Emissários do Líbano e de Israel se reuniram em Washington para a terceira rodada de negociações diretas entre os dois países, com o objetivo declarado de construir uma paz duradoura entre duas nações historicamente em conflito. O encontro ocorre em meio a extrema tensão: o exército israelense conduziu dezenas de ataques aéreos contra cerca de vinte localidades no sul do Líbano, deixando ao menos 22 mortos — tudo isso apesar da trégua formalmente em vigor.
As múltiplas violações do cessar-fogo já acumulam mais de 400 mortos desde a entrada em vigor do acordo. Segundo dados do Conselho Nacional de Pesquisa Científica do Líbano, mais de 10 mil residências foram destruídas ou danificadas no país desde o início da trégua.
A retomada das conversações em Washington representa a terceira tentativa de negociação direta entre Beirute e Tel Aviv, num processo mediado pelos Estados Unidos. O objetivo anunciado é construir uma arquitetura de paz estável entre dois países que nunca firmaram um tratado formal e que vivem sob tensão permanente há décadas. A diplomacia avança, no entanto, sobre os escombros de uma trégua que nunca foi plenamente respeitada.
O contexto regional permanece explosivo, com as tensões entre Washington e Teerã em torno do programa nuclear iraniano adicionando uma camada de instabilidade ao quadro. O presidente dos EUA, Donald Trump, sinalizou que poderia reativar pressões para garantir a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz caso as negociações nucleares não avançassem, conforme reportagem do portal da Rádio França Internacional. O ministro das Relações Exteriores da República Islâmica do Irã, Abbas Araghchi, principal interlocutor de Teerã nas tratativas com potências ocidentais, deixou claro que o país não recuará diante de pressões externas.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, reforçou publicamente sua postura maximalista ao vincular qualquer perspectiva de distensão regional à questão do estoque de urânio enriquecido iraniano. A declaração lança sombras sobre qualquer avanço diplomático, já que Netanyahu condiciona o fim das hostilidades a uma exigência que Teerã jamais aceitou negociar sob coerção.
Com mais de 400 mortos desde a entrada em vigor da trégua e dezenas de milhares de famílias libanesas sem teto, a terceira rodada de negociações em Washington carrega o peso de uma crise humanitária que não para de crescer. Qualquer acordo que não imponha mecanismos reais de verificação e punição às violações corre o risco de ser apenas mais um papel assinado sobre ruínas.
Leia também: Israel intensifica ataques no Líbano e deixa pelo menos seis mortos
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Carlos Oliveira
14/05/2026
É sempre assim: a diplomacia de gabinete serve de biombo enquanto os corpos vão se acumulando no chão. Vinte e dois mortos não são “efeito colateral”, são a política real de quem negocia com uma mão e aperta o gatilho com a outra. O cinismo de Washington em sediar reuniões de paz enquanto financia o arsenal que mata civis libaneses é a síntese do que chamam de “ordem internacional”.
Cristina Rocha
14/05/2026
A cena é didática e perversa: enquanto as diplomacias encenam o teatro da paz em Washington, corpos são dilacerados no sul do Líbano. Vinte e dois mortos — número que pode parecer modesto nas estatísticas da brutalidade, mas que carrega a concretude de vidas interrompidas, famílias desfeitas, projetos existenciais cancelados pela lógica inexorável do poder militar. Estamos diante de mais um capítulo daquilo que a tradição crítica pós-colonial identifica como a retórica humanitária que legitima a continuidade da violência colonial. A negociação direta não suspende o bombardeio; ao contrário, frequentemente o intensifica, pois o agressor busca consolidar fatos no terreno antes que qualquer acordo limite suas ambições. Há uma coreografia macabra nesse sincronismo entre salas fechadas em Washington e mísseis cruzando o céu libanês.
