A combinação entre as tensões militares com o Irã, o impacto das tarifas comerciais e a instabilidade nas rotas do Estreito de Ormuz está cobrando uma fatura crescente da economia americana.
Dados oficiais do Índice de Preços ao Produtor (IPP) mostram que a inflação avança de forma ampla nos Estados Unidos, atingindo uma gama extensa de bens e serviços. Segundo análise do Axios sobre o mais recente relatório oficial de preços, citada pelo portal RT Actualidad, o IPP para a demanda final subiu 1,4% em abril em relação ao mês anterior, acumulando alta de 6% nos últimos doze meses.
Mesmo excluindo os setores considerados voláteis — alimentação, comércio e energia —, o indicador ainda registra variação anual de 4,4%, o maior patamar desde 2023. O setor de serviços lidera as altas, puxado por um aumento de 5% nos preços de transporte e armazenamento.
Esse encarecimento logístico revela que a instabilidade no mercado global de energia já contamina toda a cadeia produtiva americana. O custo de praticamente tudo que precisa ser movimentado ou estocado subiu.
O próprio Axios reconhece que se torna cada vez mais difícil atribuir o impulso inflacionário unicamente aos efeitos pontuais das tarifas e das perturbações no Estreito de Ormuz. A análise aponta que qualquer decisão de corte de juros pelo Federal Reserve estaria condicionada ao fim abrupto da tendência de alta da inflação ou a mudanças substanciais no mercado de trabalho americano.
O cenário se complica ainda mais no plano institucional. O presidente dos EUA, Donald Trump, indicou Kevin Warsh para presidir o Federal Reserve em substituição a Jerome Powell, que vinha sendo publicamente pressionado pelo presidente a reduzir as taxas de juros.
A aposta de Trump é que Warsh abra caminho para cortes nas taxas — medida historicamente usada por Washington para estimular a economia em momentos de desaceleração. O problema é que o contexto atual não favorece esse movimento.
A presidente do Federal Reserve de Boston, Susan Collins, foi categórica ao avaliar a situação: “Creio que provavelmente será importante manter a atual postura de política monetária ligeiramente restritiva por algum tempo. Mais de cinco anos de inflação acima da meta reduziram minha paciência para ignorar outro choque de oferta.”
Collins advertiu ainda que os EUA podem precisar endurecer ainda mais a política monetária para garantir que a inflação retorne de forma duradoura à meta de 2%. A declaração contraria diretamente os apelos de Trump por juros mais baixos e expõe a tensão crescente entre o Executivo e o banco central americano.
O quadro expõe uma contradição estrutural do modelo de política externa americana: ao tentar pressionar militarmente a República Islâmica do Irã e exercer controle sobre rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, Washington contribui para desestabilizar o próprio mercado global de energia do qual sua economia depende. O custo dessa estratégia não recai sobre os generais que planejam as operações nem sobre os lobistas que as financiam — recai sobre o trabalhador americano que paga mais caro no supermercado, no posto de gasolina e em cada produto que percorre uma cadeia logística encarecida pela instabilidade geopolítica.
Com informações de ACTUALIDAD.
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