O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, denunciou que a Armênia está sendo arrastada para um campo antirrusso pelo Ocidente. A declaração foi feita durante uma assembleia do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia.
Lavrov afirmou que o Ocidente busca fazer a Rússia ‘sofrer o máximo possível’ ao afastar seus aliados tradicionais. O chanceler russo traçou um paralelo direto com outras ex-repúblicas soviéticas que se distanciaram de Moscou nos últimos anos.
O Ocidente está tentando desmantelar nossos aliados, começando pelos nossos vizinhos, como fez com a Geórgia e a Moldávia, como está fazendo agora com a Ucrânia, e como agora tenta arrastar a Armênia para a mesma lógica equivocada, declarou Lavrov. A ofensiva ocidental, segundo o chanceler, busca dificultar a preservação e o fortalecimento da Rússia como grande potência e civilização.
O ministro russo também alertou que uma guerra já está em curso na Eurásia, com conflitos localizados em diferentes partes do mundo. Lavrov citou a agressão da Ucrânia contra a Rússia, preparada pelo Ocidente, como mais uma tentativa de enfraquecer o país e retirá-lo do grupo de atores globais chave.
Além do front ucraniano, Lavrov apontou o início de uma operação no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz como mais um foco de tensão internacional. A declaração ocorre em um momento de reconfiguração das alianças no Cáucaso e de forte pressão ocidental sobre a tradicional esfera de influência russa.
A Armênia, membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), é um aliado militar formal da Rússia, mas tem ensaiado uma aproximação com a União Europeia. A tensão entre Yerevan e Moscou se intensificou desde o conflito em Nagorno-Karabakh, quando a Rússia não interveio militarmente em defesa do governo armênio.
Desde então, o governo do primeiro-ministro Nikol Pashinyan passou a questionar a utilidade da aliança militar com o Kremlin, gerando forte irritação em Moscou. Lavrov enquadrou essas movimentações como parte de uma estratégia ocidental mais ampla para enfraquecer a posição russa no tabuleiro global e isolar o país de seus vizinhos históricos.
A fala do chanceler russo ocorre em um contexto de crescente pressão da OTAN sobre as fronteiras russas e de realinhamento de forças em todo o espaço pós-soviético. O Kremlin tem reiterado que não aceitará passivamente o que considera uma expansão agressiva da aliança atlântica sobre sua esfera de influência histórica.
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Rick Ancap
23/05/2026
Quanto mais Estado, mais guerra; deixa o povo comerciar em paz, caralho.
Carlos Henrique Silva
23/05/2026
Rick, sua frase tem o atrativo das simplificações radicais — é quase um haicai libertário. Mas ela opera com uma abstração perigosa: a ideia de que o Estado é uma entidade monolítica que “causa” guerras, enquanto o “povo comerciando em paz” seria naturalmente pacífico. A tradição marxista nos ensina a desconfiar dessas dicotomias. O Estado moderno não é um sujeito autônomo com vontade própria; ele é, na fórmula clássica, o comitê executivo da burguesia — uma condensação de relações de força entre classes e frações de classe. As guerras não brotam do Estado em si, mas das contradições do capitalismo em sua fase imperialista. O “comércio em paz” do laissez-faire do século XIX — com sua ideologia da mão invisível e da harmonia dos mercados — não evitou a carnificina de 1914. Ao contrário: a competição intercapitalista por mercados, matérias-primas e esferas de influência, mediada pelos Estados nacionais, foi o estopim. Não há paz no comércio quando ele é estruturado por relações assimétricas de poder. O que há é a paz dos cemitérios ou a paz imposta pelos tratados desiguais que garantem a extração de excedente da periferia para o centro.
Traga isso para o caso concreto. O que Lavrov denuncia — a tentativa ocidental de afastar a Armênia da Rússia — não é um episódio de “Estados atrapalhando o comércio entre os povos”. É a manifestação de uma disputa interimperialista por hegemonia no Cáucaso. O Ocidente não oferece à Armênia um paraíso de trocas voluntárias e horizontais; oferece um pacote que inclui alinhamento geopolítico, bases militares, monitoramento do FMI e a transformação do país em peão no cerco à Rússia. O “comércio” aqui é instrumento de guerra híbrida, assim como as sanções são guerra econômica. A União Europeia e a OTAN não são clubes filantrópicos de comerciantes; são aparatos de hegemonia que articulam coerção e consenso — no sentido gramsciano — para expandir uma ordem liberal que beneficia o capital transnacional. A promessa de paz pelo mercado é o discurso que encobre a violência real da expansão da influência militar e financeira. A Armênia, encurralada entre a Rússia e a Turquia, não está escolhendo “comerciar em paz”; está sendo empurrada para um realinhamento que pode custar sua segurança existencial.
Por fim, a sua proposta de “deixar o povo comerciar em paz” sem Estado é, na prática, uma receita para a barbárie dos mais fortes. O Estado não é ontologicamente belicista — ele é um campo de disputa. A luta dos povos periféricos, como o armênio ou como os latino-americanos que conheço, não é pela abolição do Estado, mas pela sua transformação em instrumento de soberania popular, capaz de planejar o desenvolvimento, negociar em bloco e resistir às chantagens do centro. O “Estado mínimo” defendido pelo anarcocapitalismo nunca passou de Estado máximo para o capital: basta ver o que foi o Consenso de Washington na América Latina — desmontou proteções sociais, entregou patrimônio público e aumentou a dependência, tudo em nome da “liberdade de comércio”. A paz, se é que podemos falar nela, não virá da utopia regressiva de um mundo sem mediações políticas, mas da superação do capitalismo imperialista e da construção de uma ordem internacional baseada na autodeterminação dos povos. E isso, camarada Rick, exige mais e melhor Estado — exige poder popular organizado.