Do ponto de vista do materialismo histórico, seria ingênuo tratar essa simultaneidade como mera coincidência ou falha de comunicação entre as esferas diplomática e militar. A negociação liberal opera historicamente como instrumento de administração da desigualdade, não como sua superação. Israel, enquanto Estado colonial assente no projeto sionista, mantém com os territórios árabes uma relação que não visa a paz entendida como coexistência soberana, mas a subordinação permanente, a fragmentação e a anexação gradual. A investida militar prepara o terreno para exigências nas mesas de negociação — é a gramática da chantagem imperial que aprendemos a decifrar desde as invasões napoleônicas, passando pela partilha da África, até as ocupações contemporâneas no Oriente Médio.
O comentário do Pedro Silva, com quem dialogo intelectualmente, acerta ao apontar o caráter espetacular dessas reuniões que nada resolvem. Mas talvez possamos radicalizar a análise: essas reuniões resolvem sim, resolvem para o lado mais forte, que ganha tempo, ganha legitimidade internacional e ganha a aparência de razoabilidade enquanto seus instrumentos de morte avançam. O Estado de Israel, forjado na Nakba e mantido pela ocupação, depende estruturalmente dessa dialética entre negociar e destruir. Como nos ensinou Aimé Césaire, a colonização coisifica o colonizador ao mesmo tempo que desumaniza o colonizado, criando uma engrenagem na qual a violência se torna a própria linguagem do vínculo — e a diplomacia, seu verniz civilizatório.
Infelizmente, a intervenção anterior do Zé Trovãozinho — com seu repertório rasteiro que mistura anticomunismo primário, chauvinismo belicista e desprezo pela autodeterminação dos povos — revela como essa lógica imperial encontra eco no senso comum autoritário brasileiro. A proposta de deportar grupos inteiros e a celebração da força bruta são sintomas de uma subjetividade colonizada que, não tendo elaborado as próprias feridas históricas (nós, brasileiros, vivemos séculos de escravidão e genocídio indígena), projeta no conflito alheio seus fantasmas mal resolvidos. Esse desejo de ver o outro aniquilado, de resolver pela eliminação, é a pulsão fascista que habita o coração da modernidade ocidental — e que encontra no sionismo contemporâneo uma de suas expressões mais acabadas, como tão bem analisaram os teóricos do colonialismo de povoamento, de Patrick Wolfe a Judith Butler.
É preciso acrescentar um recorte que frequentemente escapa às análises geopolíticas tradicionais: a dimensão generificada dessa violência. As guerras coloniais, e esta não é exceção, operam a partir de uma matriz patriarcal que converte os corpos femininos e infantis em alvos privilegiados — não por acaso, entre os 22 mortos certamente há mulheres e crianças, cujas existências são tornadas descartáveis pela maquinaria militar. A destruição de lares, hospitais e escolas atinge o cerne da reprodução da vida, do cuidado, do tecido comunitário que as mulheres historicamente sustentam. Toda negociação que não nomeie essa violência específica, que não traga para a mesa a questão do estupro como arma de guerra, do deslocamento forçado das mães, da orfandade produzida industrialmente, é uma negociação que pactua silenciosamente com o patriarcado armado.
Termino com uma provocação que gostaria de ver ecoar nas salas de Washington: de que paz se fala quando as mãos que assinam os acordos são as mesmas que autorizam os ataques? A paz verdadeira não se negocia entre desiguais — ela se constrói com o desmonte das estruturas de opressão, com a responsabilização dos agressores, com o direito ao retorno, com a soberania real sobre o território e o corpo dos povos historicamente violados. Fora disso, o que chamam de negociação de paz não passa de administração do extermínio com ar condicionado e cafezinho — e contra essa farsa a única resposta ética é a denúncia, a solidariedade internacionalista e o compromisso intransigente com a autodeterminação dos povos.
Pedro Silva
14/05/2026
Essa história de negociar paz enquanto os bombardeios continuam matando gente é típica, né. Lá eles fazem reuniãozinha em Washington e no sul do Líbano morre mais 22, não adianta nada. E olha os comentários aqui, um já querendo deportar meio mundo e o outro escrevendo igual bula de remédio. Tá tudo errado.
