Exército de bebês e cães é nova arma contra crise de replicação na psicologia

Composição de imagens de bebês, cães e animais diversos para ilustrar reportagem sobre psicologia. (Foto: nature.com)

O experimento clássico que mostrava bebês de seis meses preferindo personagens prestativos em vez de atrapalhadores foi derrubado pela maior replicação já realizada na área da psicologia do desenvolvimento. O estudo original, publicado em 2007 pela psicóloga Kiley Hamlin, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, interpretou essa preferência como uma capacidade social inata, anterior à linguagem.

Dúzias de tentativas posteriores de repetir o achado produziram resultados conflitantes, mergulhando a área em dúvidas. Diante do impasse, Hamlin organizou em 2017 o ManyBabies4, uma colaboração de 37 grupos de pesquisa em 18 países que testou mais de mil bebês. Os resultados, publicados em 2025 e detalhados pela Nature, não encontraram nenhuma preferência significativa por ajudantes.

A psicóloga ficou decepcionada e especula que a pandemia de COVID-19, ao privar os bebês de interações sociais, pode ter influenciado o resultado nulo. Não sei se os bebês nunca tiveram essa capacidade ou se é algo preocupante sobre os bebês pós-covid, disse ela.

O ManyBabies é apenas um dos vários consórcios que surgiram para enfrentar a crise de replicação na psicologia e em outras ciências. Projetos como ManyBirds, ManyDogs e ManyManys reúnem centenas de pesquisadores para testar hipóteses com amostras muito maiores e mais diversificadas.

O ManyBirds, por exemplo, envolveu 129 cientistas de 77 instituições em 24 países para estudar a aversão à novidade em 136 espécies de aves. Os resultados confirmaram que aves migratórias e com dietas especializadas são mais neofóbicas, apoiando teorias evolutivas. Já o ManyDogs, com 20 grupos de pesquisa em 9 países, testou se cães interpretam o apontar humano como informação social ou comando aprendido.

O consórcio desenvolveu um protocolo padronizado e testou mais de 450 cães, mas os resultados ainda estão sendo analisados. O ambicioso ManyManys pretende comparar a aprendizagem reversa em uma gama impressionante de espécies, de humanos e bonobos a crocodilos e abelhas. O objetivo é entender a origem evolutiva da flexibilidade cognitiva, evitando a dependência de poucos modelos animais.

Além de aumentar o poder estatístico, essas colaborações ampliam a diversidade das amostras, incluindo populações sub-representadas. A abordagem também reduz a competição e a hierarquia, beneficiando pesquisadores em início de carreira, como destacou Rachael Miller, cofundadora do ManyBirds.

Contudo, a falta de hierarquia também traz desafios logísticos significativos. A coordenação de dezenas de laboratórios com culturas e métodos distintos exige um esforço monumental de comunicação e padronização. A crise de replicação não se limita à psicologia do desenvolvimento. O Projeto de Reprodutibilidade: Psicologia, que tentou replicar 100 experimentos, constatou que apenas entre um terço e metade dos resultados originais foram observados novamente.

Outro esforço, o SCORE, avaliou 164 artigos de ciências sociais e descobriu que 49% puderam ser replicados de forma independente. Estabelecer replicabilidade é muito mais difícil do que se imaginava, afirmou Brian Nosek, líder de várias dessas iniciativas. Apesar dos percalços, os defensores da ciência em grande escala acreditam que o rigor adicional justifica o esforço.

Combinar dados de múltiplos laboratórios dá à comunidade científica um poder estatístico sem precedentes para testar questões fundamentais. Sejam bebês, cães ou flamingos, a mensagem é clara: a psicologia está aprendendo a duvidar de si mesma para se fortalecer. E nesse exército improvável, cada participante conta.

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