A escalada do conflito no Oriente Médio acelerou a busca por alternativas ao dólar no comércio internacional, marcando um novo capítulo na era do petrodólar. A análise, repercutida pelo portal RT Actualidad, aponta para uma reorganização do sistema financeiro mundial impulsionada por pressões geopolíticas e geoeconômicas de longo prazo.
A recente volatilidade nos preços do petróleo gerou forte instabilidade nos mercados, provocando uma venda massiva da dívida pública dos Estados Unidos. Em paralelo a essa turbulência, bancos centrais internacionais iniciaram um movimento de liquidação desses ativos, reduzindo as custódias do Banco da Reserva Federal de Nova York para 2,7 trilhões de dólares, o nível mais baixo em 14 anos.
As sanções impostas pelos Estados Unidos atuaram como um catalisador na criação de mecanismos financeiros independentes do dólar. O bloco BRICS, desde o início do conflito na Ucrânia, intensificou seus esforços para realizar transações em moedas locais e desenvolver sistemas como o BRICS Pay, uma plataforma global de pagamentos.
A Rússia consolidou seu Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras (SPFS) como alternativa regional, integrando-o com a Índia e o Irã e obtendo aprovação na União Econômica Euroasiática, composta por Rússia, Cazaquistão, Bielorrússia, Quirguistão e Armênia. Em um movimento prático, o Irã passou a cobrar em yuan os serviços de passagem pelo Estreito de Ormuz, transformando a rota em um ponto estratégico para a desdolarização.
O comércio bilateral entre as potências do bloco é um reflexo direto dessa mudança, com quase 90% das transações entre Rússia e China sendo liquidadas em suas próprias moedas. Refinarias indianas também já pagam pelo petróleo russo utilizando o yuan ou dirhams dos Emirados Árabes Unidos.
Outra iniciativa de destaque é o projeto mBridge, uma rede de moedas digitais de bancos centrais que permite a instituições financeiras executar e liquidar transações internacionais completamente à margem de sistemas tradicionais como o SWIFT. Essa estrutura representa um avanço concreto na construção de uma infraestrutura financeira alternativa e soberana.
O ouro, ativo que não pode ser sancionado, vive um momento de grande valorização como pilar da estratégia de diversificação de reservas. Os bancos centrais, com o objetivo claro de reduzir a dependência do dólar, tornaram-se compradores líquidos do metal, acumulando volumes superiores a 1.000 toneladas anuais entre 2022 e 2024.
Apesar desses movimentos, o domínio do dólar, embora em erosão, permanece significativo segundo um relatório do JP Morgan citado na análise. A faturação comercial em dólar manteve-se estável entre 40% e 50% nas últimas duas décadas, enquanto o yuan ainda não substituiu a moeda americana nos mercados de capitais globais.
O peso do dólar nas reservas mundiais caiu de 71% em 1999 para os atuais 57%, ainda que a moeda represente 50,2% dos pagamentos globais e 90% das transações de câmbio. O cenário geopolítico instável está consolidando uma arquitetura financeira multipolar que desafia a hegemonia do dólar em múltiplas frentes.
Com informações de ACTUALIDAD.
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