Zé Trovãozinho
14/05/2026
Enquanto isso no Brasil, o STF quer nos transformar em Cuba do Norte. Negociação pra quê? Israel tem que fazer igual e mandar logo esses terroristas pra Venezuela.
Mariana Alves
14/05/2026
Zé Trovãozinho, seu comentário opera uma condensação ideológica tão exemplar que merece ser dissecada com o rigor que toda formação discursiva reacionária exige. Em duas frases, o senhor consegue articular três operações típicas do pensamento autoritário contemporâneo: o falseamento analógico, a descontextualização geopolítica e a legitimação da violência como método de gestão do dissenso. Comecemos pelo “Cuba do Norte”. A expressão não tem lastro algum com a realidade institucional brasileira ou cubana, mas cumpre uma função retórica precisa — associar qualquer regulação do poder econômico ou defesa de direitos fundamentais a um espectro totalitário. É o velho anticomunismo de guerra fria reciclado para uso doméstico, que transforma a discussão sobre limites constitucionais ao capital num pânico moral sobre “ditadura do Judiciário”. O STF de hoje é, na verdade, um tribunal que majoritariamente referenda os marcos da governabilidade neoliberal — vide os votos em matérias como teto de gastos ou reforma trabalhista —, mas como Freud já ensinava, o mecanismo paranoico projeta no outro exatamente aquilo que não se quer reconhecer em si mesmo.
A segunda operação é ainda mais grave porque naturaliza o extermínio. Quando o senhor diz que Israel “tem que fazer igual e mandar logo esses terroristas pra Venezuela”, está advogando, sob o véu do sarcasmo, pela lógica da limpeza étnica como solução administrativa. Note bem: não há qualquer distinção entre combatentes e civis, entre Hamas e população libanesa, entre culpados e inocentes. O bombardeio que matou 22 pessoas no sul do Líbano enquanto negociadores estão em Washington — e que provavelmente vitimou crianças, idosos, trabalhadores — é, em sua chave interpretativa, apenas “mandar os terroristas” para algum lugar. Essa indistinção entre sujeitos políticos e corpos matáveis é o que Achille Mbembe, ao teorizar a necropolítica, identifica como o fundamento do poder colonial contemporâneo: a criação de zonas onde a morte de certas populações não é apenas permitida, mas ativamente desejada como espetáculo de ordem. Não é à toa que a Venezuela aparece como destino do “descarte” — o país bolivariano funciona, no imaginário da direita continental, como significante vazio para todo mal que desafia a arquitetura neoliberal.
O que conecta essas duas pontas — a denúncia do STF e o aplauso à violência israelense — é uma concepção schmittiana da política como relação amigo-inimigo, na qual o Estado de Direito é um estorvo a ser suspenso sempre que atrapalha os interesses do “nós” autoproclamado. É a exata racionalidade que embala os golpes parlamentares, as intervenções militares e os discursos de “bandido bom é bandido morto” por aqui. O neoliberalismo, quando encontra resistência popular organizada ou instituições que insistem em manter algum vestígio de pacto civilizatório, não hesita em flertar com sua própria negação — o fascismo. E o faz mantendo as formas democráticas como casca, enquanto o conteúdo já é pura exceção. O senhor apenas verbaliza, com o despojamento de quem se sente à vontade na barbárie, aquilo que os think tanks financiados por Koch e companhia formulam em linguagem técnica: que a democracia é um luxo incompatível com a acumulação flexível e que as populações sobrantes precisam ser contidas — seja pelo Judiciário instrumentalizado, seja pelos drones que “mandam” gente para a morte sem precisar nomeá-la. É um projeto de sociabilidade que tem método, história de classe e endereço certo. E resistir a ele exige, no mínimo, que não nos acostumemos a achar graça quando alguém defende a morte como logística.