman respondeu apenas ‘acredito que sim’.
O episódio é o ponto alto do julgamento que opõe Musk, dono da Tesla e da xAI, à OpenAI que ele ajudou a fundar em 2015. O bilionário nascido na África do Sul processou a empresa e Altman em 2024, acusando o laboratório de ter abandonado seu compromisso original de operar como organização sem fins lucrativos voltada ao ‘benefício da humanidade’.
Segundo o portal Olhar Digital, Altman descreveu durante o depoimento um ‘momento particularmente angustiante’ vivido com Musk ainda nos primeiros anos da OpenAI. Os cofundadores teriam perguntado ao dono da Tesla o que aconteceria com o controle de uma eventual versão lucrativa da empresa caso ele viesse a morrer, e Musk respondeu que o poder passaria para seus filhos.
‘Eu não me sentia confortável com isso’, afirmou Altman, complementando que sempre acreditou que ‘a inteligência artificial não deveria estar sob o controle de uma única pessoa’. O CEO sustentou que Musk queria assumir o domínio completo do laboratório e discutia repetidamente como transformá-lo em empresa de mercado.
Entre as opções colocadas pelo bilionário estava a fusão da OpenAI com a Tesla, sua montadora de carros elétricos, antes de seu rompimento com a startup em 2018. A operação teria eliminado o status de organização sem fins lucrativos do laboratório, algo que Altman afirmou ter buscado evitar desde o início.
A questão central do julgamento é justamente se a OpenAI deve ou não permanecer como entidade sem fins lucrativos. Musk acusa Altman de ‘roubar uma instituição de caridade’ ao acoplar uma estrutura comercial à organização original e aceitar bilhões de dólares em investimentos da Microsoft, comandada por Satya Nadella.
O advogado Molo também tentou enquadrar Altman como alguém que diz às pessoas apenas o que elas querem ouvir. ‘Você é o tipo de pessoa que simplesmente diz às pessoas o que elas querem ouvir, independentemente de ser verdade ou não?’, questionou, antes de listar investimentos pessoais do executivo em empresas que se beneficiariam da relação com a OpenAI.
Entre os negócios citados está a Helion Energy, companhia de energia de fusão que mantém contratos tanto com a OpenAI quanto com a Microsoft. A linha de ataque busca mostrar que Altman teria conduzido a startup priorizando ganhos próprios, e não a missão filantrópica original.
A confiabilidade do executivo ganhou peso adicional no processo por causa de um episódio ocorrido em 2023, quando o conselho da OpenAI o afastou brevemente da empresa. À época, os diretores alegaram que Altman ‘nem sempre dizia a verdade’ ao colegiado, em uma crise que mobilizou o setor de tecnologia em escala global.
Em sua defesa, Altman respondeu aos próprios advogados afirmando que, ‘em todas as etapas do processo’, tentou maximizar o valor da estrutura sem fins lucrativos. ‘Não existem muitos exemplos históricos de uma organização sem fins lucrativos dessa magnitude’, acrescentou o executivo, tentando justificar o desenho híbrido adotado pela companhia.
Documentos do processo também revelaram a tensão crescente entre Musk e Altman após a ampliação bilionária do investimento da Microsoft no capital da empresa. Em mensagem ao então sócio, Musk reclamou diretamente do movimento, classificando o discurso de manutenção do caráter filantrópico como ‘propaganda enganosa’.
Antes do depoimento de Altman, o presidente do conselho da OpenAI, Bret Taylor, retomou seu testemunho iniciado na véspera. Taylor afirmou que a tentativa de Musk de comprar os ativos da startup, feita no início de 2025 por cerca de 97,4 bilhões de dólares, surpreendeu o colegiado e contradizia os argumentos da própria ação judicial movida pelo bilionário.
‘Não achamos apropriado que uma única pessoa controlasse nossa missão’, resumiu Taylor ao explicar por que a proposta foi rejeitada pelo conselho. O julgamento expõe a disputa pelo comando do setor mais estratégico da tecnologia mundial, com Musk concorrendo diretamente via xAI no mesmo mercado em que tenta desmontar a estrutura jurídica da rival.
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Carlos Rocha
13/05/2026
Marcos, o dia em que o Estado entregar “infraestrutura real” sem sugar até a alma do contribuinte você me avisa. E Samara está certa no essencial: nessa briga de titãs, ninguém está preocupado com ética, é só disputa por monopólio.
