Daraxonrasib reduz risco de morte em 60% no câncer de pâncreas

Célula cancerígena em representação gráfica, ilustrando pesquisa sobre tratamento de câncer pancreático. (Foto: sciencedaily.com)

Uma nova droga oral chamada daraxonrasib conseguiu atingir uma mutação genética considerada intocável por décadas e quase dobrou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático em estudo clínico de fase 3. O tratamento reduziu o risco de morte em 60% em comparação com a quimioterapia padrão, marcando um dos avanços mais significativos contra uma das doenças mais letais da oncologia.

O câncer de pâncreas é historicamente um dos tumores mais mortais, com cerca de 97% dos pacientes diagnosticados em estágio metastático morrendo em cinco anos. A doença raramente apresenta sintomas nos estágios iniciais e, quando surgem sinais como icterícia ou dor abdominal, o tumor geralmente já se espalhou para outros órgãos.

Mais de 90% dos tumores pancreáticos são impulsionados por mutações no gene KRAS, que produz proteínas que funcionam como interruptores do crescimento celular. Quando o gene sofre mutação, esse interruptor fica permanentemente ligado, ordenando que as células cancerosas se multipliquem sem parar.

A superfície da proteína KRAS é excepcionalmente lisa e não possui os bolsos moleculares que os fármacos tradicionais precisam para se ligar e desligar o interruptor. Por essa razão, durante décadas, os cientistas consideraram o KRAS um alvo impossível de ser drogado, deixando a quimioterapia como única opção, com sua ação tóxica brutal contra tecidos saudáveis.

O daraxonrasib contorna esse obstáculo ao não se ligar diretamente ao KRAS, mas sim a uma molécula chamada ciclofilina A, que auxilia no dobramento das proteínas dentro das células. Esse complexo proteico então consegue se acoplar à proteína KRAS ativa e silenciar sua capacidade de sinalizar a multiplicação celular cancerosa.

Os resultados do ensaio clínico, apresentados no final de maio e divulgados pelo The Conversation, envolveram 500 pacientes com câncer pancreático metastático que já haviam recebido tratamento prévio. A sobrevida global saltou de 6,7 meses com quimioterapia padrão para 13,2 meses com o novo medicamento, praticamente dobrando o tempo de vida após o diagnóstico.

O efeito colateral mais comum foi uma erupção cutânea proeminente, que afetou mais de 86% dos participantes do estudo. Os pacientes também enfrentaram estomatite, diarreia, náusea e vômitos, mas mostraram-se muito menos propensos a interromper o tratamento por toxicidade severa em comparação com a quimioterapia.

A qualidade de vida também melhorou, com redução significativa da dor, um fator crucial para pacientes em estágio avançado da doença. Christopher Lieu, professor de oncologia médica da Universidade do Colorado Anschutz e autor do artigo original, destacou que este marco representa uma provável guinada no tratamento do câncer de pâncreas.

A empresa desenvolvedora, Revolution Medicines, utilizará agora esses dados para buscar aprovação formal junto à FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos, e outros órgãos reguladores globais. Como terapias inovadoras para doenças de difícil tratamento costumam receber revisão prioritária, o medicamento poderá estar disponível nas clínicas em questão de meses.

O sucesso do daraxonrasib também abre caminho para uma nova geração de ensaios clínicos combinando inibidores de KRAS com outras drogas para evitar que os tumores desenvolvam resistência. A era das terapias personalizadas e de precisão para um dos cânceres mais temidos da humanidade finalmente começa a se tornar realidade.

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