O livro ‘Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea’, da pesquisadora e jornalista Mariana Filgueiras, revela a crescente representação das trabalhadoras domésticas na literatura brasileira. A obra mapeia 37 personagens de obras publicadas entre 1859 e 2024, destacando a complexidade e o protagonismo que essas personagens vêm ganhando após um século de invisibilidade.
Filgueiras, em entrevista ao Opera Mundi, comenta que a literatura brasileira está passando por uma ‘revisão simbólica e estética’ desde 2015, impulsionada pela ascensão social dos filhos dessas trabalhadoras. Essa mudança é atribuída às políticas públicas que ampliaram a mobilidade social no Brasil, permitindo que as histórias dessas mulheres fossem contadas por seus descendentes.
O estudo foi realizado na Universidade Federal Fluminense (UFF) e orientado pela professora Eurídice Figueiredo. Ele utiliza um repertório teórico feminista, anti-racista e contra-colonial, além de oferecer um panorama histórico sobre o trabalho doméstico no país. Filgueiras enfatiza que não se trata de uma moda literária, mas de um aprendizado para enxergar o Brasil de forma mais ampla e descolonizada.
Durante a pandemia, a pesquisa ganhou ainda mais relevância, visto que as trabalhadoras domésticas foram uma das categorias mais afetadas. Elas enfrentaram riscos elevados de exposição ao vírus e, muitas vezes, não foram liberadas por seus empregadores, o que resultou em situações de vulnerabilidade.
Filgueiras destaca que, historicamente, a literatura brasileira ignorou o potencial dramático das trabalhadoras domésticas, que são majoritariamente mulheres negras e mães solos. No entanto, a partir de 2015, essas personagens começaram a ganhar espaço como protagonistas, refletindo uma mudança simbólica significativa na sociedade brasileira.
A obra também analisa como a representação dessas mulheres evoluiu ao longo do tempo. No início, elas eram frequentemente objetificadas, sexualizadas e infantilizadas, mas autores contemporâneos estão trazendo narrativas mais complexas e realistas. Exemplos disso são os romances ‘Perifobia’ de Lília Guerra e ‘Solitária’ de Eliana Neves Cruz, que exploram os conflitos e a vida cotidiana dessas mulheres.
Filgueiras conclui que a literatura brasileira está em um momento de transformação, com novas histórias e personagens que desafiam estereótipos e ampliam a imaginação dos leitores. O livro ‘Quirinas’ está disponível gratuitamente no site da editora Pangeia, oferecendo um guia poderoso para aqueles que desejam entender melhor a representação das trabalhadoras domésticas na literatura nacional.
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