Arqueólogos, químicos e experts têxteis da Finlândia transformaram a madeira de um naufrágio do século XVII em uma fibra têxtil, criando um vestido que une história e moda de forma inédita. A peça, desenvolvida ao longo de dois anos de colaboração entre cientistas e designers, representa uma inovação que traz o patrimônio cultural subaquático para o cotidiano das pessoas.
Minna Koivikko, arqueóloga marítima da Agência do Patrimônio Finlandês, descreveu a criação como quase um porta-voz da história com um toque moderno, destacando como a peça torna patrimônio cultural muitas vezes invisível parte do ambiente quotidiano.
O naufrágio, batizado como Hahtiperä, foi descoberto em 2019 na cidade finlandesa de Oulu, sendo construído com madeira de árvores que cresceram em 1684 nas florestas de Ostrobothnia, sudoeste da Finlândia. Após anos de trabalho de conservação, fragmentos de madeira sobraram e arqueólogos buscaram dar a eles uma segunda vida no século XXI.
Koivikko explicou que o navio sobreviveu apenas parcialmente e nem tudo pôde ser preservado, embora cada pedaço fosse documentado. A arqueóloga começou a questionar se os fragmentos de madeira ainda poderiam ser úteis, dando origem à ideia inovadora que resultou no vestido.
A bioengenheira Inge Schlapp-Hackl liderou o processo altamente técnico de converter a madeira com mais de 300 anos em fibra têxtil. Ela removeu a camada externa para expor o núcleo da madeira, que foi depois processado em polpa dissolvente utilizando o método patenteado Ioncell®.
O processo Ioncell® utiliza um solvente chamado líquido iônico para converter a celulose de tecidos velhos, polpa de madeira e jornais em fibras sem o uso de outros produtos químicos. As fibras resultantes possuem uma textura sedosa e são mais fortes que o algodão, como destacou Schlapp-Hackl.
A equipe utilizou um programa de design experimental para gerar padrões em um computador local, minimizando o consumo de energia e permitindo que o designer e a inteligência artificial trabalhassem em conjunto. Anna-Mari Leppisaari, especialista em têxteis da Universidade Aalto, projetou e tricotou dois vestidos idênticos com o fio produzido.
O padrão da superfície do vestido é inspirado na textura da madeira e no ruído digital, sendo tricotado em uma única peça tridimensional e sem emendas na máquina tricotadeira Shima Seiki para evitar desperdício de tecido.
Pirjo Kääriäinen, artista e designer têxtil da Universidade Aalto, destacou que o projeto busca conscientizar sobre a necessidade de reduzir o consumo de recursos naturais. Segundo ela, o vestido demonstra as possibilidades quando tecnologia e design são testados, incentivando o pensamento sobre consumo sustentável.
A peça será exibida a partir de 22 de maio no Museu de Arte de Oulu, enquanto sua gêmea será mostrada na exposição Designs for a Cooler Planet 2026 da Universidade Aalto a partir de 1º de setembro. A iniciativa revelada pela Popular Science demonstra como a ciência pode ressuscitar o passado de forma inovadora.
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