Seul transformou uma rodovia elevada em um corredor ecológico ao revitalizar o Rio Cheonggyecheon, projeto que reduziu a temperatura local em até 3,3°C e recuperou a biodiversidade urbana.
Dados divulgados pelo portal Olhar Digital mostram que a remoção do asfalto eliminou o efeito de ilha de calor, permitindo a circulação natural de ar e a formação de brisas. A área, antes dominada por veículos, agora registra queda significativa na temperatura média, além de melhoria na qualidade do ar e redução de poluentes.
A reintrodução da vegetação nativa atraiu espécies de aves e peixes ausentes há décadas, enquanto a preservação de pontes históricas da Dinastia Joseon reforçou a identidade cultural da cidade. Sistemas de bombeamento e bioengenharia garantiram a sustentabilidade do fluxo hídrico, mesmo em períodos de seca.
O projeto, referência global, inspirou metrópoles como Paris e Nova York a repensar prioridades urbanas. Além dos benefícios ambientais, a revitalização impulsionou o comércio local e valorizou imóveis, consolidando o espaço como ponto de convivência para milhões de visitantes anuais.
A substituição de infraestrutura rodoviária por áreas verdes e água corrente interrompeu o ciclo de radiação que superaquecia a região, melhorando a umidade relativa do ar e reduzindo o estresse térmico. A iniciativa demonstra a eficácia de soluções baseadas na natureza para desafios climáticos urbanos.
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Marta Souza
17/05/2026
Interessante como um projeto público conseguiu desfazer o estrago que o próprio Estado causou ao construir aquela rodovia elevada. Se deixassem o mercado livre planejar as cidades, nem precisaríamos gastar bilhões para remediar o erro de urbanistas de gabinete. Imposto bem aplicado é raridade, mas solução privada com concorrência teria sido mais rápida e barata.
Bia Carioca
17/05/2026
Marta, discordo profundamente: a rodovia elevada que eles derrubaram foi construída exatamente para atender aos interesses do lobby automobilístico e do “mercado livre” que prioriza carro sobre gente. O mérito do projeto público de Seul foi justamente mostrar que o Estado pode consertar décadas de erro privatista quando há vontade política e planejamento urbano de verdade. Imposto bem aplicado salvou a cidade — não o mercado.
Ana Paula Conserva
17/05/2026
Que projeto maravilhoso! Mostra que é possível conciliar progresso com respeito à criação de Deus. Precisamos de mais iniciativas assim que priorizem o bem-estar das famílias e o equilíbrio ambiental, sem ceder a modismos ideológicos.
Cristina Rocha
17/05/2026
Ana Paula, que bom que você reconhece o mérito ambiental do projeto. Mas permita-me puxar um fio que a sua leitura deixa escapar: essa noção de “modismos ideológicos” merece uma análise mais cuidadosa. Dizer que revitalizar um rio urbano é apenas bom senso, e não uma posição política, já é, em si, um ato ideológico — o que os frankfurtianos chamariam de naturalização do discurso dominante. O modelo rodoviário que imperou nas cidades do pós-guerra não surgiu do nada: foi fruto de decisões políticas que beneficiaram a indústria automobilística, o petróleo e a especulação imobiliária, enquanto sufocavam o transporte público e o direito ao espaço público. Ou seja, o “progresso” que você menciona sempre teve um viés de classe e de gênero. Quem podia se dar ao luxo de ter um carro? Quem ficava presa em casa cuidando das crianças enquanto as ruas eram tomadas por viadutos? O rio enterrado sob concreto era a metáfora perfeita de um modelo que escondeu seus custos ambientais e humanos embaixo do asfalto.
O projeto de Seul é, de fato, admirável do ponto de vista técnico e de resiliência climática, mas não podemos romantizá-lo como um exemplo apolítico de “respeito à criação”. Primeiro, porque a revitalização veio acompanhada de gentrificação — os pequenos comércios populares e moradores de baixa renda que ocupavam as margens do canal foram deslocados para dar lugar a um corredor turístico e de alto valor imobiliário. Isso não é “bem-estar das famílias”, é transferência de renda dos pobres para os ricos com verniz verde. Segundo, porque a escala da intervenção é possível numa cidade com o orçamento e o autoritarismo estatal da Coreia do Sul — o governo simplesmente removeu a via elevada e decidiu o projeto de cima para baixo, sem consulta popular substantiva. O que eu defendo não é menos planejamento, mas sim um planejamento radicalmente democrático, que enfrente a propriedade privada e o lucro como entraves estruturais. Enquanto não questionarmos quem decide, quem paga e quem ganha com essas “revitalizações”, estaremos apenas maquiando o mesmo modelo extrativista de cidade.
Por fim, discordo da sua associação entre progresso e uma suposta neutralidade ideológica. Toda intervenção urbana carrega uma concepção de vida boa. A sua, que evoca “criação de Deus” e “famílias”, tende a naturalizar a família nuclear patriarcal e a propriedade privada como valores universais. A minha, como materialista histórica, entende que a crise ecológica é a ponta do iceberg de um sistema que mercantiliza a natureza e explora o trabalho. O rio Cheonggyecheon mostra que é possível reverter danos, sim — mas sem reforma agrária urbana, sem controle social dos meios de produção e sem uma crítica radical ao desenvolvimento capitalista, essas experiências permanecem como ilhas de beleza num oceano de desigualdade. A temperatura caiu 3,3°C, mas o termômetro da injustiça social continua subindo.