A África não pode mais ser excluída da representação permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, declarou o presidente da Comissão da União Africana (UA), Mahmoud Ali Youssouf, em uma das mais contundentes investidas do continente contra a arquitetura de poder herdada do pós-Segunda Guerra. A fala foi feita durante reunião ministerial sobre a reforma do Conselho de Segurança, realizada às margens da Cúpula África-França, em Nairóbi.
Segundo o portal RT, Youssouf foi taxativo ao definir os termos da disputa diplomática. ‘A África não está pedindo um favor; a África está exigindo a correção de uma injustiça histórica’, afirmou o chefe da Comissão da UA, conforme nota oficial divulgada pelo bloco africano.
O dirigente vinculou diretamente a sobrevivência institucional do órgão à sua capacidade de se atualizar diante do novo equilíbrio global de forças. Para Youssouf, a ‘credibilidade e legitimidade’ do Conselho de Segurança dependem de o colegiado refletir ‘as realidades do mundo atual’, e não ‘a ordem geopolítica de 1945’, quando o continente africano sequer havia concluído seus processos de descolonização.
A posição da União Africana se ancora no chamado Consenso de Ezulwini e na Declaração de Sirte, ambos de 2005, que consolidaram a pauta histórica do continente sobre o tema. O bloco reivindica ao menos dois assentos permanentes africanos, com todos os poderes detidos pelos membros permanentes atuais, incluindo o direito de veto enquanto este instrumento existir, além de cinco cadeiras adicionais não permanentes.
Hoje, o Conselho de Segurança é composto por cinco membros permanentes, com poder de veto: China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos, ao lado de dez membros eleitos para mandatos de dois anos. Apesar de a África reunir 54 dos Estados-membros da ONU, mais de um quarto da organização, o continente segue sem qualquer assento permanente na cúpula decisória da governança global.
A ofensiva diplomática africana ganhou tração nos últimos meses, com lideranças do continente endurecendo o tom em diferentes fóruns. O presidente da República do Congo, Denis Sassou Nguesso, afirmou que o Conselho não reflete mais o equilíbrio geopolítico do mundo, enquanto o presidente do Quênia, William Ruto, defendeu publicamente a concessão de pelo menos dois assentos permanentes africanos com poder de veto pleno.
O próprio secretário-geral da ONU, António Guterres, tem reiterado em discursos sucessivos que a África precisa ter voz permanente no Conselho. O português sustenta que a instituição não acompanhou as transformações do sistema internacional desde 1945 e perdeu capacidade de responder às crises do século 21, da guerra na Ucrânia ao genocídio em curso em Gaza.
A Rússia tem se posicionado como uma das vozes mais ativas em favor da ampliação do Conselho para incluir mais Estados africanos, asiáticos e latino-americanos. O vice-representante permanente de Moscou junto à ONU, Dmitry Polyansky, declarou em cúpula do Comitê dos Dez da União Africana, realizada em Nova York, que o órgão precisa refletir a ‘natureza multipolar do mundo’ em vez de perpetuar ‘o passado colonial global’.
Polyansky reforçou que a Rússia apoia o pleito africano por maior representação, ao mesmo tempo em que advertiu contra qualquer movimento que amplie a participação ocidental no colegiado. A leitura russa converge com a defesa, sustentada também pelo BRICS, de uma reforma estrutural da ONU que reequilibre o peso decisório em favor do Sul Global e quebre o monopólio narrativo herdado da ordem de Yalta.
A disputa pela cadeira africana se insere em um movimento mais amplo de contestação à hegemonia do eixo euro-atlântico nas instituições multilaterais. Com o avanço do BRICS, a expansão de blocos regionais e a crescente articulação diplomática do continente, a pressão por uma ONU que reflita o século 21 deixa de ser retórica e passa a ser exigência política concreta sobre a mesa de Nova York.
Com informações de RT.
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Pedro Almeida
13/05/2026
É impressionante como a velha desculpa da “missão civilizadora” ressurge em cada geração com uma nova máscara. Condicionar o assento africano a um atestado de boa governança é reeditar o fardo do homem branco: primeiro o colonizado precisa provar que sabe administrar o caos que o próprio colonizador criou. A justiça histórica não é um exame de suficiência, e como bem lembrou Frantz Fanon, a descolonização não pede licença.
Cecília Ramos
13/05/2026
A Carmem e a Clarice trouxeram o cerne da questão: a justiça de Deus nunca foi sobre esperar o oprimido se tornar impecável para então lhe conceder voz. É doloroso ver cristãos usando miséria como argumento para silenciar um continente inteiro, como se o Evangelho não fosse sobre levantar o caído e restaurar a dignidade. A África não pede esmola, pede o que foi roubado por séculos de exploração — e se nossa fé não nos levar a lutar contra essa injustiça histórica, então precisamos rever a qual Jesus estamos seguindo.
Carmem Souza
13/05/2026
Fico triste quando vejo gente tratando justiça como se fosse um prêmio para os perfeitos. Se formos negar voz a quem tem problemas, todos nós ficaríamos calados. A África carrega cicatrizes de um pecado histórico, e reconhecer isso é um ato de humildade que nossa fé tanto ensina.
Roberto Lima
13/05/2026
O João pode ter exagerado nas palavras, mas acertou no espírito da coisa. Enquanto o continente não resolver problemas básicos de governança e parar de depender de ajuda externa, colocar mais um assento na ONU só serve para inchar ainda mais aquele antro de burocracia que a gente financia e nunca vê resultado. E essa tentativa da professora de dar lição de moral é típica de quem vive no mundo acadêmico e nunca precisou gerir um negócio de verdade.
