Irã fecha estreito de Ormuz e ordena atirar contra navios após ofensiva dos EUA

Helicópteros militares voam sobre o mar com navios ao fundo, próximo à região do Estreito de Hormuz. (Foto: aljazeera.com)

O governo do Irã anunciou o fechamento total do Estreito de Ormuz, passagem marítima vital por onde transita um quinto do petróleo e gás natural do mundo em tempos de paz, e advertiu que qualquer embarcação que tente forçar a travessia será alvejada. A decisão veio em retaliação direta aos ataques aéreos dos Estados Unidos contra alvos militares e infraestrutura iraniana, que se intensificaram ao longo da semana.

Segundo reportagem do portal Al Jazeera, a ordem partiu do comando militar iraniano ainda nas primeiras horas do dia, após os Estados Unidos deflagrarem uma nova rodada de bombardeios contra instalações consideradas estratégicas pela República Islâmica. O Comando Central dos EUA (CENTCOM) qualificou os ataques como «autodefesa» e afirmou que algumas embarcações ainda conseguiam cruzar a passagem, mas a tensão na região atinge agora um dos patamares mais críticos desde o início da guerra, em fevereiro.

A crise humanitária e militar que se desenrola no Oriente Médio ganhou novos contornos nos últimos dias. Explosões foram reportadas na cidade portuária de Bandar Abbas e na ilha de Qeshm, enquanto reservatórios de água que abastecem 20 mil pessoas foram destruídos em ataques americanos na região de Sirik. O CENTCOM descreveu as ações como «resposta proporcional» à derrubada de um helicóptero Apache dos EUA sobre o estreito na segunda-feira — incidente cuja autoria o Irã nega ter sido deliberada.

O ciclo de retaliações ganhou nova intensidade. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) do Irã respondeu com um ataque de drones contra a Quinta Frota dos EUA no Bahrein e lançou mísseis de combustível sólido de longo alcance contra uma base aérea na Jordânia.

As forças armadas jordanianas afirmaram ter interceptado cinco projéteis, enquanto sirenes antiaéreas soaram também no Bahrein e no Kuwait. O IRGC alertou que «medidas retaliatórias mais pesadas» viriam caso a «agressão» militar americana prosseguisse – e foi exatamente o que ocorreu.

O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, confirmou que Washington executou novos ataques na quarta-feira, afirmando que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou que o Irã fosse atingido «com força». Trump, por sua vez, declarou que os iranianos «demoraram demais para negociar um acordo que teria sido ótimo para eles» e que agora teriam de «pagar o preço». O Ministério das Relações Exteriores do Irã condenou os bombardeios como «ataques ilegais e criminosos», acrescentando que a ofensiva americana tornou o cessar-fogo, embora formalmente em vigor desde abril, «inútil».

O Estreito de Ormuz já operava sob controle rigoroso do Irã desde o início do conflito. Em 2 de março, um assessor sênior do IRGC havia anunciado o fechamento da passagem, prometendo «incendiar» navios que tentassem furar o bloqueio. A medida foi suavizada em alguns momentos, como gesto de negociação, após o estabelecimento de um cessar-fogo em 8 de abril.

Nesse período, Teerã reabriu parcialmente a rota e chegou a permitir a travessia de embarcações de países considerados não hostis. Contudo, essa trégua se tornou frágil com o colapso das negociações presenciais em Islamabad, em 12 de abril, e o subsequente anúncio de um bloqueio naval americano contra portos iranianos, em 13 de abril, que levou ao recrudescimento do controle iraniano na região.

Para analistas, essa nova escalada de hostilidades expõe a ineficácia do diálogo indireto mediado pelo Paquistão. Foad Izadi, professor da Universidade de Teerã, disse à Al Jazeera que o Irã está disposto a arcar com qualquer custo para manter a soberania sobre Ormuz, «porque isso lhe dá alavancagem».

O especialista em segurança Samir Puri, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Singapura, apontou que os ataques americanos a radares e instalações de vigilância sugerem uma tentativa de degradar a capacidade iraniana de monitorar o estreito. Ali Vaez, diretor do Projeto Irã no International Crisis Group, reforçou que o novo fechamento total «vai elevar os preços da energia, o que se traduz em pressão sobre o presidente Trump para recuar».

De fato, o petróleo Brent já havia saltado para a faixa de 93 dólares o barril, acumulando uma disparada que, desde o início do bloqueio, levou as cotações a picos de 126 dólares — muito acima dos 65 dólares do pré-guerra. A paralisia da rota também estrangula o fornecimento de fertilizantes e produtos farmacêuticos.

Chris Featherstone, cientista político da Universidade de York, afirmou que o anúncio do Irã demonstra um «entrincheiramento» de sua posição e revela «quão distantes EUA e Irã estão de um possível fim negociado para este conflito». Para ele, a medida «acrescenta pressão significativa sobre o governo Trump para demonstrar que tem um plano para encerrar a guerra — algo que até agora não conseguiu fazer».

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