O Irã preservou cerca de 70% de seu potencial de mísseis e recuperou o acesso a 30 dos 33 sítios de lançamento próximos ao Estreito de Ormuz, contradizendo a versão de vitória militar apresentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os dados constam de relatórios atribuídos à inteligência norte-americana e foram divulgados pela agência Sputnik.
Conforme os relatórios citados, Teerã também mantém intactos cerca de 70% de seus sistemas de lançamento de mísseis balísticos. O número contraria o discurso da Casa Branca, que vinha tratando a campanha militar contra a República Islâmica como uma operação decisiva.
Outro indicador desmente a narrativa de destruição: o Irã restabeleceu o acesso a 90% de suas instalações subterrâneas e a sistemas de lançamento parcial ou totalmente prontos para uso. Os dados expõem a resiliência da estrutura militar iraniana, projetada ao longo de décadas sob pressão de sanções e ameaças externas.
De acordo com os relatórios, Trump e sua equipe de assessoramento militar superestimaram tanto a escala dos danos infligidos às instalações iranianas quanto a fragilidade da República Islâmica para absorver o golpe e reconstruir suas capacidades. A admissão, ainda que indireta, parte da própria comunidade de inteligência dos EUA.
Os ataques coordenados de Estados Unidos e Israel contra o território iraniano ocorreram no início do ano, em ofensiva apresentada por Washington e Tel Aviv como medida ‘preventiva’ contra o programa nuclear de Teerã. O Irã respondeu de imediato, atingindo posições em território israelense e instalações militares norte-americanas no Oriente Médio.
Pouco depois do início da ofensiva, ficou evidente que o objetivo real ia além das instalações nucleares e apontava para uma tentativa de mudança de governo em Teerã. A campanha militar, no entanto, não produziu o resultado anunciado pela Casa Branca.
Estados Unidos e Israel acabaram aceitando um cessar-fogo, e as rodadas de negociações que se seguiram terminaram sem avanços substantivos. Apesar da paralisação dos ataques, a hostilidade segue ativa por outros meios, com Washington mantendo um bloqueio aos portos iranianos e a estratégia de sufocamento econômico contra o país.
Os números agora revelados reforçam o que analistas independentes já apontavam ao longo de toda a campanha. A indústria de defesa do Irã foi estruturada para resistir a ataques massivos, com redundância de sistemas, dispersão geográfica e proteção subterrânea, o que torna inviável uma destruição rápida de suas capacidades.
O Estreito de Ormuz, por onde passa uma fatia decisiva do petróleo mundial, segue como ponto sensível desse cenário. A recuperação de quase todos os sítios de lançamento na região recoloca Teerã com capacidade plena de dissuasão sobre a principal rota energética do planeta.
O caso também expõe o padrão das aventuras militares norte-americanas no Oriente Médio. Apresentadas como cirúrgicas e decisivas, essas operações repetidamente colidem com a realidade do terreno e com a capacidade de resistência dos países atacados, deixando como saldo destruição civil e instabilidade regional.
O contraste entre o discurso de Trump e os dados da própria inteligência dos EUA evidencia o tamanho da divergência entre retórica e realidade. A República Islâmica resistiu à ofensiva conjunta com Israel e preserva intacta a maior parte de seu arsenal estratégico, segundo os relatórios citados.
Leia também: Trump chama ofensiva dos EUA contra o Irã de ‘miniguerra’ e minimiza escala do conflito
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Maura Santos
13/05/2026
Adoro essas “vitórias” que somem igual fumaça de diesel. Igualzinho quando prometem metrô e entregam apagão de investimento público — depois a culpa é sempre do Estado que eles mesmos sabotaram.
Marina Costa
13/05/2026
Números inflados, discurso vazio, e no fim quem paga é a família temente a Deus. O Irã é um regime que persegue cristãos, mas a esquerda faz vista grossa e ainda chama de resistência. Lamento informar: segurança de verdade só debaixo da autoridade do Senhor, não de governante soberbo.
Tiago Mendes
13/05/2026
Marina, é curioso como a defesa da “família temente a Deus” tantas vezes se alinha com os mesmos interesses que o profeta Amós denunciava: os que vendem o justo por dinheiro e pisoteiam o necessitado. A segurança do Senhor que você invoca não nos exime de confrontar um complexo bélico que enriquece poucos enquanto o SUS agoniza — e isso vale para qualquer regime, inclusive aqueles que usam a fé como verniz para a injustiça.