Clarice Historiadora
13/05/2026
Interessante você invocar o “mundo dos negócios” como critério de verdade, Roberto. Foi exatamente gerindo a África como um grande negócio que a Conferência de Berlim, em 1884, dividiu o continente entre potências europeias sem que um único africano sentasse à mesa – e o resultado dessa administração primorosa foram genocídios coloniais, escravatura forçada e a extração que financiou a industrialização do seu “mundo real”. Aliás, se você lesse algo além de balancete, talvez soubesse que a sociologia também é um negócio: o tráfico negreiro foi a maior empresa transnacional da história, gerida com a eficiência empresarial que você tanto admira.
João Santos
13/05/2026
Ah, tá de brincadeira, né? A África cheia de corrupção, miséria pra todo lado e os caras querem cadeira cativa na ONU. Vão arrumar a própria casa primeiro, depois a gente conversa. Deus me livre de mais essa palhaçada.
Cristina Rocha
13/05/2026
Caro João, seu comentário carrega uma lógica que eu reconheço bem de décadas de sala de aula: a suposição de que o sofrimento causado pela miséria e pela corrupção deslegitima a voz política de quem sofre. Exigir que a África “arrume a própria casa” antes de reivindicar um assento permanente no Conselho de Segurança é repetir o gesto colonial mais clássico — o de tutela, o de condicionar a autonomia do colonizado a um estado ideal de pureza que jamais foi exigido das potências que hoje ocupam esses postos. Ora, a bagunça da casa africana não é um desleixo doméstico, como insinua seu sarcasmo. É a ruína arquitetônica deixada por séculos de rapina colonial, por políticas de ajuste estrutural impostas pelo FMI, pela deformação de Estados pós-independência que o Ocidente financiou e sabotou conforme interesses geopolíticos. Se corrupção e miséria fossem critério para exclusão, começando pelos cinco membros permanentes, precisaríamos de um expurgo histórico imediato: a França e o Reino Unido teriam que responder por suas aventuras neocoloniais no continente africano; os Estados Unidos, por intervenções e sanções que produziram fome e desestabilização; a Rússia e a China, por suas próprias formas de extrativismo predatório. A diferença, meu caro, é que para esses a “casa arrumada” se mede pelo poder militar e econômico, não pela virtude moral.
É precisamente essa assimetria que a União Africana denuncia. O Conselho de Segurança foi desenhado em 1945 como um condomínio fechado das potências vitoriosas de uma guerra mundial. Naquela época, a maior parte do continente africano ainda estava sob jugo colonial direto — Argélia, Congo, Angola, Moçambique, Quênia, para citar apenas alguns exemplos. A “injustiça histórica” mencionada na notícia não é mero lamento retórico: é a constatação de que a arquitetura da governança global foi erguida sobre a exclusão ativa de povos inteiros, que sequer eram considerados sujeitos de direito internacional. Quando você ridiculariza a demanda por uma cadeira cativa como “palhaçada”, está naturalizando essa exclusão fundante, como se a ordem mundial fosse uma hierarquia ontológica imutável. O pensamento pós-colonial nos ensina, desde Aimé Césaire até Frantz Fanon, que a descolonização não termina com bandeiras hasteadas; ela precisa alcançar as instituições que decidem guerra e paz, sanções e intervenções, quase sempre contra corpos negros e periféricos. Não se trata de ingresso num clube de elite: é uma disputa radical por justiça epistêmica — o direito de narrar o mundo e de decidir sobre ele a partir da posição dos historicamente silenciados.
Aprofundando ainda mais, sugiro que sua irritação tem gênero e raça. Quem é o sujeito implícito dessas “arrumações” que você exige? As elites africanas — muitas delas, aliás, cooptadas e sustentadas por interesses ocidentais — ou as mulheres, os camponeses, os trabalhadores informais que sustentam a vida no continente? A miséria que você aponta não é um atributo cultural; é o produto de uma divisão internacional do trabalho que autores como Aníbal Quijano chamam de “colonialidade do poder” — um sistema que racializa territórios e populações para extrair riqueza e concentrá-la nos centros imperialistas. Nessa estrutura, a África funciona como fornecedora de matérias-primas baratas e como mercado consumidor cativo, enquanto políticas de austeridade corroem serviços públicos e produzem a precariedade que sua fala transforma em falta de decoro político. Exigir que o continente se apresente imaculado diante dos mesmos atores que lucram com sua desorganização é cinismo. Adorno já nos alertava sobre a falsa projeção: o colonizador projeta no colonizado a barbárie que ele próprio pratica, e depois o acusa de ser inapto para civilizar-se. A demanda da União Africana, portanto, não é gentileza diplomática; é um ato de interrupção desse circuito de violência discursiva e material.
Termino com uma provocação genuína: por que a reação a um pedido de representação igualitária é tão frequentemente o riso, o deboche, a invocação de um “Deus me livre”? Talvez porque, como feminista marxista, eu saiba que sistemas de opressão não caem apenas por argumentos; eles se defendem com afetos: o escárnio é arma de manutenção da ordem. Não é à toa que os mesmos argumentos de “arrumar a casa” são usados contra movimentos de mulheres, povos indígenas, quilombolas, movimentos negros em todo o mundo. A fala da União Africana rompe com o script segundo o qual a política internacional é assunto de senhores brancos, e isso desestabiliza. Mas a história se move, João, e não pede permissão aos que se sentem confortáveis na injustiça. O assento permanente não é caridade: é um passo na longa marcha para que as instituições globais deixem de ser confessionários do poder imperial e passem a ser espaços minimamente democráticos. Se isso lhe parece “palhaçada”, talvez seja hora de rever o circo que você defende.