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Carlos Bolsonaro deixa vazar crise na campanha de Flávio

Carlos Bolsonaro ataca marqueteiros da campanha de Flávio ao Senado por SC e expõe guerra fratricida no clã às vésperas de 2026

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Mudança de marqueteiros na campanha de Flávio gerou reação pública e aumentou tensão entre aliados do PL. / Reprodução

Ataque de Carlos Bolsonaro à equipe de comunicação do irmão expôs divisões estratégicas dentro do bolsonarismo.

A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para conquistar uma cadeira no Senado por Santa Catarina sofreu um abalo interno devastador nesta quarta-feira, 28 de maio de 2026, quando o próprio irmão, o ex-vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL-RJ), foi às redes sociais para detonar a nova equipe de marqueteiros que assumiu a comunicação da candidatura. O ataque, em forma de compartilhamento de um vídeo viral, escancarou uma guerra fratricida no coração do bolsonarismo e expôs o desespero do clã diante da dificuldade de transferir votos para além do Rio de Janeiro.

O vídeo compartilhado por Carlos Bolsonaro trazia críticas demolidoras a profissionais de marketing político que, segundo a peça, estariam promovendo uma limpeza artificial na linguagem e no alcance digital da campanha, excluindo deliberadamente as bases mais folclóricas e fiéis do bolsonarismo. As ‘tias do zap e tios do churrasco’, como o material se referia aos eleitores raiz que inundam grupos de WhatsApp e redes sociais com conteúdos inflamados, teriam sido descartados em nome de uma estratégia asséptica que, na visão de Carlos, trai a essência do movimento que elegeu Jair Bolsonaro em 2018.

A crise se tornou pública poucas horas depois de Flávio Bolsonaro anunciar mudanças significativas em sua comunicação, substituindo antigos aliados digitais por uma agência de perfil mais corporativo, contratada para sofisticar a imagem do senador junto ao eleitorado catarinense. A decisão, segundo apurou a Revista Fórum, gerou mal-estar imediato nos bastidores do PL, partido que hoje controla a máquina bolsonarista, e reacendeu as tensões antigas entre os filhos 02 e 03 do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Carlos Bolsonaro, que durante décadas operou como o cão de guarda digital da família e foi o arquiteto da comunicação bolsonarista nas redes, interpretou a substituição dos marqueteiros como uma tentativa de afastá-lo do centro de poder que ele mesmo ajudou a construir. O gesto de compartilhar o vídeo não foi ingênuo nem isolado, mas calculado para enviar um recado interno ao irmão e ao entorno político do PL: sem os métodos brutos e sem a mobilização das bases digitais mais radicais, a campanha de Flávio não decola em Santa Catarina, estado onde o bolsonarismo precisa consolidar território para 2026.

Leia também: Toda a cobertura dos escândalos da família Bolsonaro.

A tentativa de Flávio Bolsonaro de se viabilizar como candidato ao Senado por Santa Catarina já vinha enfrentando resistências locais e questionamentos sobre seu domicílio eleitoral, uma vez que sua trajetória política sempre esteve vinculada ao Rio de Janeiro. A mudança de estado, articulada para ampliar o número de cadeiras bolsonaristas na Casa Alta, sempre foi vista com desconfiança por setores do próprio PL catarinense, que temem que a aventura fluminense rache o partido e enfraqueça candidaturas locais já consolidadas.

O compartilhamento de Carlos Bolsonaro escancarou essas fragilidades ao atingir diretamente a equipe que Flávio montou justamente para tentar tornar sua imagem mais palatável ao eleitorado do Sul. O vídeo acusava os novos marqueteiros de não compreenderem a dinâmica da internet bolsonarista e de estarem mais preocupados em agradar a imprensa tradicional do que em manter acesa a chama da militância digital que sempre sustentou a família nos momentos de crise. A peça sugeria que a comunicação profissionalizada estava esterilizando o discurso e afastando justamente os eleitores que garantiram a resiliência do bolsonarismo mesmo após a derrota de 2022 e as investigações que se seguiram.

