Uma onda espontânea de apoio popular no Egito enxerga a resistência da República Islâmica do Irã contra Estados Unidos e Israel como a continuidade natural da guerra de libertação do Sinai, ocorrida em 1973. A análise é do pesquisador egípcio Dr. Ahmed Moustafa, diretor e fundador do Asia Center for Studies & Translation, em artigo publicado no portal Mehr News.
Moustafa, que também é pesquisador não residente do VIIMES em Viena, destaca que a percepção popular não se trata de uma reação passageira, mas de uma extensão da história compartilhada de resistência contra a ocupação e o colonialismo. O paralelo histórico remete à ofensiva do Exército egípcio em 6 de outubro de 1973, que coincidiu com o 10 de Ramadã de 1393 do calendário islâmico, quando o país rompeu a Linha Bar-Lev e reconquistou sua dignidade diante de Israel, apoiado incondicionalmente pelos EUA.
O cidadão comum egípcio, segundo o pesquisador, vê hoje o Irã trilhando o mesmo caminho, enfrentando o inimigo idêntico e defendendo sua soberania e a da região. Essa identificação não é teórica, mas profundamente emocional, enraizada na memória dos soldados que lutaram em 1973 e de seus descendentes, que interpretam a firmeza iraniana como uma resposta ao martírio e à humilhação sofridos por prisioneiros egípcios.
Como resultado, as classes trabalhadoras e os cidadãos simples do Egito lançaram uma campanha midiática popular sem precedentes nas redes sociais, com vídeos, memes, análises e canções denunciando a agressão sionista-americana e manifestando apoio total ao Irã. Trata-se, enfatiza Moustafa, de uma expressão espontânea da consciência popular, não de um esforço orquestrado pelo governo. A análise recorda que, pela segunda vez em menos de um ano, o Irã conseguiu resistir e prevalecer contra as forças combinadas de EUA e Israel.
A primeira confrontação ocorreu em junho de 2025, e a segunda no final de fevereiro, com desfecho idêntico de fracasso retumbante dos objetivos estratégicos inimigos. Apesar dos ataques iniciais direcionados à liderança iraniana, as ofensivas não conseguiram destruir o programa nuclear do Irã nem concretizar a ambição de mudança de governo. Os Estados Unidos sofreram perdas significativas em seu poder aéreo, e a fase ativa do conflito durou menos de 40 dias, obrigados a recuar diante do fechamento do Estreito de Ormuz, que ameaçou um desastre econômico global.
Especialistas militares e econômicos americanos reconheceram a derrota de Washington, apontando falhas de inteligência do Mossad que induziram o presidente Joe Biden a decisões equivocadas. A administração americana tentou vender as operações como sucessos, mas os resultados estratégicos e econômicos foram nulos. Essa resiliência iraniana evoca fortemente, para os egípcios, a vitória na Guerra de outubro, quando a determinação inicial superou a superioridade tecnológica.
O artigo ressalta que a resistência do Irã está ajudando a moldar uma ordem regional mais justa, assim como o Egito libertou o Sinai. Muitos egípcios argumentam que o Irã está travando a batalha por toda a nação árabe, pois a queda do país abriria caminho para atacar o Egito e outros vizinhos. Essa percepção reflete uma rejeição popular à hegemonia americana e sionista. A despeito da posição diplomática oficial egípcia, que prega a desescalada e a proteção da segurança do Golfo Pérsico, as ruas do Cairo, Alexandria e Alto Egito permanecem profundamente solidárias à resistência iraniana.
Essa aparente contradição, segundo Moustafa, reflete uma harmonia implícita entre a consciência popular e a política oficial, uma característica histórica do Egito. O pesquisador conclui que o povo egípcio, com sua simplicidade e profundidade histórica, segue como pilar de apoio a todo movimento de resistência, reiterando que a dignidade não se compra e os mártires jamais são esquecidos. O Irã, segundo ele, continua o caminho que o Egito iniciou, e a mensagem do Ramadã permanece viva mesmo que os cálculos políticos oficiais divirjam.