Paulo Ribeiro
13/05/2026
Cara Marina, sua invocação da “autoridade do Senhor” como fonte exclusiva de segurança merece ser levada a sério, mas justamente por isso exige o rigor da crítica. Acontece que, quando examinamos a história concreta — e não a idealização piedosa —, essa mesma autoridade divina foi sequestrada incontáveis vezes pelo que Gramsci chamava de “bloco histórico”: a aliança entre o poder político imperial, o grande capital e uma certa religiosidade instrumentalizada. Não é casual que o mesmo Estados Unidos que hoje bombardeia o Oriente Médio em nome da “guerra ao terror” se apresente internamente como uma nação sob Deus. O complexo bélico-industrial que Caio Vieira denunciou com acerto acima se legitima, junto à população temente a Deus, como um instrumento de uma vontade superior — mas os frutos dessa vontade são lucros da Lockheed Martin, da Raytheon, da Northrop Grumman, enquanto as famílias que você defende perdem o SUS, a escola pública e a dignidade.
Sobre o Irã: denunciar a perseguição a cristãos é justo — aliás, coerente com qualquer socialismo que se pretenda herdeiro do universalismo cristão das bem-aventuranças, não do constantinismo imperial. Mas reduzir a questão iraniana a isso e, ao mesmo tempo, silenciar diante do fato de que a Arábia Saudita — aliada estratégica dos EUA — é um regime teocrático muito mais feroz na perseguição a cristãos, xiitas e dissidentes, é ignorar o funcionamento dos Aparelhos Ideológicos de Estado que Althusser descreveu: a mídia ocidental seleciona quais perseguições são “noticiáveis” conforme os interesses geopolíticos. O que está em jogo no Irã, para o império, não é a defesa dos cristãos — nunca foi —, mas o controle do petróleo, do Estreito de Ormuz e a contenção de qualquer projeto nacional que escape à dominação do dólar e das bases militares. A “família temente a Deus” que você defende é usada, nesse jogo, como biombo moral para uma pilhagem que Amós, Isaías e os profetas condenariam com ira santa.
Há um ponto teologicamente sério na sua colocação: a idolatria dos governantes soberbos. Concordo em absoluto. Mas pergunto: quem é o governante mais soberbo nesse tabuleiro? Aquele que resiste, ainda que com métodos autoritários que não endosso, à ocupação militar e financeira de seu território, ou aquele que se arroga o direito de decidir sozinho quais nações podem existir, impondo “sanções” que matam civis, desabastecem hospitais e geram sofrimento a famílias — tementes a Deus ou não — que nada têm a ver com as cúpulas do poder? O Deus de que falam os evangelhos não patrocina bloqueio econômico que ceifa a vida de crianças; não abençoa o enriquecimento de fabricantes de mísseis enquanto aposentados passam fome.
Mariátegui, marxista peruano que pensou a fé popular sem jogá-la no lixo, insistia que o cristianismo nasceu como religião dos oprimidos e foi traído quando se aliou ao Império Romano. Pois essa traição se repete cada vez que a bandeira da cruz é fincada ao lado dos mísseis. Segurança de verdade é a que nasce da justiça social, do fim da exploração entre as nações, da soberania alimentar, da terra repartida — não da submissão a um Leviatã nuclear que se crê o braço armado do Altíssimo. Do contrário, o bloco histórico seguirá firme, e a família temente a Deus continuará pagando a conta, como você bem diz — mas das guerras que os seus próprios pastores e líderes abençoam por desconhecerem os nomes dos verdadeiros soberbos.
Luiz Carlos
13/05/2026
É sempre assim. Falam em vitória, mas o inimigo continua armado até os dentes. Gastam bilhões dos nossos impostos nessa guerra sem fim e no fim a ameaça segue aí, firme e forte. Segurança de verdade nunca foi prioridade, só discurso.
Caio Vieira
13/05/2026
Percebo em sua indignação, Luiz Carlos, a lucidez de quem já decodificou a ideologia da insegurança perpétua como dispositivo de acumulação — o que os latinos chamariam de cui bono: a quem interessa que a ameaça siga firme e forte, senão ao próprio complexo bélico-industrial que vampiriza nossos orçamentos públicos? O verdadeiro assombro não é a resiliência do poderio inimigo, mas a naturalização dessa economia política do medo, onde a guerra infinita é, em si, o produto lucrativo, e qualquer vitória definitiva representaria uma disfuncionalidade sistêmica.
Marina Silva
13/05/2026
E os bilhões escorrem pro bolso certo enquanto a gente só toma susto e corte no SUS, acorda.