Para além da briga familiar, o episódio revela a dificuldade estrutural do PL em unificar um discurso de campanha para 2026 enquanto administra as vaidades e os projetos pessoais dos herdeiros políticos de Jair Bolsonaro. Flávio busca construir uma persona de senador moderado e articulador, capaz de transitar no establishment político sem perder o apoio da base, enquanto Carlos insiste em manter o partido refém da guerrilha digital que tantos danos institucionais já causou ao país. O conflito entre os dois irmãos é, na prática, uma disputa pelo controle do espólio político do pai, que segue inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral.

O racha exposto por Carlos também reacende as suspeitas sobre a real capacidade eleitoral do sobrenome Bolsonaro fora do eixo Rio-São Paulo e longe da máquina do governo federal, que em 2022 não foi suficiente para reelegê-lo. Em Santa Catarina, estado de perfil conservador mas com tradição de votos em candidaturas locais, a aposta em um forasteiro com rejeição alta e carregando as malas das investigações do STF sobre joias sauditas, rachadinhas e trama golpista pode se mostrar um fiasco, especialmente se a própria família boicotar a mensagem oficial da campanha.

A conexão do episódio com o projeto eleitoral de 2026 é direta e venenosa: a blindagem que o bolsonarismo tenta construir em torno de seus quadros depende de uma narrativa coesa e de uma base digital mobilizada, dois ativos que a briga entre Carlos e Flávio coloca em risco. Com Jair Bolsonaro fora do páreo, o PL precisa que seus principais puxadores de voto — entre eles Flávio e Eduardo Bolsonaro — estejam alinhados em torno de uma estratégia comum para enfrentar o campo progressista liderado por Lula. O que o vídeo compartilhado por Carlos mostra é que nem entre irmãos o consenso sobrevivente.

Eduardo Bolsonaro, que articula apoio da extrema-direita internacional e tenta se cacifar como presidenciável para 2026, ainda não se manifestou publicamente sobre o racha, mas interlocutores do PL avaliam que o silêncio é uma tentativa de não alimentar a crise. A ausência de uma reação imediata, no entanto, não apaga o estrago que a exposição da briga já causou entre apoiadores e financiadores de campanha, que veem na desorganização interna um sinal de alerta para a viabilidade do projeto bolsonarista em nível nacional. O mercado político começa a precificar o risco de uma fragmentação irreversível do espólio de Jair Messias.

A escalada de Carlos Bolsonaro contra os marqueteiros do irmão ocorre também em um momento em que o nome de Flávio está associado a controvérsias financeiras de grande repercussão, incluindo a relação com o Banco Master e operações que despertaram a atenção de órgãos de fiscalização. Qualquer ruído público que enfraqueça a imagem do senador tende a reverberar nessas áreas sensíveis, ampliando a vulnerabilidade de um político que pretende se reeleger sob o escrutínio de um eleitorado que, em Santa Catarina, não tem intimidade histórica com o clã Bolsonaro e pode punir nas urnas a desordem interna.

A campanha de Flávio, procurada por veículos de imprensa, não respondeu até o fechamento desta edição sobre o conteúdo do vídeo compartilhado por Carlos nem sobre a manutenção ou substituição da nova equipe de comunicação. O silêncio oficial contrasta com a barulheira digital que tomou conta das redes bolsonaristas desde a noite de terça-feira, com grupos de Telegram e WhatsApp fervilhando em debates acalorados entre os que defendem a profissionalização da campanha e os que acusam a nova equipe de trair a militância raiz.

Em um movimento típico da dinâmica tóxica da família Bolsonaro, Carlos não desmentiu nem relativizou o vídeo, deixando que a crítica corresse solta e alimentasse ainda mais a desconfiança sobre os rumos da candidatura do irmão. O episódio reforça o padrão de autossabotagem que marcou a trajetória do bolsonarismo, sempre mais eficiente em destruir pontes internas do que em construir alianças duradouras fora de sua bolha ideológica.

A ofensiva de Carlos contra os marqueteiros de Flávio, no fim das contas, é mais do que um ataque pessoal disfarçado de preocupação estratégica: é a confissão pública de que o projeto de poder da família Bolsonaro não consegue sequer sobreviver a uma reunião de planejamento de campanha sem implodir em disputas de ego e acusações de traição. Em Santa Catarina, onde Flávio tentava plantar uma nova semente eleitoral, o terreno agora está minado por uma explosão que veio de dentro de casa.

Com informações de Revista Fórum.

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Rhyan de Meira

Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com

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