Paulo Ribeiro
13/05/2026
Carlos, permita-me um contraponto que talvez incomode sua premissa, mas que me parece incontornável: quando você reduz a disputa entre Musk e Altman a “só disputa por monopólio” e conclui que ninguém está preocupado com ética, você está certo no diagnóstico superficial, mas erra fragorosamente no recorte. Porque essa ausência de ética não é um defeito moral dos indivíduos envolvidos — é a própria ética do capital em estado puro. O que está em jogo nesse tribunal não é a falta de escrúpulos de dois bilionários, mas a manifestação cristalina de um sistema que transforma qualquer discussão sobre bem comum em fachada jurídica para acumulação privada. Antonio Gramsci nos ensinou que a hegemonia se constrói exatamente assim: as classes dominantes não precisam ser cínicas conscientemente — o sistema produz uma “filosofia espontânea” em que a busca pelo lucro aparece como inovação, progresso, até mesmo como salvação da humanidade. A IA ética de que fala Altman e o “bem da humanidade” que Musk invoca são o que Louis Althusser chamaria de ideologia em ato — a representação da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência. Eles podem até acreditar no que dizem; isso não torna menos verdade que o resultado concreto é concentração de poder.
Quanto ao Estado “sugar até a alma do contribuinte”, confesso que essa formulação me soa mais como um chiste de botequim do que como categoria analítica. O Estado no capitalismo não é um parasita externo — ele é parte constitutiva da acumulação. Aliás, foi exatamente o Estado que financiou a pesquisa básica que tornou a IA possível; foram contratos públicos que garantiram escala a essas empresas; e é a arquitetura jurídica estatal que permite que disputas como essa se travem em tribunais e não nas ruas. O problema não é o Estado em si, mas a captura dele por interesses privados. José Carlos Mariátegui, pensando a partir da periferia do capitalismo, já advertia que a luta não é contra o Estado como abstração, mas contra o Estado como comitê executivo da burguesia — e, acrescento eu, da burguesia tecnológica que surge com Silicon Valley. Quando Elon Musk compra uma rede social para amplificar a extrema-direita e desestabilizar democracias, como bem lembrou o Marcos, ele não está operando fora do Estado: está usando a própria estrutura estatal (ausência de regulação, brechas fiscais, lobby) para moldá-lo à sua imagem e semelhança.
O que essa briga entre Musk e Altman revela — e aqui Samara tocou num ponto que merece ser aprofundado — é que o “coração” desses homens está, sim, em seus tesouros, mas esses tesouros não são apenas dinheiro: são infraestruturas de poder que definirão o destino de bilhões de pessoas. Reduzir isso a um ceticismo confortável do tipo “todos são iguais” é desistir de disputar o sentido da tecnologia. A esquerda que você e o Eduardo ironizam como “lacradora” está, mal ou bem, tentando construir uma regulação democrática, um controle social sobre esses instrumentos. Pode ser insuficiente, concordo; mas a alternativa que vocês oferecem é o quê, exatamente? A celebração resignada do monopólio porque “ambos os lados são ruins”? Isso não é análise — é rendição. E rendição, cá entre nós, é o que o capital mais deseja de nós.
Eduardo Nogueira
13/05/2026
Altman pagando de visionário iluminado mas na hora do vamo ver o advogado do Musk desmontou o castelo de cartas. Esse papo de IA ética é só cortina de fumaça pra esquerda lacradora enquanto os caras surfam na grana fácil.
Marcos Andrade Niterói
13/05/2026
Eduardo, curioso você invocar credibilidade quando o cliente do advogado é um bilionário que compra rede social pra amplificar extrema-direita e desestabilizar democracias. A diferença é que a esquerda que você chama de lacradora está entregando infraestrutura real — aqui em Niterói o Rodrigo Neves perfurou túnel no maciço da Charitas enquanto o governo estadual negava metrô sob a baía. Ética pra mim se mede em obra entregue e tarifa justa, não em palanque de bilionário.
Samara Oliveira
13/05/2026
Eduardo, me diga uma coisa: o senhor realmente acredita que a corrupção tem lado político? O Evangelho me ensina que onde o tesouro está, ali está o coração — e nessa briga de bilionários por controle de tecnologia, os dois lados parecem bem mais preocupados com seus próprios impérios do que com o povo que vai sofrer as consequências dessa concentração de poder.