Assim como a Itália, o país enfrenta rendimentos crescentes de títulos públicos e uma base de investidores cada vez mais volátil
Quatorze meses. Esse número, aparentemente trivial, carrega um peso histórico considerável: representa a duração média de um governo italiano no período pós-Segunda Guerra Mundial. Durante décadas, a Itália serviu como exemplo clássico de nação politicamente fragmentada, incapaz de sustentar lideranças duradouras. Hoje, porém, esse retrato ganha um protagonista inesperado — o Reino Unido.
A tradição britânica sempre foi associada à solidez institucional. Westminster, o sistema bipartidário, a monarquia constitucional — tudo isso criou uma imagem de país inabalável. Entretanto, ao longo da última década, o tempo médio de mandato dos primeiros-ministros britânicos caiu para pouco menos de dois anos. Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e, mais recentemente, Keir Starmer desfilaram por Downing Street em um ritmo que envergonharia até o mais caótico dos gabinetes romanos.
Essa aceleração política não seria, por si só, um problema tão grave. O verdadeiro perigo está no que ela arrasta consigo: a instabilidade fiscal. Historicamente, governos que trocam de liderança com frequência tendem a comprometer a disciplina orçamentária — seja por falta de tempo para implementar reformas estruturais, seja pela tentação de agradar eleitores com gastos de curto prazo.
Nenhum episódio ilustra melhor essa correlação do que os 49 dias de governo de Liz Truss, em 2022. Sua proposta de um “mini” orçamento — expansivo e sem cobertura fiscal — provocou uma reação imediata dos mercados. O rendimento dos títulos britânicos de 30 anos disparou de menos de 3,4% para 5% em questão de semanas. Foi uma demonstração brutal de que os investidores globais não perdoam improviso fiscal, mesmo quando ele vem de uma das economias mais antigas do mundo.
Desde então, o cenário piorou. Com a incerteza em torno do futuro político de Starmer e de sua chanceler Rachel Reeves, somada à queda acentuada dos mercados provocada pela inflação gerada pela guerra com o Irã, os rendimentos dos gilts — como os britânicos chamam seus títulos públicos — subiram ainda mais. Na última contagem, eles chegaram a 5,8%.
Para efeito de comparação, o pico italiano durante a crise que derrubou Silvio Berlusconi chegou perto de 8%. Os britânicos ainda não chegaram lá. Mas a trajetória preocupa — e o temor dos investidores, agora, não é apenas de incompetência administrativa. É de que uma guinada à esquerda mais pronunciada em Downing Street leve a uma menor disciplina nas contas públicas.
Existe ainda outro paralelo com a Itália que merece atenção. Por décadas, Roma se preocupou com o fato de que uma parcela expressiva de sua dívida estava nas mãos de investidores estrangeiros — fundos de hedge, gestores internacionais e capitais voláteis que, ao menor sinal de turbulência, vendem posições sem hesitar. Estima-se que mais de 30% dos títulos do governo italiano pertençam a investidores de fora do país.
O Reino Unido caminhou na mesma direção. Segundo o Escritório de Gestão da Dívida (Debt Management Office), aproximadamente um terço dos gilts hoje está em mãos estrangeiras. Trata-se de um aumento expressivo em relação ao que se observava há uma década. Esse processo reflete, em parte, a própria internacionalização da economia britânica e a migração de investidores institucionais em direção a outros mercados — sobretudo os Estados Unidos.
O resultado prático é que a base de detentores de títulos públicos britânicos se tornou menos estável. Investidores estrangeiros reagem com mais velocidade a notícias políticas e ajustes macroeconômicos, o que amplifica a volatilidade dos rendimentos e eleva o custo de financiamento do Estado.
A Itália, diante de problema semelhante, recorreu a uma estratégia clássica: pressionar instituições financeiras nacionais a absorver mais títulos do governo, além de lançar emissões específicas voltadas para o investidor de varejo. Essa combinação ajudou a criar um colchão doméstico mais resistente às turbulências externas.
No Reino Unido, porém, as pressões têm seguido o sentido oposto. Mudanças nas regras das pensões e a progressiva redução dos planos de previdência com benefícios definidos diminuíram o apetite interno pelos gilts. Além disso, a reversão do programa de flexibilização quantitativa do Banco da Inglaterra — que envolvia a compra de títulos — reduziu ainda mais a base de sustentação da dívida pública.
Contudo, nem tudo está perdido. O banco Barclays apresentou recentemente ao governo uma proposta concreta: flexibilizar as regulamentações sobre o capital que os bancos precisam manter para compensar participações em títulos públicos. Segundo essa estimativa, a demanda por gilts poderia crescer em £150 bilhões, reduzindo os custos de financiamento em até £2,5 bilhões por ano.
Além disso, o governo poderia criar incentivos fiscais ou regulatórios para estimular o investimento doméstico em títulos públicos. A recente Lei dos Planos de Pensão foi alvo de críticas por tentar direcionar investimentos para capital privado — o que colide com o princípio do dever fiduciário. Mas nada impede a adoção de medidas que, sem forçar escolhas, tornem os gilts mais atrativos para investidores nacionais por meio do sistema tributário ou de outros mecanismos de incentivo.
Aqui o enredo ganha uma virada irônica. A Itália de hoje não é mais a mesma de décadas atrás. A dupla formada pela premiê Giorgia Meloni e pelo ministro das Finanças Giancarlo Giorgetti — que já acumula mais de três anos no cargo — manteve uma disciplina orçamentária surpreendente para os padrões históricos do país. Como recompensa, os juros dos títulos italianos de 30 anos estão hoje um ponto percentual abaixo dos britânicos. A instabilidade virou estabilidade. O aluno ultrapassou o professor.
Há, ainda, uma lição política que os investidores britânicos parecem ignorar seletivamente. Em 2018, os rendimentos dos títulos italianos dispararam quando Matteo Salvini — então vice-primeiro-ministro e líder populista de extrema-direita — sinalizou intenção de romper com a disciplina fiscal europeia. Os mercados puniram imediatamente. Os detentores de gilts demonstram, com razão, preocupação com a perspectiva de um governo de esquerda mais gastador no Reino Unido. No entanto, revelam um otimismo curioso — e talvez ingênuo — diante da possibilidade de ascensão de uma liderança reformista de direita, apesar dos paralelos evidentes entre Salvini e Nigel Farage.


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