Um grupo de astrofísicos detectou pela primeira vez três moléculas orgânicas complexas nas ondas de choque geradas por jatos de uma protoestrela, revelando que esses ambientes violentos funcionam como laboratórios naturais para a criação dos tijolos químicos da vida. As descobertas, lideradas por pesquisadores do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, ampliam a compreensão sobre como a natureza fabrica moléculas baseadas em carbono em regiões onde estrelas estão nascendo.
Protoestrelas são astros em formação que ainda não iniciaram a fusão de hidrogênio, crescendo pela acreção de gás e emitindo jatos de alta velocidade que colidem com o meio interestelar. Esses choques concentram energia e matéria, quebrando moléculas e forjando novas ligações químicas em um evento onde átomos se rearranjam sob calor e pressão extremos.
O levantamento PRODIGE, conduzido com o radiotelescópio NOEMA nos Alpes franceses e concluído no final de 2025, detectou as moléculas acetonitrila (CH3CN), acetaldeído (CH3CHO) e metanol deuterado (CH2DOH). A acetonitrila ocupa posição central na rede química do nitrogênio, enquanto o acetaldeído é uma das moléculas orgânicas complexas mais simples com oxigênio, e sua via de formação intriga os cientistas.
A presença do metanol deuterado representa um achado ainda mais surpreendente, pois essa molécula deveria ter sido destruída pelo calor intenso dos jatos, mas sobreviveu intacta como um fóssil químico. Os astrônomos acreditam que ela se formou no gás da fase pré-estelar e ficou aprisionada em mantos de gelo, sendo libertada pelos choques sem se desintegrar.
A pesquisadora Laura Busch, do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, notou emissões incomuns de cianeto de metila enquanto trabalhava no levantamento PRODIGE. Busch relata que essas emissões pareciam traçar o fluxo de saída da estrela em formação, o que a levou a buscar mais moléculas complexas nos dados.
O estudo, detalhado na revista Astronomy & Astrophysics, concentrou-se na protoestrela IRAS 4B1, um sistema binário na região de formação estelar NGC 1333. Apenas um outro fluxo protoestelar, o L1157-B1, foi observado com sensibilidade comparável, e os autores defendem que novas observações permitirão construir um inventário químico completo.
Os diferentes padrões de emissão permitiram aos cientistas mapear a distribuição das moléculas ao longo dos jatos, revelando regiões com temperaturas e densidades distintas. Com esforços de modelagem, esses dados fornecerão informações cruciais sobre os mecanismos de criação e destruição de moléculas orgânicas complexas e a estrutura dos fluxos protoestelares.
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