O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, realizou orações talmúdicas no complexo da mesquita de Al Aqsa, em Jerusalém. A ação ocorreu na área de Bab al-Rahma, local sagrado para muçulmanos, e foi acompanhada por cânticos islamofóbicos de grupos israelenses.
Vídeos do episódio mostram Ben-Gvir dançando com colonos judeus sob proteção policial. A presença do ministro no local, um dos principais templos do Islã, foi considerada provocação por palestinos e países muçulmanos.
Segundo o portal Actualidad RT, a visita ocorre em momento de alta tensão entre israelenses e palestinos. Líderes palestinos condenaram a ação como tentativa de alterar o status quo da região.
A mesquita de Al Aqsa, na Cidade Velha de Jerusalém, é ponto de fervor religioso e político. O local é administrado pelo Waqf Islâmico, mas Israel controla o acesso, gerando constantes conflitos.
Ben-Gvir, condenado por incitação ao racismo, defende a expansão de assentamentos na Cisjordânia. Sua presença em Al Aqsa é vista como provocação deliberada para aumentar as tensões.
O governo de Israel, liderado por Benjamin Netanyahu, enfrenta críticas internacionais por suas políticas nos territórios palestinos. A comunidade internacional manifesta preocupação com a escalada de violência e a estagnação do processo de paz.
Leia também: Ministro israelense de extrema direita Ben-Gvir faz visita inflamatória a Al-Aqsa
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João Martins
15/05/2026
É sempre interessante ver como uma coreografia religiosa vira ato político da noite para o dia. Itamar Ben-Gvir sabe exatamente o que faz: rezar no horário errado, no lugar errado e com a coreografia certa para incendiar os ânimos. Isso não é espontaneidade religiosa, é provocação calculada. O Monte do Templo/Haram al-Sharif é o ponto mais sensível do conflito israelo-palestino, e qualquer alteração no status quo de 1967 dispara alarmes não só na Palestina, mas em todo o mundo árabe. Estudos do International Crisis Group mostram que ações unilaterais nesse perímetro elevam significativamente o risco de escalada violenta nas semanas seguintes. Não é questão de “direito de rezar” – ninguém questiona que judeus possam orar no local. A questão é que um ministro da Segurança Nacional, que controla a polícia de fronteira, usar seu cargo para liderar uma incursão com cânticos que a própria polícia classifica como islamofóbicos transforma o ato em declaração de política de Estado.
O argumento da soberania israelense sobre o Monte do Templo é juridicamente frágil. Jerusalém Oriental é considerada território ocupado pela comunidade internacional, incluindo a Corte Internacional de Justiça e o Conselho de Segurança da ONU em resoluções como a 478 e 2334. Israel anexou a área unilateralmente em 1980, mas nenhum país reconhece essa anexação. O status quo de 1967 foi estabelecido justamente para evitar que o controle militar israelense desse lugar a provocações sectárias. Ben-Gvir não está reafirmando soberania – está desafiando um arranjo que, por mais imperfeito que seja, tem funcionado como válvula de escape. A pergunta que fica é: qual o objetivo prático disso? Não muda fronteiras, não derruba o Hamas, não traz segurança. Só alimenta o ciclo de radicalização mútua que já matou milhares de civis dos dois lados.
Aliás, o tal “direito à oração” que o Major Ricardo Silva defende com tanta empáfia ignora um ponto chato da história: quando Israel controlou a Esplanada das Mesquitas entre 1967 e 2000, o rabinato-chefe israelense proibiu judeus de rezar no local por questões haláchicas – o Segundo Templo foi destruído e sua localização exata é incerta, então pisar na área poderia violar leis judaicas de pureza. Esse consenso rabínico só começou a ruir nas últimas duas décadas com grupos nacionalistas-religiosos que usam a arqueologia bíblica como combustível político. Ben-Gvir é produto desse movimento, não expressão de uma tradição judaica milenar. Dados do Pew Research indicam que a maioria dos judeus israelenses sequer visita o Monte – a demanda pelo “direito de orar” é majoritariamente ativista.
No fim, o que temos é uma coreografia que serve a todos os atores extremistas. Para Ben-Gvir, é combustível eleitoral junto à base radical – ele vive em torno de 8-10% nas pesquisas. Para o Hamas e a Jihad Islâmica, é justificativa perfeita para novos ataques, como vimos nos episódios de 2021 e 2022. Para a Autoridade Palestina, é oportunidade de se apresentar como defensora dos lugares sagrados enquanto perde legitimidade interna. E para a comunidade internacional? Silêncio ou resoluções vagas que ninguém aplica. O dado concreto é que, desde que Ben-Gvir assumiu o ministério em dezembro de 2022, as incursões de colonos e ativistas no complexo aumentaram mais de 50% em relação ao ano anterior, segundo o escritório da ONU para coordenação humanitária. Ações têm consequências, e essas consequências geralmente não são rezadas para longe.
Major Ricardo Silva
15/05/2026
A esquerda chora, mas Israel tem todo o direito de reafirmar sua soberania no Monte do Templo. Enquanto isso, por aqui, o pessoal do PCdoB defende invasão de terra alheia e chama isso de “resistência”. Ordem e respeito aos valores tradicionais, sempre.
Mariana Alves
15/05/2026
Caro Major Ricardo Silva, sua defesa da “soberania israelense” no Monte do Templo ignora um detalhe incômodo: Jerusalém Oriental é território ocupado desde 1967, segundo o direito internacional e inúmeras resoluções da ONU que Israel simplesmente desrespeita. Ações de ministros rezando e dançando em uma mesquita não são “reafirmação de soberania”, mas provocação deliberada contra uma população que já vive sob ocupação militar há mais de meio século. Seu discurso de “ordem e respeito aos valores tradicionais” soa vazio quando a tradição em questão é a de um Estado etno-religioso que opera um sistema de apartheid, como documentaram a ONU, a Anistia Internacional e o Human Rights Watch. A soberania que você invoca não é democrática, é a soberania do mais forte sobre o mais fraco, amparada por um projeto colonial que a esquerda critica não por “choro”, mas por coerência anti-imperialista.
Quanto à comparação com o PCdoB e a luta pela terra no Brasil, você comete um equívoco teórico elementar: confunde resistência armada com invasão de propriedade alheia. O movimento camponês brasileiro ocupa latifúndios improdutivos que descumprem a função social da terra, um princípio constitucional. Já a resistência palestina, em suas múltiplas formas, enfrenta uma ocupação militar que nega o direito básico de autodeterminação. Não há simetria moral ou jurídica entre um sem-terra que luta por reforma agrária e um colono israelense armado pelo Estado que toma casas de famílias palestinas sob a proteção de tanques. Seu discurso de “valores tradicionais” é seletivo: defende a tradição judaica no Monte, mas silencia sobre a tradição islâmica e cristã igualmente enraizada ali, ou sobre a tradição secular do direito internacional que proíbe anexação territorial pela força.
O que está em jogo, major, não é “choro” de esquerda, mas a recusa em aceitar que soberania não pode ser exercida sobre corpos e territórios alheios como se fossem propriedade privada. Enquanto você celebra a performance de um ministro numa mesquita ocupada, crianças palestinas são presas, casas são demolidas e a água é racionada — tudo em nome de uma “ordem” que beneficia apenas um lado. A luta por justiça social, seja na Palestina ou no Brasil, não é birra ideológica: é a constatação material de que sistemas de opressão se retroalimentam. E é por isso que, ao contrário do que sugere, a crítica ao Estado de Israel não é antissemitismo, mas solidariedade de classe com os oprimidos, onde quer que estejam.